<$BlogRSDUrl$>

Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


quinta-feira, outubro 23, 2003

Mais sobre tabaco

Na lotaria dos disparates, saiu-me hoje um maço engraçado. Caiu, com um “ploft” seco, na gaveta da máquina e por lá ficou a olhar para mim, com um “Fumar mata” taxativo e arrogante estampado na frente.
Ora, eu podia estar comodamente instalado num sofá forrado a veludo bordeaux e morrer engasgado numa bolacha Maria ensopada em chá de limão. Dificilmente me ocorre actividade mais inócua e insuspeita de causar dano mortal. Mas até a inactividade pode ser perigosa: uma crise de apneia do sono mais cabeluda pode fazer o meu já depauperado cérebro entrar em anoxia e atirar-me para um confortável esquecimento vegetal ou, no limite, matar-me. Mas isto é retórica, e vamos acreditar que quem pôs este anúncio (passe a mentira descarada) o fez na convicção de que fumar aumenta, em muito, os riscos de morte a um indivíduo.
No verso do dito maço, porém, reza o anúncio “Fumar pode provocar morte lenta e dolorosa”. O que, combinado com o anterior, significa que a morte lenta e dolorosa é uma das que podem ocorrer a quem fuma. Fumar mata e seguramente, como nos dizem, mas essa morte pode ser lenta e dolorosa. E se pode ser, também pode não ser.

(um parêntesis: é patético ver como o legislador, que tentou calar a boca a um lobby de histéricos anti-tabagistas com esta nova moda, tem pudor de escrever “cancro”. Estigmatize-se o fumador, arranje-se uma nova encarnação de estrelas amarelas na lapela, mas deus-nos-livre de ferir susceptibilidades e escrever a palavra que é normal e eufemisticamente substituída por “doença prolongada”...)

É então uma das hipóteses que o fumador “compra”, a da morte lenta e dolorosa. E é uma arrelia, convenhamos, um gajo agonizar em sofrimento. Mas há mais possibilidades. Vejamos:

- Uma morte rápida e dolorosa. Também não parece atractivo, mas ao menos é rápido (e nem quero falar do relativismo do “rápido/lento” e “doloroso/indolor”). Um gajo, num minuto, está a beber uns canecos e a comer tremoços com os amigos na esplanada, e segundos-de-grande-sofrimento depois é adubo. Chato. Mas, repito, rápido. É um empate, por assim dizer.

- Uma morte rápida e indolor. Isto é universalmente considerado como a melhor maneira de esticar o pernil, e por isso não podemos considerar isto como uma coisa realmente desagradável.

- Uma morte lenta e indolor. Isto parece-me um excelente projecto de vida! Um gajo vai morrendo lentamente, mas sem sofrimento. No fundo, é uma outra maneira de dizer “uma vida sem preocupações”. Há lá coisa melhor!

Sejamos agora simpáticos e atribuamos a cada uma das possibilidades igual probabilidade de ocorrência. Temos que, fumando, temos 25% de hipóteses de ter uma morte aborrecida, 25% de morrer assim-assim e 50% de hipóteses de morrer em grande. É como comprar metade dos bilhetes da lotaria e saber que metade do restante não foi vendido! Até ver projecções fidedignas das probabilidades de morte para não-fumadores, vou continuar a fumar. É que, sabem, não é por não fumarem que vocês vão ficar vivos...

Arrotos do Porco:


<< Voltar ao repasto.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?