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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


segunda-feira, fevereiro 13, 2006

As grandes questões da humanidade dissecadas em 2 páginas – vol. 3

- Era o que se esperava de mim; era o que toda a gente fazia à minha volta; era a única forma de mudar de vida. Éramos criadas para isso, mas sem sermos preparadas para isso. Aprendi mais sobre a vida a olhar para os animais da nossa criação que em conversa com o meu pai ou a minha mãe. Era o que se esperava: nascias, arrancavas a pouca instrução que estavam dispostos a dar-te, trabalhavas e esperavas que alguém te pedisse em namoro e te falasse em casamento. E pronto. Casavas-te. Podias renascer ou continuar a morrer aos bocadinhos, aprendias o que querias e o que não querias e trabalhavas tanto ou mais do que antes. Sabes o que é mais triste? É que, por negativo que parecesse o cenário depois do casamento, ainda assim era sempre melhor do que antes. Não era o melhor dos tempos para ser filha, fosse qual fosse a família, rica ou pobre. Não havia préstimo para uma mulher em casa que não fosse a matriarca – ou as velhas. Era essa a escolha: ou casavas ou envelhecias depressa.

Ela parou, ajeitou a almofada atrás das costas, reclinou-se melhor no sofá e continuou:

- O namoro, naquela altura, funcionava mais como entrevista profissional. Falávamos, tentávamos perceber com o que contávamos e não podíamos ser demasiado esquisitas. No “meu universo”, quando eu tinha os meus 18 ou 20 anos, havia quê… 30 rapazes casadoiros nas redondezas. E raparigas eram tantas ou mais. Alguns dos rapazes iam para Lisboa e casavam por lá. Ainda hoje me pergunto se alguma das raparigas do meu tempo casou por amor… Amor era palavrinha de cantigas. O mais importante era casar com alguém que tivesse sustento. Gostávamos mais de uns que doutros. Mas sabíamos tão pouco… Qualquer pequena prenda nos parecia uma promessa de felicidade eterna. Sabes que eu me lembro e muito bem de todas as prendas que a minha mãe me deu, até eu casar. Foram as poucas que ela me pôde dar, sempre com muito custo. Se um namoro nos dava alguma coisa, era sinal de que o interesse era sério. Lembro-me de uma vizinha minha que se casou com um rapaz porque ele lhe deu um dedal de prata. Durante semanas ninguém a calou com a história do dedal de prata. E lá casaram, para mal dela, que ele tinha maus vinhos e batia-lhe… fez-lhe a vida num inferno. Saiu-lhe caro, o dedal. Também… Qualquer rapaz são passava por jeitoso. Desde que não tivesse defeitos físicos demasiado visíveis… A primeira escolha era entre os que ficavam apurados nas sortes, nas inspecções. Conhecíamo-nos todos quase desde que nascêramos, mas nunca havia proximidade suficiente para saber como é que as pessoas realmente eram. Sabíamos que eram mais estarolas ou mais sérios; mais trabalhadores ou mais manaças; mais para os bailes ou mais para as tareias; mais bem apessoados ou com mais terras. Eles todos tinham projectos, quase sempre o mesmo: sair da terra e ganhar dinheiro e voltar e comprar mais terras. Olhando para trás, quase metade dos que diziam isso não o fizeram. Mas, se não o fizeram eles, fizeram-no os filhos. A algumas metia medo, a perspectiva de uma vida maior, de uma vida longe. A outras não, claro: qualquer burro com calças era pretexto para sair dali e ir ver outras coisas. Mas éramos sérias, com uma outra excepção. Mais uma coisa em que não havia grande escolha. Se não fossemos sérias estávamos “perdidas”, “desgraçadas”, “estragadas”. E isto não eram só palavras, era mesmo um desvio no destino. Ou te casavas com um viúvo ou tinhas que sair da terra, sozinha e quase sem nada.

Fez mais uma pausa, ajeitando uma prega da saia com minúcia e seriedade.

- Havia muitas contas a fazer, antes de casar. Tinha que se pensar se ele tinha posses para pôr casa ou se tínhamos que ir para casa dos pais dele; tínhamos que ver a questão das terras que a família dele tinha: se eram muitas, eram uma prisão para ele e para nós; se eram poucas, não ficávamos com nada no fim das partilhas; tínhamos que ver se tinha irmãos ou irmãs que precisassem de ajuda ou que acabassem por vir viver connosco… Era um exercício exigente e em que muitas vezes se errava. Não havia segunda vez. Não havia possibilidade de “pensar melhor”. Escolhias um e estava escolhido, para o bem e para o mal.

Nova pausa, para recuperar fôlego e pôr as ideias em ordem.

- Tive muita sorte com o teu pai. Muita, muita sorte. Vivíamos perto um do outro, sempre nos demos bem e gostávamos um do outro. Não te consigo dizer se o amava, quando casámos. Era uma palavra que não nos pertencia, não tínhamos direito a ela. Nenhuma de nós foi criada para ser independente. Deixávamos de “ser dos pais” e entregávamo-nos a um marido. Eles davam-nos de comer e tu, felizmente, não consegues ver a força dessa realidade básica, esse laço primário da coabitação. O marido permitia que a mulher subsistisse e a ela cabia-lhe ser orientada, poupada, servil e fértil. Tive muita sorte com o teu pai. Ele já tinha uma vida muita cheia de experiências, muitas más e outras boas, e tinha a cabeça arejada. Tem-me tratado sempre do modo que veio a ser padronizado como o bom tratamento de uma esposa. Mas outras raparigas do meu tempo não tiveram tanta sorte… Pessoas como o teu pai são os criadores da classe média, filha. Gente que não subiu nem desceu a essa condição mas que a criou, que a arrancou com muito esforço e não para ele, não para nós, mas para poder ter filhos que vivessem melhor. Ainda hoje me espanto como se mudou tanto no espaço de uma geração ou duas. Os nossos pais sacrificavam-se para que os filhos pudessem viver; eu o teu pai já nos sacrificámos para que vocês pudessem viver melhor. Hoje em dia, parece-me que os pais querem viver melhor e que os filhos vivam melhor. Já podem pedir para eles. Nós não pudemos. Mas ainda bem que é assim.

Cruzou as mãos no regaço, olhou para ela e disse:

- Tive muita sorte com o teu pai, filha. Passámos por muito; discutimos muito e ele ainda me agarrou com mais violência uma vez ou outra. Houve dias em que o odiei; houve dias em que ele foi a razão para eu viver. Sei que gosto muito dele, mais hoje que no dia em que me casei. E tu, filha? Eu preocupo-me... O Filipe é o terceiro namorado que te vejo este ano…

Arrotos do Porco:

Este post esta extraordinário.Muitos parabéns


Muito bom.

:)



O menino apanhou a mãe num dia radioso anunciador da Primavera!?


Assim não vale! Já não sei que adjectivos usar. Até no feminino!


abracinho :)


Esta é a matriz sociológica donde todos nós, da Terra Quente até à Lapa, provimos. Este é o meu manonovo. Quanto talento, meu Deus!
Saudades, Paulão...



carlos?! :)




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