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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


segunda-feira, abril 11, 2005

Microfábulas XIII


Havia, certa vez, um jovem licenciado em Investigação Social Aplicada que retornara à sua vila natal no fim dos estudos para ser confrontado com um mercado de trabalho mais fechado que as pernas de uma freira. “Lá vai o doutorzinho da mula russa!”, diriam uns; “Lá vai o Abel!”, diriam os mais educados. Diriam isto, uns e outros, nas poucas ocasiões em que Abel saía à rua – era um rapaz recatado, amigo do sossego e dos programas de televisão apresentados pela Margarida Mercês de Melo.

Daí que as suas tardes fossem quase todas passadas no gineceu em que a sala de estar da casa de seus pais se transformava naquelas horas: a mãe dividindo a atenção entre qualquer tarefa doméstica e a televisão, e a avó paterna devotando a pouca atenção que lhe restava a fazer comentários crípticos sobre a televisão e a sua própria história de vida.

Abel sentia-se um pouco como um eunuco, naquelas tardes em que lhe era permitido o contacto com as fêmeas pelo carácter assexuado que lhe dava a relação de familiaridade. E sentia-se assim porque vinha com a cabeça cheia das merdas inúteis que aprendera na Universidade Moderna e porque aspirava pertencer a essa categoria mítica do intelectual de esquerda. Já para o seu pai, intelectual era nome de doença e esquerda era a mão que não servia para trabalhar. Homem rude – a quem chamariam pragmático se porventura fosse mais abastado – e simples, o pai de Abel acreditava na disciplina e na honra, mas estes valores de samurai eram corroídos pelas várias insuficiências morais que lhe eram reconhecidas: a intemperança, a gula, a devassidão e a intolerância. Esse diagnóstico já Abel fizera logo no 2º ano dos seus estudos, corroborado nesse mesmo instante por uma lambada de seu pai e pela frase lapidar: “Lá porque andas a estudar para doutor isso não te dá o direito de chegares a esta casa e de chamares comunista ao teu pai!”.

Entre a beatice de uma mãe devota a São Carlos Borromeu e a São João Clímaco, a tacanhez sólida de seu pai e a degenerescência das faculdades mentais de uma avó verrinosa, Abel caía nesse pecado tantas vezes repetido da ingratidão filial, sentindo vergonha da sua família. Nos correios electrónicos que trocava com alguns colegas de curso, Abel carpia o seu desgosto por se encontrar longe de uma comunidade de espíritos elevados onde se discutissem de forma profícua as grandes questões universais e a perenidade da revolução.

Num dado dia, estando sua mão padecendo de crise aguda da vesícula, foi chamado o médico da terra, também ele um jovem recém formado e alvo de muitas desconfianças por aquilo a que, no fim da missa, se chamava o “seu ar pouco lavado”. Abel recebeu-o, trocou algumas palavras sobre a saúde da mãe e decidiu experimentar até onde poderia ir a comunhão de ideias com alguém que também estivera “na capital” recebendo a luz do conhecimento.

- Sabe como é esta gente… Por melhor efeito que tenham os medicamentos que o Doutor lhe receitou ninguém vai convencer a minha mãe de que a sua recuperação não se deu por intervenção divina…
- Também não sei o que será pior, se um doente desconfiado ou um doente agradecido. É o que mais me repugna na medicina, esta propensão para o endeusamento a que estamos sujeitos uma e outra vez. Não lhe parece estranho que o ser humano ainda não conseguiu desfazer a carga sobrenatural de uma coisa tão simples como o é sentir-se bem? É quase como se não fosse um direito adquirido mas uma graça conquistada por intervenção de outrem. Devo dizer-lhe que a esta bizarria miserabilista não adivinho eu nem a origem nem a possível terapia.
- Ó Senhor Doutor! Mas há quanto tempo ansiava eu por uma ideia tão clara e precisa sobre a propensão para o sofrimento que marca as agentes desta vila! Sim! Vejo-o agora! Tolhidos como foram pela opressão continuada dos políticos e da Igreja, estes povos negaram-se em consciência o direito à felicidade. Saiba o Doutor que eu estudei Investigação Social Aplicada na Universidade Moderna e que acalento a esperança de semear a revolta e esse desiderato fundamental da ambição pela igualdade entre as terras desta gente. Não imagina o quão contente me deixa por ver que partilha da mesma doutrina!

Em resposta, o médico aviou-lhe uma valente lambada dizendo: “Lá porque andaste a estudar para doutor isso não te dá o direito de chamares fascista a quem anda a tratar a tua mãe!” e saindo porta fora. Despeitado, Abel pegou no último número da “Família Cristã” que a sua mãe tinha sobre o aparador e rasgou-o em fanicos, ansiando apenas que a sua blasfémia fosse testemunhada por mais alguém.

Nisto, vzzzzzzzzzzt!

Moral 1: os homens não se medem aos cursos.

Moral 2: a tolerância para com as maiorias é uma sábia virtude, desde que não se confunda com imobilismo.

Moral 3: quem tem vergonha da família é um motivo de vergonha para a família.

Arrotos do Porco:

Não há então esperança para a Revolução? Para o despertar da consciência de classe do assalariado rural? Estarão as nosssas comunidades rurais eternamente condenadas ao obscurantismo voluntário? E o sexo em grupo será pecado à luz do catecismo?

Foi mais um treino para o meu esgar de parvo ih, ih, ih, oh, oh, eh, eh, ao ler os teus textos. Já cá fazia falta.

Môm.



Ao pobre do Abel só lhe faltava um irmão. :)
Vareta, fazes falta por cá.



Genial...aliás, como de costume!




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