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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


segunda-feira, setembro 19, 2005

DAI NIPPON

Com um caloroso abraço de amizade, do Assento da Sanita para o Vareta Funda.

O rapaz aliviou o nó da gravata, ajeitou a melena oleosa, pousou a samsonite côr-de-rosa e sentou-se ao balcão. Estava cansado, um pouco tonto e desorientado com tão longa viagem. Ia comer qualquer coisa para se retemperar. O televisor debitava anúncios. - uma cenoura voadora num céu azul para vender baton e uma adolescente que mostrava as cuecas usadas enquanto comia uma tijela de arroz. O rapaz espevitou as orelhas mas só apanhava uma palavra aqui e outra ali. Ai, as belas aulas de japonês... – pensou. Com algumas palavras e gestos pediu o pequeno-almoço de uma lista complicadíssima onde constavam desde ouriços-do-mar, baços de cão crús com galantine de língua de golfinho a lulas com geleia de feijão encarnado e algas calcárias panadas com arroz cozido com ameixas amasake. Escolheu um menú que lhe pareceu frugal e discreto. Qualquer coisa que julgou ser um croissant com queijo ou talvez uma empada de tubarão com nabos. Não tinha a certeza. Os ideogramas japoneses por vezes são algo vagos e de significados múltiplos. Passado uns minutos o empregado pôs-lhe à frente um prato de ovas de beluga a nadar numa sopa de miso com amasake de arroz e líquido de espermatócito de cachalote coagulado. Acompanhavam uns canapés de búzio enrrolados numa pasta estaladiça de ruibardo com wasabe. Ao lado, um japonês fuinha com o cabelo espetado comia sofregamente duma tijela, uma mistela de flocos de sebo de baleia com leite, alface e choquinhos fritos-à-algarvia. - Influências portuguesas... – pensou. Com estômago apertado e por vergonha, comeu o pequeno almoço enquanto os outros clientes e o empregado o olhavam em silêncio. No fim, rematou com um copo de leite e um chupito de sake de ginseng-da-coreia tingido de azul. Depois de ter pago cerca de vinte euros, dirigiu-se ao metro onde se perdeu durante três horas e meia. Finalmente, já no hotel Okinawa Palace, subiu pela escada até ao cubículo octogonal de fibra que o encarregado de negócios lhe tinha reservado. Mal dava para estar sentado na cama. Meteu a moeda e o televisor ligou-se. Uma adolescente vestida com roupa de colégio estava a ser regada com esperma de vários matulões lutadores de sumo que se riam estridentemente. O programa chamava-se Bukkake Festival. Mudou de canal. Numa série de hentai-hardcore um monstro galáctico com seis penis verdes e viscosos seviciava todos os orifícios naturais duma inocente rapariga de olhos grandes e chorosos. Lembrou-se que o coito auricular era uma prática desconhecida no ocidente mas muitodo agrado dos japoneses - Minha mãezinha... - pensou enjoado. - O líquido do cachalote deve-me ter caído mal...- Deu voltas e mais voltas na cama até que adormeceu. Sonhava que uma gueixa libidinosa lhe esfregava o corpo musculado com os santos óleos lá da igreja de Ferreira do Zêzere. Perigosamente, um talo de couve gigante aproximou-se mal encarado. - Vareta-san, mostre-me as suas credenciais, se faz favor... - Enquanto procurava febrilmente uns papeis inexistentes, um enorme rôlo de sashimi de sardinha dava-lhe cotoveladas, enquanto uma adolescente de saia aos quadrados e soquettes o olhava languidamente e chupava um tamagochi comestível. Acordou suado e bateu com a cabeça no tecto do cubículo. Para se distrair, pegou no PDA e abriu a página da Vara. Os javardolas do costume, entre dois insultos versando as tendências homossexuais uns dos outros, gabavam-se do lauto jantar de favas guisadas e plumas de porco prêto bem regadas com Quinta do Cotto com que tinham comemorado o segundo dia da viagem para o Japão do saudoso Vareta Funda. Para esquecer a mágoa, tinham-se emborrachado sideralmente e acordado todos vomitados, ao meio-dia, caídos numa sarjeta perto da casa do fininhO. Os nervos do rapaz cederam e uma lágrima de saudade aflorou no canto do olho. Pegou na antologia de Wenceslau de Moraes e leu consoladamente uma passagem. Parececia-lhe que ouvia ao longe, o som de guitarras portuguesas gemebundas... Nisto – vzzzzzztt!....

Era a empregada da limpeza do hotel , a D. Tânia que emigrara há quinze dias para o Dai Nippon à procura de uma vida melhor. Oh beatitude! Oh ventura! Que regalo!... Um ombro amigo nesta terra distante... E lá vinha ela com uma bela postinha de bacalhau à lagareiro com todos, um jarrinho de tinto de Aveiras de Cima e promessas de consolo nocturno naqueles dias difíceis que se avizinhavam.


FIM


Arrotos do Porco:

Só mesmo tu, AdaS.
Tu e a tua mente doentia......
Arre!
Mas tá catita, pá. Muito catita mesmo.



Arre?, ah, ah, ah...Apre! Abrenúncio!...

Bom, espero que o gajo tenha net lá naquele sol-posto.





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