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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


terça-feira, novembro 02, 2004

Crónica de um dia estranho - by Violeta
Ontem foi o dia de visitar as casinhas dos mortos.
Não foi dia de visitar as memórias dos nossos mortos, apenas as casinhas que à semelhança do Portugal dos Pequeninos, construímos para eles, aliviando a nossa alma, porque sabemos enfim e finalmente tratar dos nossos entes queridos...
Ontem fui ao cemitério. E lá estavam eles, tão perfilados como estiveram em vida, uns ao lado dos outros, está claro, que uns mais acima e outros mais abaixo, uns com casinhas rasas, cujo tamanho e qualidade da pedra das estátuas à porta deixam adivinhar o amor que nós lhes temos (agora é fácil amá-los), outros com prédios de 3 andares, mobilados com tapetes de arraiolos e molduras em prata, outros ainda enfiados em cubículos, engavetados na parede, lado a lado, numa promiscuidade que só visto...
Mas foi bonito. Havia flores frescas por todo o lado, havia rostos de serenidade de dever cumprido, havia crianças que brincavam. (Claro que o meu pré-adolescente fez das suas... sentou-se numa campa e quando percebeu onde estava, exclamou com um sorriso: -Upss sentei-me em cima de um morto!). Eu acho que o morto ficaria feliz. Sempre é melhor ter uma criança ao colo, do que alguns metros de terra por cima da nossa cabeça. Mas este dia foi também o dia do Pão por Deus. Era suposto em tempos, os pobres pedirem pão para a boca e os ricos darem alívio para a consciência. Hoje, graças a deus, já não há falta de pão, nem consciências. As crianças exigem Kinder chocolate nos cafés e pastilhas elásticas no super mercado e os adultos, lá vão dando os rebuçados que engrossarão as consultas no dentista.
Também foi bonito de se ver. Na minha casa o mais interessante que me apareceu, foram duas meninas com carinhas de anjo e olhos de princesa que chegaram tarde. Na minha voz de falar a princesas, disse-lhes: - A esta hora? Tão tarde? E elas, na sua candura cativante responderam: -Começámos cedo... já vamos no segundo saco!!! Jóia de crianças, prometem ser mulheres de corpo inteiro e cabeça fresca... Claroque lhes dei tudo o que tinha, não vá o diabo tecê-las e uma delas venha a ser num futuro próximo Ministra das Finanças…
Razão tem o meu príncipe que diz que as crianças são as pessoas mais civilizadas que existem neste mundo, já que os jovens só querem embebedar-se e andar a curtir, os adultos só sabem trabalhar e obrigar as crianças a ir a sítios chatos, e os velhos (os vivos safam-se, porque sabem responder a perguntas giras...) mas os outros já estão mortos...
E as memórias? Essas são minhas. Foram-me ditadas as palavras que escrevi pelas vozes do passado e pelas saudades do futuro. Foi um dia bom, este de todos os santos. De finados será hoje, e mais se escreverá sobre fins e finalidades. De renascimento serão todos os dias em que nos maravilharmos de existir e nos congratularmos de ainda sabermos sorrir.

Arrotos do Porco:

Prefiro guardar os meus Amigos na minha memória. Instante a instante, até no corropio do dia a dia. Levei-os até ao túmulo (não me deixaram ir ainda), mas foi só dentro de mim que os guardei.

:)



Não é Portugal dos Pequeninos...mas sim dos Pequenitos!
Parece insignificante, mas não é!

Se pensarmos que poderemos estar a dizer em relação ao "portugal dos pequeninos", que este poderia ser um espaço dos pobres, dos coitadinhos..etc...dos "pequeninos". Mas não...ele é, numa conjuntura de algumas décadas que já possui, um espaço dos "pequenitos", das crianças...que podem ser pequeninas, ou grandes, jovens, ou adultos, e também dos velhos...
Mortos lá? Só as memórias poderiam...mas estão bem vivas!





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