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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


domingo, outubro 03, 2004

Folhetim - dia 1

Cumprindo o ritual já por muitos conhecido lá na urbanização, antes de bater com a porta o Carlos soltou, em bem projectada voz de barítono e inesperadamente correcta dicção, o tradicional "PÓ CARALHO!" com que mimoseava a esposa antes de sair para as oficinas do Metro. Trabalhava por turnos e nunca sabíamos a que horas soaria aquele "PÓ CARALHO - BLAM!" que tão bem conhecíamos. Era um bom lembrete para a aleatoriedade de certas coisas nesta vidinha que levamos, mas isso pouquíssima relevância tem para o caso. Se vos falei do Carlos e das suas saídas foi para vos situar, para que percebam porque razão foi logo ele que, ao sair do elevador, deu de caras comigo, morto, à porta de casa.

Estar morto é uma seca. Perdem-se imensas oportunidades de gozar com a tolice alheia, mesmo que fosse pouco avisado gozar descaradamente com o Carlos, que era abrutalhado de natureza e ex-boxeur por vicissitudes várias. As espessas sobrancelhas que mantinham os olhos fundos numa quas'eterna penumbra só se arqueavam em esgar sorridente quando se falava de uma vitória do Benfica. Sendo eu sportinguista desde o berço (antes, até) poucas vezes o vi neste estado. Não estivesse eu morto, porém, e não deixaria passar em claro aquele ar idiota com que me olhou e perguntou:

- Vizinho! Vizinho! Está-se a sentir bem?

Eu diria "claro que estou, palerma. Estou deitado à porta de casa de olhos esbugalhados, inerte e a espumar da boca porque resolvi passar aqui férias", ou qualquer coisa do género, mas, lembrem-se, estava morto. E assim continuei. Fartei-me de rir (à moda dos mortos, claro) com a atrapalhação toda dele e o tempo inacreditavelmente longo que levou a perceber que tinha que telefonar para o 112 e chamar polícia e ambulância. Tivesse aquele crânio espesso permitido esta lucidez e eu pouco ou nada teria para escrever, já que estaria a ser cremado 48 horas depois, mas tal não aconteceu. Após longos minutos a ensaiar gestos que incompletava, desde o tocar à campainha de minha casa até ao marcar de um número no telemóvel vermelho com uma águia pintada, decidiu sentar-se ao meu lado. Com um dedo, tentou sentir a pulsação da minha jugular. Não o conseguindo, encolheu-se contra a parede, respirou fundo e disse:

- Olha que porra, hem? Estas merdas, só a mim...

Lamentei, do fundo da minha morte, perder mais esta oportunidade.

Arrotos do Porco:

Então o rapaz bateu a porta com a expressão habitual e à porta da rua dá consigo morto...!
Olhe que eu também dizia aquilo, sabe?
Ou se calhar, habituado à gíria costumeira, ainda me saía um "Pó c*****"!
Olhe que até teve sorte.
Um braço e parabéns pela ideia.



Bai-ta f**** que os mortos não escrevem!


Eu continuo a achar muito estranho as personagens das tuas histórias morrerem sempre...

Estás a ver como são os benfiquistas?! Estás? A tentar salvar a vida aos sportinguistas... Já os sportinguistas nem um comentário fazem aos textos dos benfiquistas! Ah, pois é.



Nos primeiros segundos de leitura, juro, pensei estar perante o seguimento de uma das histórias do Nymoma, depois de te reconhecer o estilo, ainda sem ter visto que eras tu, fui confirmar se estava no Porco ou no outro. Tu baralhas-me velhote!

Anita



E como querias tu que eu mantivesse o meu estilo "cool" e desprendido se andasse para aí a comentar com seriedade os postes alheios?


Pff...!


Muito bem, gostei muito, principalmente pelo facto de o benfiquismo dele não lhe permitir grandes sorrisos.

Espero que esse folhetim, que agora teve o seu 1, chegue aos vários milhões.
Um abraço bem vivo!





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