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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


quinta-feira, agosto 31, 2006

Isto da blogosfera está cheio de conversa que não interessa a ninguém. Se a gente fosse a fazer fé no que para aí vê, devia haver mais gente na T.V. sentada em mesas coloridas a largar dichotes para o ar que gente sentada em casa a vê-los porque não tem vontade de pegar no comando para mudar de canal. É só heróis e doutores e gente muito culta e lida e ouvida e organizada. Felizmente que há uns otários que ainda vão bulir de manhã para pôr o país a mexer, aqui como o Gonçalves, não é? Mas nós não somos bonitos, nem lemos aquele autor arménio que vendeu três livros, dois dos quais na FNAC de Santa Catarina, nem ouvimos aquele cantautor romeno que recuperou as tradições dos pastores do Baixo Volkgesteinschüarkgezut, actualizando-as com batidas que bebem da melhor tradição do blá-blá-blá e depois ninguém consegue ouvir aquilo. Entre a malta que papa as novelas e os gajos que sacam filmes afegãos sobre a gestão dos silêncios numa família em contexto urbano, quem é que fala do que interessa? Ninguém!

Ah, mas isso vai mudar tudo. Oh, se vai!

quarta-feira, agosto 30, 2006


O Pico* das Transmissões Televisivas de Verão


O mamilo esquerdo - eriçado e à mostra - da Isabel Angelino, no programa «A Canção da Minha Vida».

* Ou deverei dizer bico?


terça-feira, agosto 29, 2006

Bora lá à procura das bandas escondidas.....
E bora lá desbloquear os comentários, já agora.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Uma das canções da minha vida

Isto sim, isto é que era música, nos tempos em que havia respeito.

terça-feira, agosto 22, 2006

Arlindo, o gay homófobo - 9º episódio

A disposição de Arlindo começou a azedar aí por volta das 18 horas. “Aquele cabrão bem que podia dizer alguma coisa. Não tinha que telefonar a agradecer, bastava dizer que estava bem…”. Passara o dia inteiro em pijama, Arlindo, andando de divisão em divisão, pegando no telemóvel, ligando e desligando a televisão, ouvindo música e irritando-se com o que ouvia.
Decidido a pôr fim à arrelia e a aproveitar o resto do dia, combinou jantar com dois amigos que conhecera no trabalho: Edmundo e Artur, “dois homens como deve ser, dos que praguejam, dos que se babam pelas gajas, dois gajos como eu!”.
Passou as mãos pela cara e notou que precisava de se barbear. Enquanto via o seu reflexo no espelho pensava: “Gosta de ti, rapaz. Cada sobrancelha, cada cabelo, cada dente menos branco é um testemunho dos teus anos de existência. Está bem… as sobrancelhas, os cabelos, os dentes talvez ainda não tenham 27 anos de existência mas deixa-te ser impreciso quando pensas sobre ti. Não há espartilhos no que pensas de ti. Conhece-te, rapaz. Olha bem para essa cara e memoriza-a. Não fiques espantado quando a vês em fotografias ou filmes. Guarda-te na memória. Ganha consciência de ti. Avalia-te. És bonito? Lá está. Sê impreciso. Convenciona-te bonito. És bonito, sim senhor. És o paradigma da tua beleza. Não te “sintas” bonito. Toma-te pelo conceito de beleza. Ama-te, rapaz.”
Assim pensou Arlindo – e até terá pensado menos mal. O pior foi o que fez a seguir.

Jantaram na Casa da Índia, na Calçada do Combro. Comeram, beberam e conversaram. Sobre quê? Bom, nada de especial. Umas graçolas, comentários vagos como “Esta merda dos incêndios… Há-de ser a mesma vergonha todos os anos até que não matem um ou dois…”, umas apreciações mais ou menos críticas às estrangeiras que demandavam o Bairro Alto e cercanias, e umas quantas banalidades sobre futebol – um elenco perfeitamente normal para quem nunca esperara mais do que isso, apenas um jantar de pessoas que se conhecem pela rama.
Edmundo era mais assertivo ao passo que Artur tendia para o calado. Arlindo andava pelo meio, espevitando a conversa mas deixando as despesas da mesma a Edmundo – que não se importava.
“Mulher minha que me fizesse isso, matava-a enquanto a fodia por trás! Era certinho!”, dizia Edmundo a propósito de uma qualquer história vulgar de baixa fidelidade, enquanto girava o balão de Famous Grouse.
“És pouco bruto!”, bramia Artur entre risadas. Era calado mas ria-se com facilidade e gosto.
“Pelo menos havia de partir em glória, a levar com ele no sim-senhor. Um homem dá-lhes tudo, quase que prescinde dos amigos, deixa de levar a vida que gosta e o que é que recebe de volta? Um valente par de cornos. A mim, não é tão cedo que me fazem boi preso…”, insistia Edmundo.
“Também há por aí muito gajo a dar a sua voltinha com quem não devia.”, instigava Arlindo.
“E fazem eles bem! Acabam com um par de cornos quer as dêem quer não!…”, retorquia Edmundo, satisfeito com a gargalhada cúmplice – ainda que ligeiramente inana – de Artur.
O diálogo é fraco, não é? Paciência, era o deles e não me deu para inventar outro.

Acabado o repasto, com largas quantidades de vinho barato e uísque a fermentar em pequenas – ou nem tanto – barricas de tecido orgânico, puseram-se os três a descer a Calçada do Combro, sem destino traçado, em conversa ébria de Verão que é igual à de Inverno mas ainda menos interessante. Entraram pelos Poiais de São Bento e viraram por umas ruazinhas estreitas, guiados por Arlindo, que conhecia a zona.
Apesar de ser Sábado, as ruas não tinham muita gente – a bem da verdade, aquela em que caminhavam agora estava deserta, à excepção dos três estarolas. Isto até que, de um dos prédios, saiu um rapazito aparentando 20 anos e aparentando mais qualquer coisa. Edmundo não se conteve:
“Olha-me a florzinha… Saiu agora de casa para apanhar o relento…”
Artur sentiu-se mais ousado:
“E deve apanhá-lo por trás, o paneleirão…”, e riu da sua tirada, olhando em volta em busca de apreciação.
O rapazito, talvez por isso mesmo, por ser só um rapazito e conhecer pouco da vida, decidiu responder:
“E vocês devem ser uns grandes garanhões, para andarem aí os três sozinhos…”
“Olha-me este!”, indignava-se Edmundo, “O rabicho de merda já quer parecer um homenzinho!…”
O rapazito escolheu mal as palavras com que retorquiu:
“Já tive muitos como tu a baixar as calças à minha frente…”

O primeiro estalo veio de Arlindo, que se mantivera um pouco à margem. E teve um efeito libertador: encostado a uma parede, na rua ainda deserta e mal iluminada, o rapazito sofreu. Edmundo concentrou-se na cara, com uns estaladões de cima para baixo com a sua larga mão direita, o sexto fazendo o sangue brotar do sobrolho esquerdo do miúdo. Artur, com um olhar esgazeado, desferia uns pontapés certeiros na perna direita do rapaz, fazendo-o perder o equilíbrio e quase escorregar ao longo da parede. Quase, porque Arlindo ia-o mantendo de pé com uma série precisa de socos no abdómen. Arlindo perdeu a noção de tempo. Estava absolutamente concentrado, procurando acertar sempre com o punho no mesmo sítio. E maravilhado por conseguir. Foi ficando fascinado com a forma como a carne parecia mudar de textura, de densidade, à medida que lhe ia betendo. Firme, de início; amolecendo, depois; quase encaroçando à medida que o seu braço direito se ia cansando. Apetecia-lhe furar a pele e bater na carne por dentro, esmagar a carne na palma da mão, sentir o interior do corpo, a temperatura, a viscosidade. Qualquer ruído numa janela despertou-os do transe. O rapazito deixou-se cair no passeio, a cara com fios de sangue, a perna direita numa posição esquisita. Edmundo abraçou-se a Arlindo, com uma notória erecção. Arlindo repeliu-o, sem ferir susceptibilidades e disse que era melhor irem apanhar um táxi. Artur estava ajoelhado na estrada, a chorar. Arlindo fê-lo levantar-se e lá os levou até à Rua de São Bento, onde cada um dos três apanhou o seu táxi.

Arlindo chegou a casa perfeitamente tranquilo e pacificado, depois de uma viagem de conversinha de merda com o taxista. Abriu as janelas, acendeu só o candeeiro da mesa de cabeceira e escreveu no seu diário:

“É justo e é belo o amor de um homem por outro homem. Ser paneleiro é uma doença.”

sexta-feira, agosto 18, 2006

Microfábulas – especial Verão 2006

Havia, certa vez, uma mulher solteira e conformada com essa situação, que se esforçava por esconder, ainda que sem grande sucesso, um carinho desmedido pelas bebidas brancas que consumia vorazmente no recato do seu pequeno apartamento. “Lá vai a Mariana Bezana!”, diriam uns; “Lá vai a Dona Mariana!”, diriam os mais educados. E Mariana lá ia, geralmente de carro, até qualquer grande superfície suficientemente longe do seu bairro onde se pudesse abastecer daquilo que tanto apreciava a salvo do julgamento sumário dos olhares dos vizinhos.

Mulher educada e reservada, a quem nem o álcool conferia particular vivacidade, Mariana habituara-se a passar férias sozinha, entre Peniche e a Consolação, encarando esses 15 dias – impreterivelmente na primeira quinzena de Agosto e sempre na mesma residencial – como uma oportunidade de fazer o que lhe apetecia sem restrições de maior. Que é como quem diz: podia beber durante o dia e durante a noite, beber à frente das outras pessoas sem receio do que poderiam dizer os colegas de trabalho ou a vizinha de baixo.

Com algum aprumo ainda que sem beleza de nota, Mariana aproveitava a bonomia veraneante para parar num ou noutro bar já seu conhecido – era um cordão que se partia no seu espartilho mental e sabia-lhe bem o arrojo, a prevaricação de beber em sociedade. Mulher volumosa e bem lançada, fora aprendendo a interagir com o álcool e a resistir aos seus efeitos. Mesmo se bem bebida – e o seu trabalho numa companhia de seguros permitia-lhe não pensar nas implicações financeiras do consumo – conseguia manter a dignidade, uma dignidade aparente, pelo menos, que é sempre a mais importante.

Nesses bares, pouca gente a abordava. Mariana conseguia ter um ar severo, mesmo se olhando deleitada para uma boa garrafeira. Ora certa noite, estando a sua alma em êxtase com um Cognac Leyrat X.O. Elite, abeira-se da sua mesa um indivíduo sensivelmente da mesma idade e de aspecto regular que, numa voz que traía apenas ao de leve a forte presença de álcool no sangue, lhe disse: “Não pude deixar de reparar que escolheu o Leyrat. Aprecia o Francis Abécassis?”.
Nisto, vzzzzzzzzzzzt!

Moral 1: os amores de Verão não escolhem idade.

Moral 2: as paragens de digestão também não.

terça-feira, agosto 08, 2006

Futurologia
Naquela altura estavam quase em eleições. Lá no partido andavam aflitos para constituir as listas de candidatos. A porra da lei da paridade já tinha sido promulgada há quase três anos, mas a prova definitiva de saber se iria funcionar ou não ia ter lugar agora.
- Que raio de ano de eleições... - pensava Josué ao cofiar a barba com um gesto largo. Esta era uma barba de estimação, que Josué cultivava há largo tempo, prestando-lhe todos os cuidados que a ciência dos champôs, amaciadores, cremes de dia e de noite, hidratantes e conservantes, tinha produzido.
Nada lhe era mais precioso. Nem a sua esforçada Maria, que com os seus 32 anos (trrinta-e-dois, como ela gostava de dizer) adivinhava todos os seus desejos, mantendo a casa limpa e com bom-gosto, sendo uma óptima anfitriã e recebendo como ninguém. Todos a elogiavam e Josué sorria para consigo cada vez que se lembrava da Maria na cama.
Maria era uma fera sexual e não se coibia a toda a espécie de jogos, quer de carácter físico, quer de carácter psicológico.
Uma vez mais, Josué sorriu para consigo, recordando-se da noite anterior, em que Maria o tinha desafiado para um jogo que se prolongou até quase de madrugada.
E Maria era inteligente, dominando todos os aspectos da vida urbana, desde o apoio social até ao panegírico político. Iria dar uma excelente candidata à Assembleia Municipal e previam-se intervençõpes fulgurantes e apaixonadas, como era apanágio de Maria, tendo Josué a certeza de que seria aclamada e amada pelo Povo, como já lho provara mais do que uma vez.
Maria era a perfeição em pessoa e Josué tinha plena consciência do facto. Ele próprio devia muito à vida política, tendo feito carreira nos últimos anos nessa área. Assumia-se como «político profissional», nada tendo a esconder quanto ao aspecto de assumir publicamente a aposta nessa área.
Estávamos em 2009 e finalmente iria aplicar-se a lei da paridade, que fora promulgada em 2006. Os 33,33% de mulheres impostas por lei nas listas candidatas era uma realidade de que não se podia esconder. Josué nunca percebera se os 33,33% já incluiam homossexuais e, em caso negativo, onde é que estavam as «reservas» feitas a favor deste grupo. E porque não os marrecos ou as marrecas? Se se queria igualdade nas listas, porque é que se baseariam apenas na diferenciação entre sexos e não seguiam um outro critério, por exemplo, «os jovens com menos de trinta anos»? E se, de repente, uma mulher se tornasse homem através de uma operação de mudança de sexo? Alterar-se-iam as listas?
Josué nunca conseguira descortinar a razão de ser desta «reserva» feita ao apelidado «sexo fraco». Até parecia que as mulheres estavam a aceitar este rótulo e a admitir que eram fraquinhas.
Isso não interessava nada. Era a oportunidade ideal para a sobredotada Maria entrar para a vida política e fazer furor.
É claro que Josué sopesou todos os argumentos e escolheu a D. Tânia, empregada de limpeza do Gabinete da Câmara, segunda classe de escolaridade e sem um grande rumo na vida, para ser candidata pela lista.
Afinal, interessava-lhe mais quem não pensasse muito por si próprio e que pudesse ser «orientado» para certas direcções do que alguém que pudesse ter alguma coisa interessante a dizer.
Nem o aspecto estético do panorama político nacional se iria alterar muito neste ano de 2009...

segunda-feira, agosto 07, 2006

SUBSÍDIOS PARA A ARQUEOLOGIA DESTE BLOG, vol. 2

Mimalho, Mimo, Vacôncio, Bezerro, Charolesa, Frísia... - muito apodo calhou ao bovino coimbrão. De seu verdadeiro nome Mimosa, a.k.a. "arquivaca" - não tanto por ser ou ter uma grande vaca mas sim por ser uma vaca arquivada e asseadinha -, o rapaz (dúbia classificação...) trouxe uma animação desusada a este blog: escrevia como quem conversava e cuspia cascas de tremoços ao mesmo tempo. Nos seus textos, havia mais ideias que palavras. E pontos de exclamação. E reticências. E o preito inflamado de um parlamentar de oitocentos. Num estilo só seu, a que poderíamos chamar ante-pós-camiliano-vertido-em-fado-de-Coimbra, o Mimôncio foi-nos deixando, debaixo do estuque das opiniões, vislumbres de um profundo humanismo (que nele reside à revelia, claro, que eu não estou aqui para elogiar ninguém... pffff!). Como estes:


Sobre o concerto dos Rolling Stones em Coimbra:


"A título de curiosidade, descrevo algumas das privações a que os Conimbricenses vão estar sujeitos no dia do espectáculo:
- Entram 60 camiões de espectáculos numa cidade com 100 mil habitantes, o que vai obrigar ao corte de trânsito nas principais vias de acesso ao estádio;
- Irá receber 30 mil pessoas ( um terço da população residente ) na sua cidade, implicando a lotação a um Sábado à noite de restaurantes, bares e cafés... hotéis, residenciais, motéis e bordéis;
- Irão ser cortadas, das 16 horas às 00:00 de Domingo quase todas as principais vias estruturantes da cidade;
- Os autocarros serão preferencialmente destinados aos portadores do tal bilhete que lhes dará o ingresso no espectáculo.
No entanto, ainda não registei qualquer tipo de crítica, aborrecimento ou ingratidão de um único habitante desta cidade ( mesmo os que não vão ao concerto ). Porque não se importam de andar a pé ( a cidade até é pequena, apesar de topograficamente instável ), de demorar 3 horas para jantar e esperar 30 minutos para arranjar mesa num café, de regressar de autocarro ( lotado ) do emprego ( os que trabalham ao sábado ), de não poder ir brincar com os filhos ao parque da cidade ou levá-los ao centro comercial... Porque sabem, querem e desejam isto! Sempre souberam, sabem e continuarão a saber receber os visitantes do Porto e de Lisboa que agora terão que desembolsar quantias astronómicas para “fazerem a festa”.
Agora são os habitantes do Porto e de Lisboa que serão as pedras a rolar pelo país, em busca da “centralidade” de Coimbra.
Ficamos ( todos sem excepção ) embevecidos quando, por exemplo, o Zé Pedro dos Xutos ( que tocam de graça para poderem estar ao lado dos Stones, que têm o cachet inacreditável de 1 milhão de euros ) afirma que: “Para mim, como amigo de Coimbra, sócio da Académica e na inauguração do novo estádio, tudo isto é um prazer enorme”. Para mim também, mas não sou o Zé...
Por tudo isto este concerto vai deixar saudades... porque é o último... porque é em Coimbra. E porque Coimbra é também minha!"



Sobre gatos e violência infantil:


"Isto passou-se quando tinha 4 anos ( e a partir de agora, aconselho os susceptíveis a não lerem o resto!...). Andava a ler umas revistas do Patinhas, que eram do Peninha e do Biquinho ( nunca percebi a generalização de chamar a estes livros de “Patinhas” quando é este, porventura, “o personagem” com menor interesse! ). Resumindo:
O Biquinho tinha um gato – o Ronron – e atirava-o sistematicamente ao ar! O gato, como todos sabem, caía sempre direito, com as quatro patas ao mesmo tempo no chão! Passa um amigo que ia com o irmão ao colo e que, ao ver estas habilidades, propõe ao Biquinho a troca do gato pelo irmão, ao qual, obviamente, não poderia atirar ao ar. Nisto, o Biquinho explica-lhe que só poderia fazer isto 7 vezes ( o número de vidas do Ronron, obviamente! ).
O final da história não sei… O que se passou foi que, logo por azar, tinham-me oferecido um gato ( não tinha mais de 2 meses ). Escusado será dizer que o atirei 7 vezes ao ar…e lembro-me perfeitamente que ele cumpriu a história na íntegra!... A não ser o facto de ter partido a espinha. E de o colocar no caixote do lixo, porque o gajo não queria brincar… enfim!, pomenores…
Se estivéssemos no mundo do Michael Moore, ou no seu país, poderíamos, sem dúvida nenhuma e com justa causa, processar a Disney. Claro: porque o Biquinho é, de facto, um assassino em potência - pelo menos de gatos - e a Disney uma produtora incansável de serial-killers. Sempre desconfiei que o tio Patinhas era o padrinho! E eu soube isso durante duas décadas… Mas o meu pai não tinha tempo para processos porque andava mais preocupado em me arranjar o último exemplar do “Patinhas” do Zé Carioca – o dealer das favelas brasileiras!"



Sobre "O Jardim dos Suplícios", de Octave Mirabeau, e os Manic Street Preachers e a vida em geral:


"Comprei-o ( o livro ) numa livraria ( em 98 ), por mero acaso e depois de consultar umas revistas de especialidade.
Estou a falar de um livro de "bolso" 16x12 cm, azul escuro do tipo calças de ganga ( não gastas ), e com letras a dourado.
Basicamente descreve a história de um tipo solitário que conhece, numa festa ( acho eu! ), uma rapariga por quem se apaixona. Decide partir com ela numa viagem à China, num cruzeiro.
O livro, de uma forma mordaz, fantasia exaustivamente sobre os jardins chineses, e introduz-lhe o factor campos de concentração. Ou seja, era nestes espaços que se praticavam, na sua história, os actos de tortura. Entre relatos fabulosos, onde, por oposição, está presente a maravilha e o esplendor da natureza a par do horror dos actos de barbárie, eis que me deparo com um diálogo entre as personagens em que, a certa altura, não compreendendo - o gajo - como uma mulher poderia elogiar tais actos de tortura, obteve como resposta:
"(...) És obrigado a demonstrar respeito por pessoas e instituições que pensas serem absurdas. Vives preso num estilo cobarde a convenções morais e sociais que desprezas, condenas, e que sabes não terem qualquer tipo de fundamento. É essa permanente contradição entre as tuas ideias e desejos e todas as formalidades em desuso e vãs pretensões da tua civilização que te fazem triste, preocupado e desequilibrado. Nesse intolerável conflicto tu perdes toda a alegria da vida e todo o sentimento da personalidade, porque em todos os momentos eles suprimem e restringem e verificam toda a liberdade dos teus poderes. É essa a venenosa e mortal ferida do nosso mundo civilizado.(...)"
Sou um desrespeitador por natureza. Estou-me nas tintas para as convenções morais que desprezo e condeno, e que sei não terem qualquer tipo de fundamento.
Até hoje, tento viver cada momento como se fosse o último, alegremente, sentindo sempre que posso, e tentando “gritar” o mais alto que consigo."



Sobre o gosto, uma Professora e uma tipa casada com um burgesso:


"Obviamente que o “gosto” não passa por nada de demasiado erudito.
Na gastronomia, por exemplo, não temos necessariamente que gostar do aspecto exterior de “onde se come” mas, sobretudo, teremos que gostar “do que se come”.
Na arte, não temos que gostar ( deveríamos, mas pronto! ) de Kandinsky mas, sobretudo, devemos tentar entender em que sentido aquilo é produzido - quanto mais não seja por “gostarmos de” tentar entender e compreender.
O gosto deveria, desta forma, ser entendido como um traço da personalidade de um indivíduo, do carácter de um ser, que posteriormente o levasse a determinado rumo mas que se incumbisse de o exacerbar a limites para os quais não se encontrava anteriormente direccionado.
Lembro-me perfeitamente de uma escultura que a minha professora de História das Artes me mostrou, numa das primeiras aulas ( tinha eu 16 anos ). Era um Cristo, sem braços, com um aspecto tosco, escuro, degradado, de uma escultora qualquer conhecida (não cultivo o “gosto por” decorar “nomes de”).
Perguntou-nos o que achávamos!... De entre muitas respostas ( a melhor foi “Credo, não tem braços!” ), ela esperava: “É belo” – a resposta, passados 30 minutos, veio de um tal de Mimosa!
Não giro, não bonito, não engraçado, não feio... belo! E “belo” porque, apesar do aspecto deformado, mostrava possuir um valor intrínseco e um entendimento muito superior ao do aspecto exterior. Era Cristo, ou antes: uma imagem que O tentava representar. Feita por alguém que, com empenho, sentido imaginativo, trabalho, critério... e “gosto”, tentou deixar um legado para as pessoas, quanto mais não fosse, para lhes explicar o que é o “gosto”... o que é belo!
E não cabia na cabeça de ninguém ( mesmo na do que se admirou... ) colocar braços na peça, porque ela deixava de fazer qualquer tipo de sentido... Era o “gosto” a ser educado.
Vem a propósito todo este paleio por causa de uma cliente do escritório que veio há dias pedir umas telas finais ( vulgo projecto de alterações ) de uma habitação que teve a honra de ter sido concebida por um tal de arquitecto.
Já por lá tinha passado, eu, num dia chuvoso ( daqueles em que não se dá por nós numa obra ), e tinha visto a excelente merda que tinham construído. Alteraram tudo! Esperei pacientemente porque sabia que, mais dia menos dia, teriam que me vir pedir o projecto de alterações e justificar tal falta de respeito pelo meu trabalho.
O dia chega; ela entra e pede-me ( com um sorriso nos lábios ) o tal projecto de alterações, porque... “Sr. Arquitecto, o meu marido fez lá umas alteraçõezinhas!
Não sei porque me lembrei daquilo, mas disse-lhe mais ou menos o seguinte:
Imagine que vai a uma galeria de arte. Vê o retrato de um Homem, pintado a lápis, por um pintor qualquer. Esse quadro representa um ser idoso, de chapéu,com óculos e...sem bigode.Compra o quadro. Pendura-o, num lugar de destaque na sua casa. Há algo que não gosta! Você, por acaso pegava num lápis e pintava-lhe um bigode?
Responde-me que não.
Agora imagine o que era se você transformasse o velhote numa miúda de 6 anos!
Foi-se embora! Senti que tinha explicado à minha professora que tinha compreendido aquela lição. E que tinha gostado..."

quarta-feira, agosto 02, 2006

SUBSÍDIOS PARA A ARQUEOLOGIA DESTE BLOG, vol. 1

Z., de seu verdadeiro nome Z. mas também conhecido por O Belo Menir (e por Gisela, no Conde Redondo), é um fenómeno único na blogoesfera portuguesa. Deu mais a este blog do que alguma vez poderá receber de volta (sim: perde lá o sentido naqueles 15 contos de réis...). É um talento. É um portento. É um polemista acalorado. É rabugento quando lhe apetece e sabe ter graça ao sê-lo. É generoso. E escreve como o caraças.
Qualquer "best of" do Vareta Funda teria que começar por ele. Para quem já não se lembrava, eis a série das Alambridatia toda junta dentro de um balde...

Alambridatia, 1

- Espera...
- (arfando...) O quê?...
- Espera um pouco. Esta luz de fim de tarde...
- Queres correr os estores?
- Não. Mas a forma como incide assim, oblíqua e terna, no teu peito...
- Malandreco... eu também gostava muito que me desses mais atenção ao peito. Mas não pares, porra, continua...
- Não é nada disso, querida. Mas o teu peito desenha-se com um vigor todo novo a esta luz. É uma deusa que se ergue imponente quando as sombras invadem a terra. É uma nova religião que a mim se revela.
- Oh pá, pul'amor de Deus... continua mas é, não sejas mau...
- Mau? A tua silhueta prostra-me, em respeitosa devoção. É um momento mágico e dolorosamente eterno. Uma epifania.
- (suspirando) Uma epifania não direi. Mas se queres mesmo rezar, então contenta-te com uma epiveania, que já me tiraste a vontade...


Alambridatia, 2

- Sabes...
- hummm... o quê?...
- Não conheci mulheres suficientes para ter por certo isto ser do teu agrado.
- Como? Que história é essa de mulheres suficientes?
- Estarmos aqui é o resultado de um processo indutivo. As poucas a quem eu o fiz, gostaram. Logo, tomei-o abusivamente como um sinal de que a generalidade do sexo feminino gosta.
- Errrr... é uma coisa esquisita para tu te lembrares agora...
- Mas não é tudo. A maioria toma esse conhecimento fragmentário de cada um, amalgamado num certo ideário masculino, como se de uma generalidade se tratasse para concluir o mesmo por um processo pseudo-dedutivo, ferido nos pressupostos.
- Tu estás, realmente, a pensar nisso agora?
- Sim. No fundo, a lógica não é nossa amiga, nestes momentos.
- Então deixa-me ajudar-te. Se eu fizesse fé no amalgamado ideário feminino, deduziria que, apesar de tudo, tive muito azar contigo. Se, por outro lado, usasse o teu exemplo particular, seria obrigada a induzir que os homens não sabem lamber e comprava um cão. Sai lá, que me estás a babar o sofá.


Alambridatia, 3

- Diz-me uma coisa bonita.
- As coisas que eu podia dizer...
- Tenta, vá lá.
- Podia dizer como me dói o peito, inchado de amor por ti...
- ...
- ... de como me vejo um viajante, errando pelos montes em demanda da mais bela criatura que pisa a terra.
- Tão... lindo...
- De como me apetece subir ao mais alto cume e gritar o teu nome ao vazio.
- Bem...
- De como és o meu secreto e fresco vale, onde descanso e me exalto.
- Vale?
- De como bebo em teu olhar o leite que alimenta o meu sonho.
- Olhar, né? Ouve lá, tu gostas de mim ou das minhas mamas?
- Disparate! Onde é que foste buscar essa idéia?


Alambridatia, 4

(vagamente inspirada pelo meu casadoiro favorito, que já deixou saudades)

(ao telefone)
- Sim?
- Foi tão bonito...
- O quê?
- O que me mandaste. A mensagem.
- Ah! Obrigado...
- "...levo-te ao infinito depois das 20:45..."
- ...
- Sabes, vesti aquela lingerie de renda que me ofereceste...
- Ficas de morrer com ela.
- ... e abri uma garrafa de "Tapada de Coelheiros". Está a arejar em cima da lareira. Quando cá chegares já deve estar no ponto exacto. Estás à espera de quê?
- Desculpa, mas só depois das 20:45.
- O quê???
- Eu disse-te...
- Está bem, mas era uma expressão poética, porra!
- Não era nada. É o Benfica, na Sport TV.


Alambridatia, 5

- Senhora, porque desdenhais assim deste vosso servo?
- Eu, gentil cavaleiro?
- Sim, vós. Notastes, por certo, como o meu olhar vos procura, incessante e furtivo.
- Senhor, cobris de rubor o meu embaraço...
- Asseguro-vos, senhora, que nada há nas minhas intenções que justifique tal embaraço.
- Mas é tudo tão súbito... mal vos conheço. Que digo eu!, mal me conheceis. Como podeis estar tão seguro de vossas intenções?
- Senhora, vejo-vos tão clara em meu coração quanto o mago espreita o porvir no seu cristal amaldiçoado.
- Blasfemais, senhor!
- Perdoai-me, minha adorada, mas se for o inferno dos danados a punição para este amor, tépida brisa de Abril me parecerá a sulfurosa eternidade.
- Senhor!...
- Ah, cruel destino! Não me deixeis assim, senhora, por vossa alma. Quereis realmente ser o algoz da minha alegria? Dizei-mo agora. Selai com uma palavra o féretro onde encerrarei meu coração em vida.
- Sabei então, nobre cavaleiro, que ao vosso penhor não sou indiferente.
- Deveras? É do coração que falais?
- Pois sim. Também eu - permiti-me a confissão - vos observo há muito.
- Senhora! Sabei que hoje é o dia do meu segundo nascimento, pois que hoje o Sol começa, para mim, a brilhar com nova luz.
- Também eu, senhor, rejubilo com vosso amor.
- Ah, feliz fortuna! Vejo a minha vida a escrever-se em douradas páginas. Como anseio pelo momento de tocar vossos lábios, vosso corpo, vossa virtude...
- Minha virtude?!?
- Perdoai. Foi o entusiasmo. Tal não deveria ter ousado.
- Não se trata disso, meu fogoso cavaleiro, mas julgais que ainda carrego esse injusto fardo da virtuosidade?
- Por Deus! Fostes assaltada, minha dama? Viveis em silenciosa vergonha?
- Assalto? Vergonha? Meu pobre e baralhado cavaleiro, estamos no séc. XVI. Cuidais que ainda vivemos na Idade das Trevas?

NOTA: este texto foi originalmente postado prenhe de incorrecções, assacáveis única e exclusivamente à inépcia do autor. Está agora ligeiramente menos ofensivo, obra do insigne Fodósofo, incansável vigilante e tenaz caçador das misérias linguísticas do autor, que assim publicamente manifesta o seu agradecimento.


Alambridatia, 6

Casal na casa dos 30, deitados em extensa cama. Lençóis de cetim, velas. Ela, em provocante camisa de seda, ele em boxers de algodão, justos. É uma quente noite de verão.

- O desenho dos teus músculos é digno de um Rodin.
- Pintor nenhum seria capz de reproduzir o teu contorno suave e a tua pele diáfana. Vejo a tua alma à transparência, tremeluzente.
- A tua serenidade é a minha enseada, o mármore do teu rosto, a minha fundação.
- O som da tua voz é como a semente que rasga a rocha, o fio de água que divide a montanha, o murmúrio do magma que se espreguiça no centro da Terra.
- Sinto o teu calor, daqui. A minha carne amolece, a minha vontade liquefaz-se, a minha pele enrubesce, o meu desejo vaporiza-se e envolve-nos em volutas de inevitabilidade, torce e rodopia num avassalador vulcão de sentidos.
- O teu cheiro é o da terra molhada na primeira noite de Primavera, é o do estuário fértil no virar da maré, o odor adocicado que sobe ao entardecer das matas virgens do Brasil, dos pântanos cálidos onde se corrompe a matéria e renasce a vida em novas e prodigiosas formas.
- A tua força é a do Sol impiedoso que nenhuma sombra aplaca, da primeira onda a quebrar sobre a primeira rocha, do primeiro feixe de luz da primeira estrela, eco do Big Bang que ressoa no final do Universo.
- És nuvem, terra e energia, sismo libertador, vulcão vingador da Terra decidida a reclamar-se, és o Génesis e o Apocalipse, és Deus saindo dos Infernos, morte sem redenção!
- És Nemésis reclamando a minha alma, supernova que me engole e incinera, explosão que me dilacera a carne e a arranca dos ossos!
- És doença insidiosa e pérfida que em meu âmago cravou as garras e me consome em pasta de sangue e pus!
- ... (com ar alarmado)...
- ... (com ar embaraçado)...
- Bem...
- Hum...
- Vou ver um bocadinho de televisão, importas-te?
- Não, mas põe baixinho que amanhã levanto-me cedo.



Alambridatia, 7

- Desculpe...
- Sim?
- Não me contive, e tive que vir falar-lhe.
Ela sorriu um sorriso levemente amargo e cansado.
- Vê? É esse mistério. Esse sorriso delicioso e radiante, essa indefinível sombra que lhe vela o rosto...
- Não há nada a esconder, garanto-lhe.
- Mas claro que há! É todo o mistério da condição feminina que eu vejo nesse sorriso, nesse porte orgulhoso e impecavelmente devastador de mulher que sabe a impressão que causa, na volúpia ousadamente sugerida pela sua roupa.
- Tu és um galanteador...
- Por favor, não reduzas a importância que tens. Quero conhecer o que te tolhe a fruição de toda essa generosidade física. Quero perceber porque não reinas tu sobre todo o espaço que iluminas.
- E então, que sugeres?
- Deixa-me estar aqui contigo. Vamos falar um dia inteiro, vamos deixar escapar sinais da nossa humanidade, vamos tocar nas nossas almas.
- Um dia inteiro? Tás louco? Meia horita e já gozas. 150 Euros, mais o quarto e só com preservativo. E nem penses em vir pra cá com porcarias.



Alambridatia, 8

- E Budapeste?
- Budapeste? Que é que há em Budapeste?
- Ora, que pergunta! É uma das cidades mais bonitas do mundo. As avenidas, os palácios, a arquitectura. Respira-se erudição.
- Não me parece... e se fosse Ibiza?
- Ibiza?!? Que nojo! Montes de ingleses semi-analfabetos e ruidosos a comportarem-se como se estivessem em casa...
- Mas tem praias lindas. E imensa animação.
- Praias temos nós por cá, para quê gastar um dinheirão indo lá para fora?
- Boa ideia! Podíamos ir para o Algarve!
- O Algarve é um caos turístico completamente descaracterizado. Antes irmos para o litoral alentejano, Odeceixe ou Aljezur. Há lá uns tipos giríssimos a recuperar moínhos e estilos de vida tradicionais.
- Mas as praias ficam longíssimo!
- Podíamos ir de bicicleta, ou caminhar. A beleza rude daquelas falésias é devastadora.
- E, além disso, não há mais nada para fazer.
- Se queres fazer “coisas”, porque não Viena? Temos os concertos, a ópera, os museus...
- Porra, mas não há mais ninguém, e o meu conceito de diversão em férias não é bem esse...
- Em contrapartida, passávamos as férias com pessoas que nos são culturalmente afins.
- Pois. O meu medo é mesmo esse.



Alambridatia, 9

- Tu tens outra.
- O quê?
- Tu tens outra.
- De onde é que te veio essa ideia?
- Já não me desejas.
- Que parvoíce!
- É? Então porque é que já não fazemos amor com a mesma frequência com que fazíamos?
- Não?
- Claro que não. Dantes era sempre que podíamos. Agora passam dias sem que me procures.
- Bem, a novidade tem um efeito afrodisíaco que se perde...
- Ah, queres então dizer que agora estou usada?
- Nada disso! Mas sabes que a atracção sexual funda-se muito na novidade, no desejo não satisfeito. Após algum tempo de convivência desvanece-se esse efeito e fica o afecto pela tua companhia, pela tua inteligência, a tua perspicácia, a tua capacidade de análise, o teu humor, etc...
- Queres dizer que só a minha personalidade te atrai, neste momento?
- Claro que não. Mas, a prazo, é essa que vai segurar a nossa relação. Eu amo-te pelo que tu és, não pelo que me fazes ou pelo que eu te posso fazer na cama.
- Então o sexo não entra nessa tua contabilidade?
- Entra, mas não é fundamental. O resto é muito mais importante.
- Agora percebo como me enganei.
- Claro que te enganaste.
- Tu não tens outra. Tu és paneleiro e nem sabes.



Alambridatia, 10

- Gostaste?
- Tonto. Claro que gostei.
- Tu sabes que eu não sou muito experiente...
- Mal se notou.
- De certeza que houve algumas coisas que não te agradaram por aí além...
- Deixa-te de parvoíces.
- Estou a falar a sério. Por exemplo, não me pareceu que tivesses gostado muito quando te acariciei o peito.
- Bem... foste um bocadinho bruto...
- Desculpa, foi a excitação.
- Eu sei. Esquece, não tem importância.
- Tem sim! Imensa! E também não gostaste que te beijasse as orelhas.
- O beijar era como o outro... agora, escusavas era de ter enfiado a língua daquela maneira.
- Agora estás-me a deprimir. Ao menos gostaste das dentadas no pescoço?
- Ah, esquece essas merdas...
- Nem isso?
- (suspirando)
- Isto está muito pior do que eu pensava, porra...
- Pára com isso. Queres saber das dentadas? Dá cá o teu pescocinho, para ver se gostas que eu te ferre daquela maneira.
- Está bem, já percebi. Mas dos beijinhos gostaste!
- Claro que gostei.
- Nisso sou bom.
- Bem... na verdade, podias passear um bocadinho mais com a língua. Sempre no mesmo sítio cansa um bocadito, sabes?
- Merda, também não gostaste...
- Não disse isso! Mas ninguém nasce ensinado e leva tempo até que duas pessoas aprendam os truques uma da outra.
- Agora estás a ser condescendente. Não é preciso achincalhar, Ok?
- Irra! Não é nada disso!
- Não me estás a ajudar nada com essa falsa compreensão.
- Grrrrr...
- A honestidade é muito mais importante numa relação que o amor-próprio de um ou do outro.
- Já chega. Já me estás a irritar.
- Tu é que és desonesta e dissimulada.
- Ah, é? Então, escuta bem: sabes que há outras posições além do missionário? E sabes que as mulheres também gostam de ter orgasmos? E mais uma dica: enquanto fodemos, há coisas bem mais agradáveis para fazer com a boca, além de atirar perdigotos para cima da parceira. Porra, nem um linguado sabes dar!
- (abrindo e fechando a boca, com ar incrédulo) Mas afinal, de que é que tu gostaste?
- Que tivesse acabado! Foda-se, que além de não ter jeitinho nenhum é chato!



Alambridatia, 11

- Não foi nada disso que eu disse!
- Mas pensaste.
- AH! Agora és telepata?
- Não preciso. Conheço-te bem demais.
- Julgas, realmente, ser possível conhecer alguém assim tão bem?
- Esquece os conceitos. Não se trata do que eu julgo ser possível ou não, é uma constatação de um facto. Tu és transparente para mim.
- Transparente? Achas que toda a minha densidade é visível do exterior?
- Só falo por mim. Eu já te conheço há muito tempo. O teu corpo, a tua cara, as tuas mãos, a maneira como respiras, são coisas que me falam tão claramente como as tuas palavras. Mais claramente, até, porque me dizem aquilo que tu queres esconder.
- Presumes, então, que eu não controlo o meu corpo. Que eu não uso à tua frente a pose que todos – tu, inclusive - ensaiamos até à exaustão e que corresponde à imagem que queremos projectar de nós próprios.
- Não se trata disso. Tu és tão composta quanto outro qualquer, mas eu aprendi a ler os sinais ténues que deixas cair de vez em quando. Um ligeiro arquear de sobrolho, uma súbita frieza na voz, um pé impaciente… coisas dessas.
- E quem te disse que mesmo essas coisas não fazem parte da minha pose? Que não são mensagens que te estou a fazer chegar, sabendo que tu vais prestar-lhes mais atenção que às minhas próprias palavras?
- Ora, deixa-te disso. Não és assim tão tortuosa.
- Pois claro! Eu, no fundo, sou uma alma simples, quase imbecil.
- Não foi nada disso que eu disse!
- Mas pensaste…

terça-feira, agosto 01, 2006

REEDIÇÃO - O INÍCIO - TRÊS ANOS DEPOIS


Terça-feira, Agosto 26, 2003

Eis mais um blog. Ou blogue. Ou blogh. Ou blergh. Chamem-lhe o que quiserem. Eu, cá por mim, chamo-lhe "Porco" - é uma questão de disciplina...

#vareta alimentou o Porco às 7:37 PM


VARETA FUNDA

UM BLOG COM TANTO DE ANOS COMO FÁTIMA TEM DE PASTORINHOS




VARETA FUNDA




UM BLOG QUE CHEGA AOS TRÊS SEM NUNCA OS TER PERDIDO

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