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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


sexta-feira, outubro 29, 2004

ONTEM À NOITE
Enquanto escrevo isto um holandês e um russo andam à porrada no Eurosport. Devem ganhar à vida a andar à pêra. Eu não. Eu não dou nem levo umas murraças desde o ciclo preparatório. Nem acho que me tenha feito falta.

Enquanto escrevo isto vou ouvindo uns escoceses melancólicos chamados Ostle Bay. São um exemplar típico daquele pop de guitarras pós-adolescente com pretensões a escrever a canção definitiva sobre o amor ou a falta dele. Claro: são mais uns que não conseguem. Mas o esforço é válido e ouve-se bem.

Enquanto escrevo isto lembro-me dos lugares comuns sobre os sentimentos na adolescência. Lembro-me e, à distância, confesso que me parecem reais. Há dias em que quero aquela explosão hormonal de volta. Há dias em que não. Era tão fácil escrever, naquela altura. As histórias nasciam com facilidade e, se faltavam histórias, sobravam opiniões. Era tão fácil ter certezas, naquela altura. É tão espúrio ter certezas, agora – à excepção das certezas fundamentais, dos princípios.

Enquanto escrevo isto o holandês já ganhou ao russo e agora está a levar na boca em grande estilo de um japonês. Será que se pode inferir daqui que os japoneses são doidos para a porrada? Eu não infiro, até porque não trabalho no 24 Horas.

Enquanto escrevo isto os meus pais já devem estar deitados. Os meus sobrinhos já devem estar a dormir depois da excitação de mais um dia de escola. O meu irmão e a minha cunhada ainda devem estar a pé. Sabe-me bem lembrá-los assim, ter uma ideia precisa de onde estão, pressentir que estão bem.

Enquanto escrevo isto já o japonês arrumou o holandês e agora é a sua vez de levar um arraial de pancada às mãos de um tailandês. Confesso que nunca me tinha passado pela cabeça que, enquanto eu alinhavo (ou chuleio…) um post, há várias pessoas que ficam com a cara esfacelada por desporto.

Enquanto escrevo isto recrimino-me por não estar a treinar a progressão II-V-I no piano. Recrimino-me por não estar a ler o que devia ler. Recrimino-me por não estar a ler o que me apetecia ler. Recrimino-me por não estar já deitado para conseguir acordar cedo amanhã. Recrimino-me por ter deixado a louça do jantar por lavar. Deixam-me contente estas prevaricações inconsequentes.

Enquanto escrevo isto o tailandês atira umas patadas ao focinho do japono que, por sua vez, se abraça a ele. Uma pessoa incauta pensaria que o tailandês é mau e que o japonês quer fazer as pazes. Uma pessoa maldosa pensaria outra coisa…

Enquanto escrevo isto considero que também eu tenho as pazes feitas. Devo alguns telefonemas, quero retribuir alguns gestos – e é mesmo bom verificar que no prato da balança que merece a etiqueta “deve” só tenho amizade e gratidão. E posts. Devo-me alguns posts. Guardar palavras não me traz proveito nenhum nem deduções no IRS.

Enquanto escrevo isto não faço mais nada. Resultado: tenho um pé dormente.

Arrotos do Porco:

Enquanto escrevias isto a tua genialidade estava à solta. Que bom!


Este teu post teve em mim um efeito apaziguador, calmente...Se calhar foi porque estiveste muito quietinho enquanto nos oferecias as tuas palavras.
Olha e mesmo que não possa deduzir depois no IRS, guarda-as na mesma e depois amortizas durante o ano, sabe sempre bem.



Foi bom ler!
Adolescer dói mas deixa rasto que de uma forma ou de outra é iniludivelmente bom por ser rico.

:)



Enquanto li isto fez.se o almoço! :P

If u gotta live, live with a smile!





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