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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


terça-feira, fevereiro 15, 2005

Não me perguntem qual o motivo, porque seria entrar em algo que não quero aqui focar, mas há uns anos atrás, fui com o meu pai, a uma igreja em Compostela. Era mais uma que eu visitei, e como tal, não estava sequer preparado para o que iria encontrar.
Esta igreja, ou antes, um pequeno convento, albergava uma comunidade que tinha por nome:
Carmelitas Descalças.

Nada de mais, até termos batido à porta. Num pequeno hall, fresco, lúbregue, fechado, encontrava-se a campainha. Tocámos. Aliás..puxámos. Era uma "sineta".
Junto á porta, firme, poderosa, grossa, velha, havia um pequeno postigo, mas que estava chumbado. Junto à porta, e nas paredes de pedra, estava entranhado um sistema feito de madeira. Era como que um balde, dividido em 4 partes iguais. Perguntei ao meu pai para que servia...Nesse preciso momento toca um sino no interior do convento. Silêncio sepulcral.

Nisto, o "balde", como que por magia, roda sobre um eixo...e ouvimos a pergunta ( em espanhol ):
- Quem é?
Ao que o meu pai, fez questão de responder.

Mais um toque do sino. Novo silêncio. 1 minuto depois ouvi o rodar de uma chave...3 trincos...de novo outra chave...novos 3 trincos.
Eis que finalmente surge alguém. Aliás... duas senhoras. Duas irmãs carmelitas, com as suas vestes que naquela comunidade, eram de cor muito escura ( tinham também aquelas "abas" que não sei o nome próprio ). Cumprimentaram-nos com um aperto de mão...o meu pai apresentou-me. O nosso propósito no local, tinha a ver com o trabalho do meu pai, que teria que ser feito no piso superior da igreja, no chamado "balcão". Para acedermos a este piso, tivemos que entrar num monta-cargas sem qualquer tipo de protecção, completamente arcaico, que se encontrava numa sala escura, por onde entrava um feixe de luz....tenso..frio.

Quando chegámos ao primeiro piso, aconteceu talvez uma das coisas mais surreais com que me deparei desde que provavelmente nasci. Uma das irmãs, ao sentir a nossa presença, e porque acidentalmente nos cruzámos com ela na intersecção de dois corredores, puxou a túnica para a cabeça, tapando a cara e a face, e curvou-se quase que tocando com a palma da mão no chão, e correu rapidamente para a sua "cela". Foi, talvez a vez em que me senti o pior ser humano, e que percebi talvez aquilo que os "mosntros" sentem, ou talvez mesmo, senti ali que eu estaria mais perto do Diabo do que do próprio Deus que ali veneravam.

Só contactámos com 3 pessoas naquele convento. Duas que tinham essa permissão, e esta outra que passou por nós, como o vento. O meu pai acabou o seu trabalho e saímos. Não sem antes, elas terem jurado que iriam rezar pela minha saúde, e me oferecerem um porta-chaves que guardo ainda hoje. Antes de fecharem a porta, cada um pegou numa chave. Saímos. Ouvi uma chave a rodar...3 trincos. Posteriormente outra. 3 trincos. Subimos as escadas. Entrámos no carro. Viemos para Coimbra.

Foi então que no Caminho, finalmente consegui falar com o meu pai, e me apercebi que não tinha aberto a boca uma única vez depois de ter entrado naquele local. Obtive então a explicação sobre aquela comunidade, que aquele "balde" servia para se colocarem os alimentos, porque as irmãs nunca iam à rua fazer compras...que a porta tinha dois trincos, porque aquelas duas irmãs eram responsáveis cada uma por uma chave, para evitar que alguém fugisse...etc etc...

Morreu dia 13 a irmã Lúcia. Faleceu na minha cidade...onde "vivia" no convento de Carmelo há talvez 50 anos ( não sei bem, e sou sincero...não ouvi ainda nenhuma notícia ). Sempre que ali passava de carro, junto ao convento, lembrava-me das outras irmãs que talvez estivessem a rezar por mim. Dava-me um certo conforto pensar nisso. Provocava-me uma certa tensão, imaginar como viveria a irmã Lúcia, porque soube de perto como é que as Carmelitas vivem...o que é o enclausuramento. Parece uma palavra complexa, mas viver a palavra será porventura um dos maiores sacrifícios de um ser humano.

Por opção ou não, Lúcia viveu enclausurada. Por opção ou não, Lúcia quis viver como uma Carmelita.
Uma Carmelita certamente, e pela forma como viveu toda a vida, não gostaria depois de morta - e acreditando piamente que estaria em viagem para o céu -, ser alvo de toda esta pseudo-homenagem, de acto exposto contínuo, que mais parece ser para alguém tipo "princesa Diana", do que para um ser humano que viveu sempre arredada de todas as privacidades por homenagem a Alguém em que acreditava. Pelas suas convicções. Pelo seu trabalho. Pela sua fé.

Por tudo isto é que penso que o Catolicismo está em desuso. O Catolicismo é triste. Não só porque não se conseguiu desenvolver e adaptar a uma nova realidade, como também, quando essa "antiguidade" se vê confrontada com os dias de hoje, dá neste festival de absurdos a que as Carmelitas não precisavam de assistir.
É que ninguém pense, que elas têm voz de protesto, ou vêm para a rua dizer que não querem esta exposição de uma das "suas".

O povo não entende. Confundem feiras com homenagem.
Não sabem que a maior homenagem é deixar a Lúcia ir ter com os seus...e falar de novo com Fátima!

P.s. - Por tudo isto me questiono se ainda tenho fé suficiente para continuar a ser católico!

Arrotos do Porco:

Não precisas que rezem por ti, Miminho. :)

Não vou fazer mais nenhum comentário, porque sou ateia e porque não vale a pena ferir susceptilidades, só vou dizer que acho que muitos católicos não merecem a Igreja que os representa.



Eu também não rezo por mim! :)
Tenho muita gente já que reza!

Eu, Nuita às vezes acho que sou católico..outras ateu...enfim...tudo é demonstrativo da sociedade em que vivemos, em que nada é suficientemente forte para nos fazer acreditar no que quer que seja, para além de nós mesmo!

Com toda a convicção, sei que acredito em mim mesmo!

E também acho que os católicos também não merecem a Igreja...mas também acho o contrário.



Em ti, até eu acredito. :)


Mimosa,

A religião (toda) é baseada no medo, na castração e na mais mercantilista e profana das relações comerciais.

Serve-se, acredita-se, sofre-se e paga-se em vida a recompensa que se terá em morte. Na cristã nem virgens nos esperam.

Não acredito na religião.

Nos religiosos também não lhes encontro coerência, mas respeito. Sem misturas, eles lá eu cá.

Mas no teu texto acredito.

Acredito que foi o melhor de todos os teus textos que até hoje li.

Acredito que foi escrito com respeito sentimento e sinceridade



Gostei muito do texto.




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