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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


quinta-feira, janeiro 26, 2006

As grandes questões da Humanidade dissecadas em 2 páginas - vol.1
- Sabes que eu nunca fui muito de foder no Verão… Não se proporcionava… Tinha sempre inveja dessas histórias de grandes rambóias com estrangeiras e acho que acabava por culpar os meus pais, que insistiam que não passássemos férias no Algarve. Para mim, havia férias de duas qualidades: as do Algarve, onde parecia que toda a gente não fazia mais nada senão foder, e as que eram passadas noutro lado qualquer, onde as gajas eram sempre tão difíceis como na minha cidade.

Ele pousou o copo e ajeitou-se na poltrona como se estivesse profundamente desconfortável. Eu estava: o sofá era de couro, velho e de más molas, e nenhuma posição me trazia conforto. Mas ele estava sentado na poltrona dele. Não parecia muito melhor, é certo: olhando a poltrona e o sofá, vendo como num e noutro o couro estava encardido e maltratado, qualquer pessoa diria terem sido feitos da mesma vaca, morta nos primórdios da indústria de curtumes. Mas era a poltrona “dele” – era suposto estar-lhe afeita ao corpo, conhecer-lhe e acomodar-lhe qualquer sombra de sifose, escoliose ou bicos de papagaio. E, ainda assim, ele torcia-se e revirava-se como fazem as velhas quando se sentam num assento quente de um autocarro. Havia já uma hora que eu pouco mais fazia que beber vinho e soltar uns monossílabos que o íam encorajando numa longa dissertação sobre a sua infância e juventude que eu não via onde iria parar. Nem me interessava muito que parasse: o sofá era ranhoso mas o vinho era bom e estava frio demais na rua.

- Sabes que eu era um bocado coninhas aí até aos 19 ou 20 anos…
E se eu lhe dissesse que sim, que sabia? Que era a mais pura verdade? Porque é que se há-de começar uma frase por sabes? “Sei, sim senhor! Eras o gajo mais enconado que eu já conheci! Até aos 20?! ‘Tá bem, ‘tá! E agora és o quê?!”. Uma resposta destas é que lhe fazia falta – mas não estava no meu feitio dar-lha. E é tão bom ter um feitio a quem tornar as culpas… Vinho. Quero mais vinho mas se o interrompo ele pode perder a vontade de continuar a conversa. Ora, apetece-me mais ouvir que falar. É o costume, de resto. E é bom. Se ele há tanta gente com muita coisa para dizer e se eu gosto tanto de descansar a ouvir os outros…

- Lembras-te do que todos me diziam quando conheci a Cristina. “Não te metas nisso”; “não tens mãos para aquilo”; “ela quer é agarrar um anjinho como tu pelos colhões e depois nunca mais te larga”…
- Eu não te disse isso.
- Pois não. Mas foste o único. Aliás, nem me lembro do que me disseste. Sei que foi qualquer coisa positiva e sensata.
- Bebia menos vinho, na altura… Já lá vão… quê? Cinco anos?
- Seis. Faz em Março.

Estas coisas é que me fazem velho… Seis anos. Seis anos no papel de espectador de uma novela diária de alguns heroísmos e muita normalidade. “Tens assim tanta paciência, tanto gosto pelos outros ou uma vida tão vazia?”. Isto sou eu a falar comigo. Nunca me respondo – li num lado qualquer que é a dúvida que nos faz avançar e não sou gajo para discutir ordens.

- Conheci a Cristina e reorientei a minha vida. Ou orientei. Acho que até aí andava mais como cata-vento, não era? (“Não, não era. Eras muito mais tu, antes disso. Foste abdicando de partes de ti pelo receio de que não fossem as que ela queria ver. Não te apagaste, mas ficaste mais sumidinho, mais desmaiado, depois de tanta cedência. Mas não te posso dizer isto. Não há bem nenhum em dizer-te isto. É uma opinião profundamente egoísta, se calhar. Seja como for, é minha e não a vais saber.”) Deixei de pensar na “minha vida”. Qualquer decisão, qualquer escolha era com ela e por ela. Claro: quando duas pessoas gostam uma da outra isso permite a existência de zonas de irredutibilidade individual, essas reservas de “eu” que permitem que eu goste dela e não de uma entidade comum.
- Claro. Eu também nunca me vi como “amigo do casal”. Sou teu amigo e amigo dela.
- Sim… Há sempre egoísmo nisto tudo, não é?… Às vezes nem sabia se gostava mais da Cristina ou se gostava mais que me vissem a gostar da Cristina. Até que ponto é que é importante o respeito que sinto dos outros quando nos vêem juntos? Eu, o coninhas, o tímido, o desengraçado, o esquisito… de repente, tenho uma mulher que outros invejam, tenho estabilidade, tenho uma vida de postal… (“Sim: daqueles com a silhueta do casal em contra-luz, ao pôr-do-sol, e com os dizeres ‘Amor é… ele lavar a louça aos Domingos’. Sim, uma vida de postal, sem dúvida.”) E é difícil pesar isso tudo, pesar o valor daquela irredutibilidade individual de que te falava e desta mais-valia do casal…

Boa. Irredutibilidade individual e mais-valia do casal. Boa. Vinho, bebe vinho. Ele faz-me lembrar a menina pobre que chega a casa e pergunta: “Mãe, o que é que quer dizer ‘lambe-me o escroto’?” , ao que a mãe responde: “Ó filha… se eu soubesse o que isso quer dizer, tinha-me casado com o filho do patrão e não com o bêbedo do teu pai!”. É tão fácil cair no ridículo quando falamos muito – devia pôr isto na primeira pessoa: eu é que caio no ridículo com frequência e o procuro nos outros para me escudar. Mas ele continua:

- Bom… isso agora pouco interessa… A Cristina saiu hoje de casa. Foi-se embora. Vamo-nos separar.
Sim. Sim. Eu percebi à primeira. E vi-te. Vi o tamanho do teu não saber, vi a mesquinhez de qualquer solidão forçada, vi a estupidez em que o inesperado nos lança. E vi como eras mais digno que eu, ao teres isso tudo quando eu só tinha uma insignificante relação de paz com um destino que não questiono nem faço muito por procurar. Levantaste-te e perguntaste-me “Achas que eu ainda sou eu, depois deste tempo?”. E não te respondi, como não me respondo, até porque a resposta sabia-la tão bem como eu qual era, a resposta cercava-te e estava em cada móvel, em cada almofada, em cada livro, em cada fotografia... O que deste, foi dado sem remissão. Pode nascer outra vez, ser melhor ou pior, ser novo ou requentado, mas não vai deixar de carregar os cacos de agora. A presença dela ressoa ainda, e tu sente-la, em cada parede, em cada vidraça da janela.

Sim, há uma janela e ele está de um lado e a cidade está do outro. É de noite e a cidade parece morta, retalhada por milhares de enclaves como o dele. Serão poucas as pessoas a olhar pela janela a uma hora tão descabida e as que o fazem devem fazê-lo por lhes parecer mais estimável o vazio da rua que o de dentro. Ele olha por ela, a janela, e se ela pudesse olhar por ele e o conhecesse como eu veria um homem que teve um amor e o perdeu e não sabe o que fazer com o hábito de amar alguém que já não ama. Eu estou uns metros recuado, disfarçando o desconforto de estar sentado há quase 3 horas naquele sofá. Nessas três horas falou-se. Agora, há um silêncio de duas qualidades: o de quem não pode falar mais e o de quem não sabe o que deve ser dito.

Arrotos do Porco:

O Oriente inspira-te:

Das melhores coisas que li aqui até hoje!

Da primeira à ultima letra...brilhante!



"Vi o tamanho do teu não saber". Encantador. Absolutamente encantador.


Que coisa tão bem escrita, Vareta!


Grande texto, meu rapaz.

Aprimoras-te a cada dia que passa.



Subscrevo estes encómios que te fizeram. Ao lado da tua história, este comentário parece mesmo um arroto de porco... E se não fosse uma conversa entre duas pessoas distintas, mas antes um diálogo entre o tipo que se vai separar e a sua "consciência"? Por vezes as pulsões levam-nos a agir de determinado modo e só mais tarde nos remetemos à reflexão sobre o que fazemos... E isto começa a cheirar a psicanálise barata...




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