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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


segunda-feira, maio 31, 2004

I - DE COMO EU NÃO TENHO POSTADO E DE COMO TODA A GENTE TEM MUITA PACIÊNCIA

Pois é, não tenho tido tempo para nada, nem mesmo para conviver com os meus amigos virtuais (e não só).

Depois de mil comentos, só lhes posso gabar a paciência, uma vez que, nesta altura, apenas permanecem os resistentes e aqueles que estão na crista da onda - o que quer que isto signifique.

Meus amigos, novas postas virão, assim como novos dias verão a luz.

Até breve.

quinta-feira, maio 27, 2004

CAMPANHA PIRILAMPO MÁGICO



Este é o 18º Ano de existência desta campanha.
Destina-se a apoiar as pessoas portadoras de deficiência mental e multideficiências e, simultaneamente, apoiar as organizações sem fins lucrativos que lhes prestam apoio. Este ano começou dia 22 de Maio e vai até dia 13 de Junho.
Pode-se apoiar esta iniciativa adquirindo os pirilampos, pins, Cds, t-shirts.
Vai haver uma Gala no Coliseu dos Recreios no dia 1 de Junho.
Este ano o pirilampo terá as cores da selecção nacional.

Comecei a comprar o Pirilampo Mágico quando a minha sobrinha mais velha nasceu. Acho que o facto de ela ter nascido saudável me fez pensar nas crianças diferentes.
Quando nasceu a minha outra sobrinha, passei a comprar dois. Depois, nasceram-me dois enteados, passei a comprar quatro. Agora, sempre que nasce outra criança na família compro mais um. Às vezes, vejo nesta atitude, semelhanças com as promessas dos católicos. Mas não me ralo.
Este ano vou comprar mais um pelo Cutivinho e outro para o Príncipezinho.

quarta-feira, maio 26, 2004

NÃO É IMPULSE


Hoje, a propósito de ter escrito umas cartas lembrei-me mais uma vez da minha infância! Ando um pouco saudosista nesta fase, quiça pelo Benfica depois de 10 anos ter ganho qualquer coisa..."Ainda me lembro da última vez...10 anos! D-E-Z anos!" Neste contexto, nada como assistir ao caminho hercúleo do Porto, e recordar ( no presente ) as conquistas do passado!

Mas voltando à minha infância...
Posso dizer que eu, fui "um puto feliz"! Andei num Colégio privado, daqueles que eram pagos principescamente, e do qual a minha mãe tinha de se matar a trabalhar para me poder dar as condições necessárias a precaver o nascimento de um futuro profissional risonho...Hoje, não deixo de lhe dar razão!
O Colégio ficava a 500 metros de casa, e logo com 7 anos, comecei a sentir as minhas primeiras responsabilidades ao fazer 2 "atravessamentos de estrada" sozinho durante o percurso, enfrentar "cães" vadios ( foi aí que comecei a ganhar espírito de corredor ), e levar "bola de futebol", "carros", "mochila", etc e tudo o que pudesse, para a escola! Mais tarde, com 8 anos, comecei a levar o meu irmão pela mão! Ou seja...aos 8 anos, para além do material, ainda tinha que levar o "trambolho"!

O Colégio, para além das condições que nos proporcionava tinha algo que nunca mais vou esquecer: a minha professora e os meus colegas! Devo em grande parte aquilo que sou hoje, à Dona Isabel Pião ( chamava-a sempre assim, porque educação era coisa que não faltava...), e aos meus amigos/colegas! Hoje pensei numa coisa interessante: lembro-me muito mais dos nomes dos meus colegas de primária e da minha professora, do que os de faculdade!

No entanto, aconteceu-me algo de trágico...a minha professora não me reconheceu! A mim...e logo eu que tenho uma admiração excepcional por ela! Fui jantar a um restaurante, e ela passou por mim, eu cumprimentei-a ( em puro êxtase ) e ela disse, com aquele olhar franzido: Olá!

Expliquei-lhe quem eu era, o que fazia, onde vivia...e referi-lhe a importância que ela teve na minha vida, contando-lhe um episódio que me lembro que aconteceu, quando tinha 7 anos em plena sala de aula:
Estava eu a fazer um teste, quando bateram à porta! Ela vai abrir...
Nisto, entra um ramo de flores pela sala a dentro, com um homem de 30 e tal anos por trás. Com uma felicidade estampada no rosto, vinha agradecer à MINHA professora, o facto de ter sido também sua professora, à muitos anos atrás! "Bah...Ela era mas é minha professora! Que coisa mais ridícula", pensei eu!

Mal acabei de lhe contar, ela de lágrimas nos olhos disse-me adeus! E assim foi...Nunca mais a vi!
Não imaginam porém a vontade que eu tenho desde que sou um "adulto recente", em lhe oferecer um ramo de flores...e não é "Impulse"!
Mas, agora que lhe contei, acho que deixou de ter sentido! Mas, se mesmo assim arranjar coragem e o fizer, ao entrar na sala de aula, não olharei para ela ( que já sei que irá chorar desalmadamente )! Irei trocar antes uns piscares-de-olhos com todos os "putos" que estiverem a observar-me...com a Ana Carolina, Ana Cristina, Fernandito, Cati, Gabi, David, Cámá, Nuno Filipe, PN, Carla, Teresinha, Ritinha, Nuno Ferreira, Bruno, André João...etc..etc...
Para que eles entendam, o que é importante cuidar do nosso passado, quando ele for presente, para tentarmos depois ter um futuro melhor...ou não!

VIVA A MINHA PROFESSORA DA PRIMÁRIA! VIVAM OS MEUS AMIGOS DA PRIMÁRIA! VIVA O MEU COLÉGIO!

terça-feira, maio 25, 2004

Cartas, correios e carteiros.
ou a propósito dos mensageiros
by Violeta


Não sei se sabem mas criei há pouco tempo um blogue com a finalidade de motivar as pessoas a escreverem ou publicarem as cartas da sua vida. Visitei os trinta mil blogues que parece que existem em Portugal e convidei todos os seus autores a participarem no projecto inovador. Como tenho talentos inconfessáveis a convencer os outros e como a ideia era genial, tive uma adesão fantástica. Um blogue de franco sucesso. Cinco (5) autores e uma média de comentários diários de seis (6) presenças. Como nós os cinco, comentamos sempre os posts uns dos outros, faço a ilação óbvia de que haja mais uma pessoa em toda a blogosfera interessada neste tema.
Projecto de sucesso, portanto. Agora, dirão vocês, com toda a pertinência, mas como tive eu esta ideia genial de um blogue feito de cartas?
Eu explico. Desde criança tive um fascínio em receber cartas. Ora, para as receber, tinha também de as escrever. Ninguém escreve a quem não existe e eu iniciei essa aventura das cartas ainda pequenina. Felizmente havia uma papelaria na minha rua. Ao lado da drogaria do Sr. Venceslau. Nas tardes de sexta-feira em que os dias eram maiores, eu saía pela aventura do passeio fora, e com a semanada que poupava religiosamente, comprava um boião de anilina colorida, que misturava com tudo o que podia para fazer novas cores e uma embalagem de cartas e envelopes. Papéis de carta de cores infames, como lilás e violeta, gravados com corações, gaivotas e ursinhos, eram a minha perdição. Depois era só escrever cartas às amigas no fim-de-semana e entregá-las na segunda-feira na escola.
Confesso, que cresci rapidamente. Comecei a perceber que a coisa tinha mais piada com selo à séria e metida no vermelho sedutor do marco de correio que me acenava na esquina da rua de cima. Os selos… outra paixão. Nunca os coleccionei, mas que adorava o sabor da cola na língua, isso, adorava. Depois, abrir a caixinha de correio com a chave que se encontrava pendurada na porta da rua, ao pé da imagem da Nossa Senhora de Fátima, era um acto de devoção. Guardo ainda hoje todas as cartas que a minha melhor amiga de liceu me enviou durante as longas férias de verão em que estivemos separadas. Ela tinha a particularidade de enfeitar os envelopes por fora com desenhos fantásticos, tipo bonecas Rita.
Um dos desgostos da minha vida foi o envelope normalizado. A partir daí, percebi o que era a normalidade…
Cartas de juventude, cada vez mais elaboradas, foram chegando e sendo enviadas. Cartas de amigos em aventuras por outros mares, cartas de namorados cheios de paixões novas, até tenho saudades das cartas dos meus pais, nos primeiros anos em que me tornei gente crescida e voei para fora de casa. Dentro do envelope de papel fininho, vinha uma folha de carta fininha (porque se pesava o amor dentro das cartas na balança dos correios e o amor pesado era mais caro), que trazia a caligrafia desenhada da minha mãe e a assinatura no cheque do meu pai. Sobrevivi com essas cartas, paguei a renda de casa e fiz-me mais gente com elas.
E os dias começaram a ser mais rápidos. A urgência era a exigência dos nossos dias, e o tempo, ganhou contornos de soberano. Já não nos deixava escrever cartas. Despedimos os carteiros. Começámos a viver agarrados ao telefone, mas ele agarrava-nos ao sofá. Tínhamos de andar depressa, amámos por isso o telemóvel. Estamos ligados em qualquer lugar em qualquer situação. Não precisei mais dos cheques do meu pai. E as palavras dele já estavam tão longe da minha saudade…
Conhecemos um novo canal. A Internet. O correio a toda a hora. Faça chuva ou faça sol, este novo carteiro nunca nos desilude. Não há atrasos. Abro o meu correio várias vezes ao dia. E rejubilo sempre. 18 mensagens de correio? 18 amigos que se lembram de mim? Abro o correio, mas a chave já não está pendurada num local de culto. 18 mensagens de gente anónima que me diz coisas incríveis, como emagrecer 10 kilos numa semana, como aumentar os meus seios, como aumentar o meu pénis, como conhecer mulheres de sonho, como aumentar os meus gémeos e os meus bíceps e como ganhar dinheiro facilmente. Ainda me dizem que são meus amigos e que eu sou uma pessoa linda, na condição de eu chatear mais dez pessoas como eu, reenviando os passarinhos e as imagens de paz fatelas que me mandam. Se eu quebrar estas correntes, estou feita. Não respondo a estas cartas. Sou antipática e assumo isso.
Desligo o correio electrónico. Espero pelo meu dia de luz e de amizade. Chego a casa, abro a minha caixa metálica de correio, que pago incluída no condomínio caríssimo, e novamente rejubilo porque tenho a caixa cheia. Meto-me no elevador que pago incluído no condomínio caríssimo e até ao 7º andar vou lendo os remetentes. Conheço os remetentes. São fiéis e constantes na altura do mês em que se lembram de mim. E solicitam-me delicadamente o pagamento em euros da minha existência. Respondo a todos eles, delicadamente, dolorosamente, não envio beijos, mas assino os cheques com a minha melhor caligrafia.

São estas as cartas do nosso dia a dia.

Por isso criei um blogue de cartas. De amor, de desamor, de paixão, de raiva, de carinho, de amizade, de ódio, de ser gente. Voltei a escrever cartas. Voltei a ler cartas. Descobri mensageiros esquecidos. Somos imensos. Somos cinco. (ou seis)

P.s. - O blog é este! E um tal de mimosa que de vez em quando lá escreve umas barbaridades, é um primo que eu tenho...lá de longe! A imagem em cima é a do meu primo, nessas brincadeiras...

segunda-feira, maio 24, 2004

A MINHA PRIMEIRA



Andava eu atafulhado com papéis e mais papéis, por entre certidões de Conservatórias, plantas de implantações, revistas, jornais e desenhos... quando dei por mim quase sem espaço para dormir! É verdade que comprei um colchão com umas dimensões exageradas para a área do meu quarto, mas eu gosto de dormir...( Lembra-me a história de um homem que me pediu uma cozinha grande porque a mulher era boa cozinheira! )
Mas mesmo assim, precisava de mais espaço! O meu apartamento era "uma casa de bonecas" - como carinhosamente os meus amigos a chamavam -, mas era um T1! Com a beleza e proporção espacial que um apartamento desta dimensão pode ter, possui incondicionavelmente muitos problemas quando o factor espaço ( ou falta dele ) começa a falar mais alto! Neste caso berrava-me!

Quando a encontrei foi "amor" à primeira vista...é por isso que hoje sinto um misto de felicidade e tristeza! Vejo resolvidos os problemas do espaço, mas dei por mim, fora do Cartório, como simples visitante do meu próprio apartamento! A minha primeira "casa"...deixei-a! O meu amor foi-se, e decidi vendê-la só porque já não satisfazia as minhas "exigências"! Loucura? Quem sabe...o tempo o dirá se foi! Vou trocá-la por uma maior, o que não quer dizer necessariamente que seja mais bonita...mas será sem dúvida mais compreensiva! Mas a compreensão neste caso tem um preço...necessariamente maior, como é lógico!

Aliás...as casas, as "nossas" casas prendem e prestam-se a isso mesmo: a vários tipos de relacionamentos!
A que eu tinha com a "minha primeira" era uma espécie de fascínio! Tinha a maquilhagem ideal, apesar de não se "apinocar" muito! Tinha a pele suave, e um toque aveludado! Gostava de sentir os meus pés descalços a passear sobre ela!
Pequena...com dimensões muito proporcionais, era a típica portuguesa!
Era quente no Inverno, e fresca no Verão! Confortava-me, era meiga e dava-me o meu "espaço" dentro do pouco espaço! Nunca se lamentou, nunca me deu uma insatisfação...( é verdade que também nunca me deu nenhuma satisfação )! Mas é um facto que também nunca lhe tinha perguntado nada...
Mesmo naqueles dias em que estava aparentemente só, na sala, ou no quarto, ou na cozinha, ou na casa-de-banho ( é fácil descrever todas as divisões de um T1 )..nunca me sentia como tal! Ela era um todo, e estava sempre ali, pronta a me receber com um sorriso! Ao simples rodar de uma chave...

Lembro-me de um dia, quando a minha mãe quis pôr alguns dos meus bonecos ( acho que era o Astérix e o Obélix ) para o lixo, ou dar a alguém ( não consigo precisar ), porque eu tinha uma catrefada deles, eu retorqui a chorar que "os bonecos eram para mim os meus filhos"! E perguntei-lhe "se ela alguma vez me iria atirar ao lixo!?"

Não vou colocar a minha primeira casa no lixo...nem a considero como minha filha! Já não tenho aliás, idade para essas mariquices...mas sinto que acabei de "vender" uma das minhas primeiras paixões! Mesmo que tenha sido um muito bom negócio...

domingo, maio 23, 2004

Acordei com uma ressaca fantástica. É nestes dias que sabia bem um homem ao meu lado, para me fazer o pequeno almoço e beijar-me os pés até passar esta sensação horrorosa. Levantei-me devagar para não a acordar e fui até à cozinha. Preparei um copo de leite com café e voltei para a cama. Deitei-me ao lado dela e passei devagarinho os dedos pelos cabelos e ao longo das costas. Não a queria acordar, mas também não a queria a dormir.

Beijei-lhe o corpo e arrependi-me. E se ela não estivesse tão ressacada como eu? Vai se a ver e ainda queria ter sexo. Embrulhei-me no lençol e fechei os olhos. Não foi tarde, nem cedo, mal encostei a cabeça na almofada senti os dedos dela a acariciarem-me as mamas. Abri os olhos e virei-me. Queres café, não. Um sumo, também não. Quero só beijar-te um pouco e ficar quietinha até que a ressaca passe. Esta frase fez-me beijá-la. A perspectiva de uma manhã de sexo ao som de tambores na minha cabeça estava longe de ser o meu ideal de manhã bem passada. Encostei o meu corpo contra o dela e fechei os olhos.

Devo ter adormecido e só acordei com o telefone aos gritos a pedir um pouco de atenção. Estou, olá estás boa. Isto não podia estar a acontecer. Estou e tu, mais ou menos, nunca mais disseste nada. Será que uma pessoa já não pode esperar um pouco de sexo descomprometido. Muito trabalho, sabes como é. E, ainda por cima tinha que arranjar desculpas gastas. Queres ir almoçar, está um dia magnífico, não, hoje não vai dar, já tenho coisas combinadas. Bom tenho que ir andando depois telefono-te.

Muito bonito. Não só me tinha acordado, como me tinha posto mal disposta. Pior do que isso, agora ía ter que arranjar mil desculpas para dar. Levantei os olhos devagarinho e deparei-me com um olhar fulminante. O que foi isto, nada. Como nada, a que propósito é que o meu irmão te telefona com voz de quem foi comido e quer mais. Estás doida, o teu irmão e eu somos amigos, amigos não reclamam telefonemas em falta. Pois, mas tu sabes como é o teu irmão. Pois sei, por isso te estou a perguntar.

Agora é que isto ía ficar bonito de se ver. Sabes, fui para a cama com ele uma destas noites. Quando, no dia do funeral da tua mãe.

Vesti o casaco e fui para a rua. Sentei-me no café ao lado de uma velhinha e fiquei a ver o tempo passar. A simpática senhora quando se levantou deixou na mesa um cartão de visita, olhei de lado e passei os dedos pela cara. Só consegui ver que era da APAV, visivelmente os cinco quilos de base não tinham sido suficientes para esconder a marca dos dedos...


sexta-feira, maio 21, 2004

SEXTA-FEIRA... E ATÉ JÁ



Hoje não traduzo. Deixo-vos só mais um poema desse mestre que é o David Sylvian. É a minha mensagem para este fim-de-semana e para algum outro em que eu não possa cá estar.

How Little We Need To Be Happy

She fell
No jewels for the hurt
When she fell
Where is the mother?

Draw back the sheets
Shake off the sleep and complete me
As I complete you
There's a universe of disappointment to be lost

How little we need to be happy
How little we need to be really happy


And you my girl
Did I forget to sing?
You, brimming with life and with joy
And curiousity

And the lights won't go out
The stars refuse to dim
And everything goes on but not as before

"They removed his voice
And the silence overwhelmed him"
How little it takes

Some of us are undecided
We might come to you
To find a new way out of this one
She should pull us through

What have they done to you?
Come here let me hold you
Cry all your tears
The sorrows that threaten to overwhelm you

Let's rise up again

David Sylvian, Blemish

I'll rise up again. Até já.


"DIÁRIO DO FAROL"


Com o avolumar de trabalho à minha volta, e com a pressão de empreiteiros, construtores, imobiliários, clientes, particulares, empresas, câmaras...deixei de estar em contacto com o mundo, e tenho tido uma relação de amor e ódio com o AutoCad. Amor porque é ele que me ajuda a pagar as mensalidades da casa, e ódio porque é ele que me retira esse contacto, e que me afasta por completo da realidade.

Há noite, antes de me deitar, penso como é que hei-de resolver o problema daquele espaço, e tento memorizar aquilo que é prioritário para o dia a seguir e com que pessoas terei que falar, para no fundo passar mais um dia, e voltar a pensar nas mesmas coisas.
Uns minutos antes, de fechar mesmo os olhos, e de adormecer ( nunca falei aqui sobre o fascínio que tenho sobre a temática do adormecer...sobre aqueles centésimos de segundos antes, de não sabermos que já estamos a dormir...fica para outro ), leio um pouco!
Raramente escolho, ou compro livros dos quais não obtive qualquer feed-back, ou dos quais por algum motivo não vi qualquer referência ou passagem que me despertasse o interesse...a não ser que me ofereçam.

O mais curioso dos livros que li até hoje, foi um, que estava referenciado numa frase, na contracapa de um Cd dos Manic Street Preachers - "Holy Bible",que por se relacionar com a problemática da originalidade da concepção de algo, me fez deslocar até à Bertrand e fazer a encomenda. O livro chamava-se "O Jardim dos Suplícios", e o autor era o Octave Mirbeau. De capa azul, com umas letras douradas, foi algo de fascinante, e que, naqueles minutos antes de adormecer, me levavam a esquecer a merda do trabalho, e embrenhar-me numa história que se passava lá para Oriente onde uns gajos chineses, torturavam "graciosamente" seres humanos, nos seus jardins. Tudo isto, era escrito de uma forma absolutamente genial, e eram abstraídos os pormenores...como convinha.

Depois já li mais alguns, do qual vos recomendo "O Deus das pequenas coisas" da Arundathy Roy. É uma história...e eu gosto de histórias. E foi o último que li!

Fui há 3 semanas, mesmo antes de dormir, à Feira do Livro em Coimbra. Dá-me uma seca tremenda ir às feiras dos livros, mas sempre consigo ( conseguia! ) arranjar algumas revistas a metade do preço. Deparei-me, em lugar de destaque, com um mais um livro do João Ubaldo Ribeiro.
Conheci-o e li-o, há uns anos, e durante a viagem de Salvador para Lisboa, um livro que me ofereceram que se intitulava "A Casa dos Budas Ditosos" ( a Estounua conhece-o também ). Devorei-o ( li-o todo antes de chegar ), e achei intrigante a forma como um jornalista brasileiro, poderia narrar tão fielmente a história de uma mulher, e a propósito de uma proposta de escrever sobre um dos 7 pecados mortais - "A Luxúria".

Dizia que era verdadeira...era um pouco como a história do "Blair Witch", que também vi num cinema no Brasil, com mais 4 pessoas numa sala, muitos meses antes de chegar cá. Fui ver, e não sabia que a história era encenada. Fiquei estupefacto...por isso, sem o saber, retirei todo o proveito de um filme, que para mim foi um documentário, e que para a grande maioria foi uma "fantochada". Eu só soube que era uma fantochada depois!...

Voltando ao livro do João...chama-se o "Diário do Farol". Vou na página 87...e aquilo tem 197 páginas...ou seja, vou lá para menos de meio. A história ( são sempre histórias ) fala de um rapaz, depois homem, que pratica o Mal, mas que faz o Bem...porque segundo o autor, ou ele ( jura a pés juntos outra vez que a história é verdadeira...xiça...nunca sei... ), só se faz o Mal se praticarmos o Bem...e só fazemos o Bem, se praticarmos o Mal. Resumindo, ele diz que não há grande distinção, e que os dois se fundem, porque são indissociáveis.
"O Diário de farol" é por isso, o meu livro de cabeceira, apesar de não ter cabeceira...nem cama...mas tenho um colchão! E durmo...

E enquanto durmo e trabalho não posso vir aqui! E não vejo as notícias...
E por isso, não sei se o Mourinho vai para o Chelsea, ou se o Camacho já está no Real; ouvi que o Moreira foi à Selecção; vi de relance o Benfica ganhar a Taça, mas nem fui festejar ( também não o faria se tivesse tempo ); não sei se os nossos destinos estão registados em computadores; nem vi o tal vídeo da "impertinente" decapitação do americano, que todos viram, mas que ninguém queria ver...
Eu não vi o tal vídeo/filme...estava mais preocupado em fazer uns "offsets" aqui no AutoCad, e ler e pensar se realmente o Bem é o Mal, ou o Mal é o Bem. Não quero por isso saber se o Bush quando diz que vai combater o Mal, no fundo não está a fazer nada Bem, e também porque está Mal a forma como ele o está a fazer, apesar dos iraquianos também não baterem Bem da cabeça...e isto tudo que se está a passar não é nenhuma história!

P.s. - Nada como vir aqui, e saber que este mundo felizmente está na mesma, e poder ficar a par de todas as novidades.


O flagelo da sociedade portuguesa


Vamos pensar um pouco desse flagelo que nos tem atacado desde o fim do Verão.

Já estão a ver qual é? Eu ajudo: "Morangos com Açúcar"!!


Ora bem...se aquilo pretende ser um retrato fiel da juventude e sociedade portuguesa, eu devo viver numa dimensão
alternativa!!!


Bom...vejamos:

A FAMÍLIA:


A história começa quando quatro filhos, o mais velho com uns 20 anos, perdem os pais.


Agora eu pergunto: Que raio de pais seriam aqueles,
para os filhos nem sequer falarem deles em nenhum episódio?Além disso, seria mais
fácil tornarem-se todos em: 1 irmão mais velho que se está a cagar para os irmãos,
uma irmã mais velha com tendencias suicidas e ideais satânicos, um mini-delinquente
armado em puto-estúpido e uma miuda de 7 anos maníaco-depressiva! Na verdade na
série eles são: O irmão mais velho ultra-responsável e paternal, a irmã mais velha
ainda mais responsável e maternal, que está sempre (mas sempre) a rir (se calhar
tá com a moca),o irmão atinado e estudioso e a pita de 7 anos (e sem pais) completamente
feliz!

A JUVENTUDE:

Outra situação... MAS QUE DIÁLOGOS IDIOTAS SÃO AQUELES???
Acham realmente que certas situações se passam assim ? Ora vejamos: Série: Olha,
vi-te ontem à noite. Estavas com uma bebedeira, procedeste mal. Achas bem o que
fizeste?
Vida real: EEEEH PUTO! Tavas com uma moca ontem à noite!!!! Vai lá vai!
Comé que é? Esta noite vamos mamar umas jolas outra vez ou quê?
E pergunto eu
de novo: Mas naquela escola só andam os 30-35% de jovens que não fumam? E ninguém
fuma charros por ali?
Mais ainda: Qual é o jovem que se preze, que aos 17/18/19
anos ande sempre com a barba impecavelmente feita? Serão todos paneleiros?!

A ESCOLA:


Meu Deus! Que prodígio! Uma escola sempre arrumada, sem papéis pelo chão,
riscos na parede, pastilhas elásticas debaixo das mesas, casais a mandar quecas
na casa de banho, grupos de mânfios à porrada e contínuas mal-humoradas! Aquilo
mais parece um bloco operatório do que uma escola... Além disso, quando toca para
entrar...
Série: Olhem, já tocou! Vamos para as aulas ? (E lá vão eles, quais
sete anões a caminho da mina...)
Vida real: A: Pah...tá a tocar... B: Yah... A:
Fds...a prof já lá deve tar...puta que a pariu!
C: Quero mais é que ela morra...
Vou comer um bolo ao bar e já lá vou.
A e B: Yah yah, bora lá!
Será que os alunos
gostam tanto desses professores que não conseguem chegar 5 minutos atrasados ?
Não podem passar um minuto sem eles??? Será que são professores pedófilos e eles
gostam?

OS PROFESSORES:

Que raio de professora é que deixa um colégio no Estoril
para ir dar aulas para Castelo Branco?????? Está tudo a tentar vir-se embora de
lá e ela faz o contrário? Será que bateu com os cornos na parede e tem a noção
de Litoral/Interior trocada?! Que dom terão esses professores para nas aulas deles
não haver NINGUÉM a falar, não há indisciplina, não se manda ninguém para a rua?
Volto a perguntar, serão pedófilos e o pessoal tem medo de falar? E ninguém chumba?
(Será o prémio por ficar caladinho?)

OUTRAS SITUAÇÕES:

Recentemente houve uma
situação em que entraram num bar, onde estava a menina atinadinha e um amigo e
partiram aquilo tudo.
MAS QUE RAIO DE MANDIÊS (mânfios, para os leigos) ERAM AQUELES?

Esta cena tem certas incongruências com a vida real:
a) Os mânfios eram TODOS
brancos. (Estão bem a ver o irrealismo disto!)
b) Que raio de assaltantes
eram aqueles? Partem mesas e cadeiras e não vão à máquina das imperiais???? Serão
ladrões abstémios??? "Olá, eu sou o beto mãozinhas, assaltei 32 velhinhas, mas
não toco no alcool há 6 meses"
c) E não violaram a rapariga?
d) A piéce de résistence:
Então os gajos partem aquela merda toda, E NÃO VÃO À CAIXA REGISTADORA??? (isto
é altamente irrealista, volto a lembrar que eram todos brancos!)
Que raio de casal
de namorados é que aos 18 anos decide casar ? Assim que a gaja (e geralmente são
elas) mencionasse essa palavra ao namorado com essa idade, no mínimo dos mínimos
a resposta seria:
Rapaz: FODASSE! MAS TU ESTÁS DOIDA? TOMASTE OS COMPRIMIDOS AMARELOS
EM VEZ DA PÍLULA? ESTÁ TUDO ACABADO!
Rapariga: Mas..! Mas...! Eu amo-te!
Rapaz:
PORRA, deixaste os miolos em casa ou quê?!? Ala que se faz tarde!
Na cena seguinte
naturalmente surgiria o Rapaz numa cena de sexo escaldante com a melhor amiga
da agora ex-namorada, que geralmente é uma granda vacarrona.
E por último: Que
raio de bairros de lata são aqueles onde, surpreendentemente,também não há papéis
no chão e quando as pessoas perdem telemóveis vêm um grupo de simpáticos mandiês
entrega-lo cordialmente?


Este pensamento chegou-me ao meu mail e eu acho que merece ser compartilhado convosco....


quinta-feira, maio 20, 2004

Treatra 1

Mega-store de produtos para casa. Balcão de atendimento ao cliente. Uma rapariga, de madeixas loiras apanhadas em rabo-de-cavalo e pele impecavelmente lisa (à força de maquilhagem), afadiga-se com uns papéis. Aproxima-se um casal, na casa dos 30 anos, de ar vagamente distraído. Caminham próximos, mas não juntos.

Ela: Boa tardes.
Recepcionista: Boas tardes. Em que posso ajudá-los (disparando um sorriso imaculadamente branco e radioso)?
Ela: Venho fazer uma devolução.
R: (endurecendo as feições) Ah. E que vem a senhora devolver?
Ela: (com um ligeiro aceno de cabeça) O meu companheiro.
R: Então? Tem algum problema?
Ela: Não… nada de especial. Só que… não dá, pronto. Não consigo.
R: Muito bem. Vamos já tratar disso, então. Trouxe a factura?
Ela: Claro, tenho-a aqui comigo. Se bem me lembro, a vossa loja garantia satisfação, certo?
R: Sim, claro. Se não ficou satisfeita procederemos ao reembolso..
Ela: (sorrindo triunfante) Óptimo.
R: (voltando-se para ele) E o senhor, também quer fazer a devolução?
Ele: Não, eu não adquiri a minha companheira. Saiu-me numa promoção. Duas embalagens de 24 latas de cerveja Pelintra dava direito a 6 canecas com os emblemas de clubes da Liga Excelsa ou uma companheira. Eu já tinha as canecas, por isso…
R: Ah, muito bem. Senão, processávamos o pedido de reembolso em conjunto. (durante uns minutos introduz dados no computador que tem habilmente escondido atrás do balcão). Prontinho. Já está tratado. Quanto é que tinha gasto?
Ela: Dois anos da minha vida.
R: Certo. (teclando algo) Ser-lhe-ão creditados dois anos no fim da sua vida.
Ela: Ah, não está certo!
R: Como não?
Ela: Ora, eu perdi dois anos agora. Quero recuperá-los é agora, não quando for velha!
R: (sorrindo) Não se preocupe, que isso não vai acontecer.
Ela: Não?
R: Não. A senhora já não tem muito tempo de vida.
Ela: Não? Que maçada…
R: Não fique aborrecida! Agora, além do pouco que tinha, tem mais dois anos.
Ela: É… visto assim, até que nem está mal. Mas afinal, quanto mais é que eu tenho?
R: Deixe ver… (consultando o computador)
Ela: Posso ver também?
R: Bem… não devia, mas…
(vira o monitor para que ambas o vejam)
Ela: Só?!? Que chatice…
R: Pois… olhe, paciência.
Ela: O que é esta barra vermelha?
R: É o acidente de viação em que vai perder o baço.
Ela: Que raio de sorte me calhou. E logo eu, que conduzo com tanta cautela.
R: Não vai ser culpa sua, parece-me. De qualquer forma, é neste acidente que vai contrair a lesão renal que acaba por matá-la.
Ela: Enfim… se tem que ser…
R: (voltando-se para o homem) Eu lamento, mas não lhe posso mostrar a sua ficha. Bem vê, o senhor não é cliente…
Ele: Oh, não se preocupe. A gente já sabe como são estas coisas das promoções, eles nunca ficam a perder, né?
Ela: Deixa lá, que mesmo sem ser em promoção…
Ele: Lá estás tu. Não és capaz de ser objectiva com porra nenhuma. Vais ter os teus dois anos de volta, não vais? Eu, se quiser, vou-me queixar ao Totta.
Ela: Pffff… só por te ter aturado, devia até receber mais seis meses! Sempre a choramingar, que não tens sorte nenhuma…
Ele: Bem, eu não tenho que aturar esta merda, pois não? Está resolvido, quero que te lixes e que sofras muito nos dois anos e mais-não-sei-quê que te resta. Ciao!
(sai furioso, sob os olhares delas…)
Ela: Ai, que raiva! E pensar que este cabrão tem a vida toda pela frente!
R: Eu se fosse a si, não me preocupava muito com isso…
Ela: Como não? Eu tenho pouco tempo de vida e este esterco vai continuar por aí! Não é justo!
R: (sorrindo) Eu não lhe devia dizer isto, mas… se tivesse esperado até à semana que vem, já não poderia devolvê-lo…

quarta-feira, maio 19, 2004

NÃO...

Não queria ter aberto aquela mensagem, nem ter visualizado o anexo. Não tinha a mínima intenção de ver aquela barbaridade.

Agora peço absolvição. Peço a mim, aos meus princípios e condeno o meu livre arbítrio.

Entre dentes, ressoaram três blasfemos "Meu Deus...", enquanto as mãos apertaram o estômago, o peito - Mesmo assim não consegui apertar a Alma, que estava dorida, muda, gritante no seu vácuo espiritual.

Apetecia-me chorar. Amaldiçoado seja eu, que devia ter-me deixado fazê-lo. Amaldiçoado seja, pois amaldiçoei e desejei morte àqueles que impunemente e em directo para um registo magnético, fizeram da vida, do último fio de humanidade daquele torturado rapaz, esvair-se em sangue por artérias, veias, osso e carne, divididos por um espaço outrora inexistente.

Animalesco, cruel, desumano... Irrefutavelmente execrável.

Amaldiçoado seja eu, eles e todos nós, pela parca evolução que nos envenena.




P.S.:

20.05.2004

Nestes últimos tempos, entre os meus afazeres costumeiros, as visitas diárias à blogosfera nacional foram gravemente lesadas. Contudo, hoje, durante a actualização sobre cochicho dos vizinhos enquanto o meu tempo de ausência, pude constatar que o impertinente mais pertinente da blogosfera, tinha já referido o assunto supracitado, infelizmente, sofrendo o mesmo fado e indisposição estomacal como consequência.

Encorajo-vos a ler e reflectir - embora, sinceramente, não haja muito a rebater - sobre a sua posta.

terça-feira, maio 18, 2004

1460+1

Faz hoje quatro anos. Subi a ladeira como tantas vezes o havia feito. Virei à direita e de novo à esquerda. Passei as portas e sentei-me de mão dada, com um sorriso de felicidade e um enorme sentimento de impotência. Percorri os corredores, espreitei para dentro da salinha vezes sem conta, cruzei os dedos, fumei, corri e suspirei.

Toquei, esbocei um sorriso, cheirei, passei as mãos por ele, sorri quando o vi sorrir (impossivel). Passou tanto tempo e não me consigo esquecer, tantas asneiras, tantos sustos, tantas alegrias...

Olho em frente e não sei para onde vai, tento saber como poderá lá chegar, queria dar-lhe tudo o que não tenho, queria que ele não soubesse tudo o que eu sei, queria que ele tivesse para sempre o mesmo sorriso ingénuo que tem hoje.

O meu filho faz hoje quatro anos, e por mais prendas que eu lhe dê nenhuma é igual à que ele me deu quando o vi nascer.


MINI-POST DE DESBLOQUEIO

Como não me sobra muito tempo para o livre pensamento, profundo, fundamentado, sólido e bem estruturado, aqui deixo o meu pequeno contributo para que haja harmonia entre os comentadores.

Posto porque posso, porque me deixam e porque tenho gosto nisso.

E porque me chateia a espera do carregamento dos comentários.

Comentem livremente e com o prazer de uma boa conversa, como eu o faço.

Até já.

NOTA: este post é de consumo rápido. Façam-me o favor de postar algo com conteúdo. Rapidamente.

segunda-feira, maio 17, 2004

SER BENFIQUISTA...

GANHAR E PERDER

sexta-feira, maio 14, 2004

SEXTA-FEIRA... EHHHHH!



Não é de hoje nem de ontem - acho que sempre fui assim. Sempre tive esta queda para o "middle of the road". Tanto na música como na literatura como noutras coisas: sempre me fascinaram os projectos ou objectos que quase "chegaram lá", ao panteão da imortalidade, mas caíram no esquecimento quase generalizado. Dos grandes génios, das obras fundamentais, toda a gente se lembra. Eu prefiro fazer os inventários daquela faixa intrigante entre a mediania e a mediocridade. Mediania e mediocridade é como quem diz: sê-lo-á aos olhos da maioria mas não aos meus, que me lanço em cruzadas para defender o valor de coisas a meu ver injustiçadas.

Tudo isto vem a propósito daquele que é um dos meus discos "de Verão" favoritos. Foi lançado em 1989 e deixou os seus autores sem contrato discográfico, pondo fim a uma carreira conjunta de grande sucesso. O All Music Guide dá-lhe uma estrela - de um a cinco - e considera-o "flat-out bad". Se não me engano, nunca foi reeditado. Tanto pior. Eu gosto dele e gosto muito. É, e digo-o sem vergonha, o meu álbum favorito dos The Style Council e chama-se "Confessions of a Pop Group".

Há quem o ache pretensioso, pomposo e deslumbrado. Eu não. Acho até que é o único álbum desde o fim dos The Jam em que o Paul Weller respeita o facto de fazer parte de um grupo. Mick Talbot mostra - a quem tivesse dúvidas - que é um bom pianista e Dee C. Lee ganha finalmente espaço para mostrar a sua voz sóbria e bonita. É um disco de... pop, jazz-pop, chamem-lhe o que quiserem. É um disco de Verão, cáustico mas feliz, harmonioso, bem arranjado, tranquilo e... feliz, pronto.

O Paul Weller escreve grandes canções. Não quer dizer que seja um letrista de mão cheia, mas lá se safa. Nesta sexta-feira de calor mas com nuvens, que nos deixa na incerteza quanto ao fim-de-semana que vamos ter, dou-vos a ler, na língua de Helena Marques e Fernando Campos, a simpática demanda pessoal que abre o álbum, tendo como título uma daquelas verdades incontestáveis: It's a Very Deep Sea - o que vem provar que esta canção não foi escrita na Foz do Arelho.


It's a very deep sea

I'll keep on diving 'till I reach the ends,
Com a hipnose regressiva talvez fosse melhor
dredging up the past to drive me round the bends,
Mas lá vou revendo os passos que dei enquanto menor
what is it in me that I can't forget
Quero achar o momento que marcou o que veio a ser
I keep finding so much that I now regret.
E afastar os escolhos do que me faz arrepender
But no, on I go down into the depths
Às tantas mais valia não me maçar e estar quieto
turning things over that are better left
Em vez de lembrar tanta coisa que não passou de projecto
dredging up the past that has gone for good
"Trazer à tona memórias idas" - tem efeito algum?
trying to polish up what is rotting wood.
Antes pensar que o que não fiz não passaria de merdum

Something inside takes me down again
Mas volta e meia lá mergulho eu com as ventas no passado
diving not for goblets but tin cans
Fuçando entre carrinhos partidos e papéis de rebuçado
dredging up the past for reasons so rife
P'ra quê invocar dias de euforia ou ennui?
passing bits of wrecks that once passed for life.
E esfregar a cara na inconsequência de coisas que vivi?

But I'll keep on diving till I drown the sea,
Mergulho nestes vinte e oito anos de arrecadação
of things not worth, even mentioning
E chafurdo entre pérolas e coisas que não valem um colhão
perhaps I'll come to the surface and come to my senses
O que importa é emergir preparado para o presente
but it's a very deep sea around my own devises.
Qu'amanhã é fim-de-semana e eu estou todo contente/ Satisfeito por ser novo e não ter a alma doente (riscar o que não interessa)

The Style Council, Confessions of a Pop Group

Pronto. Traduzindo uma letra de um grupo com um nome como "The Style Council" o meu conselho de fim-de-semana não podia ser outro: abracem a futilidade. Antes alienado pela televisão que perdido na introspecção.

quarta-feira, maio 12, 2004

Um mail

Recebi ontem um e-mail muito interessante. Sou pessoa cuidadosa no que escrevo e, sobretudo, como o escrevo. Correio electrónico, Short Message Service, conversas de MSN, YahooMessenger, chat ou afins não escapam a esta minha regra e recebem o mesmo cuidado, como vos poderá garantir quem já tenha entabulado qualquer tipo de comunicação comigo.

Dentro deste espírito cabe direitinho o princípio de dar títulos elucidativos, imaginativos, chamativos ou apenas curiosos aos meus e-mails, na secreta convicção de que o seu destinatário começará por aí a formar a sua opinião acerca do que eu estou a tentar transmitir. Reciprocamente, quando recebo correio começo por antecipar o conteúdo pela forma como vem anunciado, mesmo antes de olhar para o remetente. Será abusivo da minha parte proceder assim? Claro que não, é meu direito inalienável ser preconceituoso da forma que entender. Quem deseja, de facto, entender-se comigo rapidamente percebe com que linhas me coso, já que disso não faço segredo a ninguém. Mas deixemos a introdução e passemos ao caso que vos quero relatar.

Dizia eu que recebi um mail com o seguinte assunto: "resposta". Assim, tal e qual, sem capitalização no início, sem pontuação no fim, nada. Seco, críptico e quase anónimo, já que o remetente nada me dizia. Aberta, a referida mensagem rezava assim:

"se não tem o que fazer, vá tomar nesse cú nojento como vc. enfia os vírus no seu rabo."

Pronto, já perceberam que o remetente era brasileiro. Mas isso em nada influi na minha apreciação, já que sei de muitos e bons brasileiros que escrevem português tão bem ou melhor que qualquer indígena luso, seja na forma que nos é mais familiar, seja na que medra impune do outro lado do Atlântico. A minha primeira reacção foi uma sonora gargalhada, como está bom de ver. A seguinte foi a de sentir um desdém intenso pela besta que assim expande a sua raiva perante uma intrusão inesperada, sem se informar sobre as reais possibilidades de ela ter, de facto, tido origem numa conta de mail minha. Para mais, a referida conta está sediada no Hotmail, que tem protecção anti-viral em toda a sua rede. Trata-se, obviamente, de um vírus que simula o remetente a partir de um qualquer endereço da lista de contactos do computador afectado - coisa que dispensa explicação para quem perceba de computadores mais que a utilidade do botão "On-Off". Em seguida - e como terão percebido por esta explicação mais detalhada - comecei a ficar incomodado com a impunidade e arrogância da criatura que assim fez explodir a sua própria imbecilidade em PC alheio. Irritam-me as pessoas que julgam apressadamente e sobre terceiros desconhecidos fazem cair represálias, sejam elas absurdas e patéticas como esta ou outras mais danosas.

Decidi-me a escrever um poste sobre esta maré de incivilidade que sobe imparável no mundo, lá como cá como por todo o lado, denunciada impiedosamente pelo Último Paladino dos Valores Verdadeiros (eu, antes que perguntem), quando me dei conta que estava a fossar no mesmo lodo. O tipo pode ter tido o seu trabalho todo lixado por um vírus, e é estupidamente presunçoso da minha parte presumir que é defeito dele não saber como funcionam os vírus. Se ele tivesse enviado um mail com cabeça, tronco e membros, escrito no português que eu cultivo e prezo, tê-lo-ia elucidado, mesmo que a mensagem fosse tão venenosa quanto a que efectivamente mandou. As possibilidades são (quase) infinitas, mas eu julguei-o como me apeteceu.

Volto à primeira reacção e rio-me. Cagando e andando, está tudo bem. Menos mal, que tive assunto para um poste.


OS NERVOS



"Ai meu Deus... Será que me vou lembrar dos passos todos? E se o playback instrumental não arranca? E se o microfone me cai das mãos? Se calhar mais valia usar um daqueles pequeninos e colá-lo na testa com fita cola... Acho que estou mais gorda... A poder de tanta comida turca... Sim... Afinal Istambul é na Turquia... E eu a pensar que era na Eurovisão... Será que pareço muito ordinária com este vestido? Comparada com aquela serigaita de Chipre pareço a Irmã Lúcia, mas mesmo assim... É pena a música ser muito mexida, senão ainda punha um xaile... Ficava assim típico... Bom. Rapariga, tu respira fundo e vamos lá ensaiar. 'Eu não sei como foi/Não sei que me mordeu'... Não, porra. Não é isto. Deixa-me lá ver o papel. Ora... Lai lai lai, lai lai lai... E ataco isto com voz sexy ou aquele ar sofrido e doce que fui cultivando? E se ninguém de Portugal telefona a votar em mim? Só pensam no Figo... Qual Figo qual porra! Eu é que sou a selecção de todos nós! 'E lá estavas tu/A sorrir p'ra mim/Eu nunca... eu nunca... perlimpimpim?' Fosca-se! Não meto isto na cabeça. É dos nervos. Antes isto que uma diarreia. E se eu me esqueço de entrar quando fôr a minha vez? Ando habituada a ouvir a Catarina Furtado a dizer 'P'ró palco!'... Aquela sonsa... Estava convencida que era o outro que ia ganhar mas fodeu-se! Bem feito! Humpf! Não é à toa que me chamo Sofia Vitória! Aquela putéfia de Andorra vai cantar antes de mim... Oxalá te caia um projector em cima, vaca de merda! E a seguir a mim é o casal de parolos de Malta... Que merda de companhia... Pode ser que isso me ajude a brilhar. 'Foi magia/Quando eu te toquei/E o beijo que neguei'. Foda-se! Estou nervosa. Não me lembro da letra. Será que dá para usar teleponto?"

terça-feira, maio 11, 2004

RENHAM e BLOGORIZICULTORES

RENHAM - Palavra de estrutura estranha, arquitectada recentemente, neologismo. O que traduz? Mais um post sobre o nham que ocorreu no passado dia 8 de Maio, em Coimbra? Não, porque eu não fui.

No entanto, já conheci alguns dos comensais e imagino que os rapazinhos e as rapariguinhas tenham honrado a sua condição de Blogorizicultores do Concelho de Manteigas. Sim, porque esta coisa de ser Blogorizicultor tem muito que se lhe diga.

E o que é, afinal, um Blogorizicultor? Tracemos-lhe o perfil. Em primeiro lugar, seja do sexo masculino ou do sexo feminino - sim, porque é inaceitável um tertium genus - tem que ser uma pessoa bem disposta. E isto não quer dizer que tem que estar sempre a rir ou a contar piadas. De modo geral, tem que dominar a técnica do comento. Depois, as ideias vão surgindo naturalmente. E aí, é um desfiar de rosário, com muitas Avé Marias pelo meio e Pais-nossos à mistura.

E mais?” – perguntam-me ansiosamente.

Bom, depois temos as idades. Não há uma idade definida para participar nestas coisas e tornar-se um Blogorizicultor. Imagino que apenas os jovens de cento e vinte anos, que não tenham muito contacto com as novas tecnologias e já estejam um pouco desligados do Mundo pelas mazelas da antiguidade, não se interessem pela Blogorizicultura. De resto, temos, certamente, um pouco de tudo.

Socialmente, basta um computador ligado à net, seja numa barraca ou num palácio, e já lá estamos.

Claro que há provas de fogo para se chegar a Blogorizicultor. Não é preciso revelá-las, a maior parte de nós conhece-as bem…

E - quem diria? - a maioria dos Blogorizicultores são pessoas decentes.

Resultado do processo? Gera-se a Amizade, que de virtual passa a efectiva e real.

Muito mais há para dizer, mas deixo isso para outros ou para outra altura.

Tenham um resto de bom dia.

segunda-feira, maio 10, 2004

REALIDADES PARALELAS

Era Queima das Fitas mas não vi grelos queimados. Nem vi rasganços das capas. Nem ouvi gritos académicos - graças a Deus! Há já cinco anos e meio que me apercebo da tolice que é festejar o fim dos anos de estudo... Que fizessem uma cerimónia fúnebre, ainda era como o outro. Mas celebrar? Enfim...

Era Queima das Fitas mas isso não interessava. A única coisa que se poderia queimar eram alguns neurónios que padecessem às mãos do volume alcóolico. Terei queimado alguns, parece-me provável. Mas quando cheguei a Coimbra estava sóbrio. Eu conto...

Fui apanhar o comboio à estação do Entroncamento. O Entroncamento é a prova provada de que, se Deus existe, não é arquitecto nem urbanista. Mas adiante. Chego à bilheteira quando faltavam dez minutos para a chegada do comboio que precisava de apanhar. À minha frente estava um senhor cuja provecta idade lhe permitia pagar só meio bilhete - nada de mal, desde que o senhor soubesse para onde queria ir...

- E esse comboio vai para Lisboa?
- Vai.
- E tem ar condicionado?
- Tem.
- E os lugares são marcados?
- São.
- Então queria um bilhete.
- Ora então são...
- NÃO! Espere! Quanto é que é um bilhete até Santana-Cartaxo? É que me lembrei agora que tenho passe entre o Cartaxo e Lisboa...

Bom. Quando o senhor se despachou, chegou a minha vez. "Boa tarde. Queria um bilhete no comboio das 19h para Coimbra B." Esta frase parece simples. Menciono a hora do comboio. Menciono o destino. Presumo que tem todos os ingredientes para ser entendida por um "bilheteiro" com uma barriga que era testemunho de muitos anos de experiência profissional. Mentira. A minha frase era opaca para o seu entendimento... "Mas no Pendular?". Sei lá eu. Sei que há um comboio às 19h e já é muito... "Sim, no das 19h", arrisco. A resposta é críptica: "São nove érios e cinquenta e o comboio sai às 21h20." Seguro, mesmo na fronteira, o "Foda-se" que ameaçava fugir dos confins da minha cavidade bocal. "Não... Ó meu amigo, eu preciso de ir no comboio das 19h." Isto foi dito no tom de voz mais calmo que pude conseguir, enquanto o relógio me mostrava que eram 18h56. "Então deixe cá ver...", diz-me o bilheteiro enquanto desdobra um horário... "Ora... às 19h... às 19h há um mas é Intercidades! O senhor tinha-me dito Pendular!". "Olhe, peço desculpa. Eu quero mesmo é ir neste das 19h.", disse eu, esperando que não fosse preciso imolar-me para arrancar o perdão de tão zeloso funcionário. "Então são sete érios e meio. O comboio pára na linha 5."

Olhei para o relógio. Corri para a linha 5, feliz por ter conseguido o bilhete que queria. O comboio chega à hora. Entro na carruagem indicada pelo bilhete, vejo que o lugar que me correspondia estava ocupado e sento-me num outro, ao lado de uma pacata senhora. Depois da estação de Fátima (vulgo Chão de Maçãs, oficialmente Vale dos Ovos - é sempre bom mostrar que se conhece, ainda que modestamente, este nosso cantinho...) chega ao pé de mim o Senhor Revisor. Como cidadão exemplar que sou, estendo-lhe o bilhete. O Senhor Revisor olha para mim. Olha para o bilhete. Olha para mim. A mão direita está suspensa no ar com o pica-pica a postos para perfurar o título de transporte. A imagem parece parada artificialmente. Até que o Senhor Revisor abre a boca e diz: "Este bilhete não é para este comboio." Só isto. Mais nada. Cessaram as conversas. Fez-se silêncio. Só se ouvia o barulho ténue de cabeças a voltarem-se na minha direcção. "Como assim? Este não é o Intercidades para Coimbra?". Confesso-vos que duvidei da minha sanidade mental... "Vareta, moço, mas tu já nem sabes apanhar um comboio?..." Felizmente não era tanto assim. O Senhor Revisor explicou: "Este bilhete é para o Intercidades que sai do Entroncamento às 20h56." Só isto. Mais nada. A populaça à volta sorri à espera de sangue, à espera que o revisor me expulse a pontapé e me atire para a via férrea a alta velocidade. "Mas eu pedi ao seu colega da bilheteira um bilhete para este das 19h." Suspense. Toda a gente aguarda a última palavra do Senhor Revisor. "Não há problema. Ainda há alguns lugares." O meu suspiro de alívio foi apagado pelas expressões de desilusão dos outros passageiros que se viram forçados a regressar ao desalento da paisagem e das reprimendas da mãe da criança que ameaçava vomitar se não lhe comprassem batatas fritas.

Cheguei a Coimbra à hora a que tinha dito que chegaria a Coimbra. Sou um homem de palavra. As pragas que roguei ao senhor da bilheteira do Entroncamento não foram sérias. Retiro-as. Chegara a tempo ao meu destino e isso é que importava. A minha humilhação pública numa carruagem de comboio é uma coisa de somenos para quem tem a minha estatura moral.

O milagre tecnológico da telefonia móvel permitiu-me saber onde era o Restaurante em que me iria encontrar com gente de tão duvidosa reputação. Chegado às imediações do Restaurante Alfredo (homenagem clara a esse belíssimo programa de entretenimento que os Estúdios do Monte da Virgem pariram há muitos anos, chamado "Canto Alegre", em que uma das personagens repetia ad nauseum "Ó Alfredo! Intéi parece bruxedo!"), vejo o Menir, o nosso Valderrama com a sua frondosa cabeleira afro, acompanhado de uma misteriosa figura. "É um gajo? É um ecoponto? É um Fiat Multipla?"... a dúvida - a que a minha miopia talvez não seja alheia - dissipou-se quando o Menir me anuncia: "Este é o Feio, Porco e Mau." Olhando para o indivíduo em questão, aquela frase parecia uma verdade lapidar. Mas, afinal, o moço não é mau. Ainda assim, 66,6% de verdade num nick já é apreciável.

E jántamos. As descrições abaixo postadas são suficientemente aldrabadas para terem ideia do que não se passou. Jantámos, alguns partiram nessa altura, alguns resistiram e foram às Noites do Parque, cortesia da sociedade Mimosa&Irmão, Lda. Fomos com amigos do Mimosa que merecem uma palavra de apreço: serem amigos daquele gajo é um exemplo como poucos de caridade cristã. Eu sei e vocês sabem que ele não vos merece, mas o Senhor é bom e levará isso em conta.

No recinto à beira-Mondego plantado, o cenário foi de miséria. Aquecidos por Alabastro, Monte Velho, Onix-Fónix, Sagres, Jameson, Johnnie Walker, Espetadas de Morangos em Granizado de Qualquer Coisa Alcoólica e tudo o mais que viesse, os convivas resistentes (os outros que não eu, claro) caíram direitinhos no estereótipo do "gajo maduro que ainda pensa que é novo". Eu mantinha a minha pose serena e impassível. Se alguém me perguntava de que curso era ou o que fazia ali, respondia que estava só a queimar tempo até à hora do meu electro-cardiograma. Mas os outros? Senhores! Os outros estavam loucos! Falavam de música, falavam deles próprios, contavam histórias, lembravam-se dos ausentes, riam-se, bebiam, fumavam... Uma miséria! Depressa percebi porquê. Era a música. Eles agora querem é rock... Depois dá nisto!

E pronto. Na manhã seguinte, enquanto os outros ainda dormiriam tranquilos, eu penava para chegar a tempo ao comboio que me levaria à terra natal e à normalidade reencontrada. Se ouvirem histórias malévolas sobre pessoas que encostam as costas do telemóvel ao ouvido e dizem "não ouço nada" ou sobre despertares com distúrbios gástricos será tudo mentira. Tudo!!

Ficaram mais esclarecidos sobre o que se passou? Claro que não. O "nham" já não é um encontro de pessoas que "se conhecem da internet"; é um grupo de amigos que se junta menos vezes do que queria. Por mais caras novas que vão aparecendo, por mais ausências que se verifiquem, já não há gelo para quebrar. Ainda me fascina este processo: em vez de ter sido um grupo de amigos que se juntou para criar um blog, criou-se um blog que acabou por juntar um grupo de amigos - e um grupo em expansão.

A mim, quem me tira os clássicos... E à vinda, na manhã seguinte, lembrei-me desse clássico: "Coimbra é uma lição..." Foi mesmo uma lição. Aprendi algumas coisas. A arte beirã de bem receber. A generosidade singular de um gajo do Porto. E, acima de tudo, isto: um pão com chouriço, às 5h da manhã, não é necessariamente o melhor ingrediente para "ensopar" o álcoól ingerido.

O meu obrigado ao Mimosa, à "sua", aos seus amigos, à VD, à tt e ao "seu", ao Zeca e à "sua", ao Papa, ao aRMAS, ao FPM e ao Menir. E aos que não foram mas queriam ter ido. E aos que não foram e não sabiam bem se queriam ou não. O som daquela noite faz parte do meu "the sound that makes the world go round", como diriam os Lamb.


O NHAM - Visto por dentro de mim...


Não falarei aqui do dia anterior, pois esse foi passado na companhia de dois presentes...fomos jantar com outra rapaziada, num outro local, bebemos outros vinhos, contámos outras histórias...não interessa nada!

Acordei cedo, no Sábado! Nervoso, algo ressacado, mas tenso...
Pensei: "Será que aqueles dois dormiram bem?" "É chato terem que dormir no chão...mas também não podia mais...isto é um T1!" Enfim...
Olhei para o relógio...4 horas!
"Xi...será que querem almoçar?Não tenho aqui muita coisa...Vou perguntar!"

Nisto, ligo o telemóvel...Entre mensagens de gajos a "quererem bandas" como forma de recepção, a outros mais modestos "exigindo" passadeiras vermelhas, dei com uma:
"Já ando por aqui!"...foda-se! E eu a dormir..."Será que ele está bem?" "Não se perdeu?"

Telefono-lhe...andava a ver uns gajos de tacos na mão, a baterem bolas...Eu preocupado, e ele ali próximo das Lágrimas. Indico-lhe o caminho de regresso...e convido-o a ir lá a casa! Entra e junta-se à molhada...Teve que esperar que tomássemos um banho! Pensei...
"É chato ter que esperar aqui...Podia estar a fazer outras coisas!" "Somos 4...ainda vai demorar!"

Arrancámos dali às 17 horas...mandei-os para um outro local fora de minha casa, porque pensei que ali estariam mais à vontade, e poderiam fazer o que bem entendessem...

Fomos esperar um casal à estação de Coimbra B! Infelizmente não tive tempo de trazer a banda, até porque o espaço era acanhado para uma banda...no automóvel...
Pela cara, tinham feito boa viagem...bem..pela cara dela, porque não consigo nunca perceber o que está por detrás da cara dele! Fomos para a residencial...
Na confusão da escolha de quartos, o Sr. Madeira, foi-lhes mostrar os aposentos:
"Será que está bem para eles?""Ainda estão a limpar..xiii!"
Fomos comer qualquer coisa...a uma pastelaria!Foi o que se arranjou, e também não poderíamos ir para longe, pois o "modesto" chegava às 20h12...e tinha também de controlar a chegada dos outros!

Fomos entretanto a um bar, suficientemente gay para eu saber que todos iriam gostar, enquanto esperávamos a hora de jantar...Bebemos uns finos ( acreditem ou não, até reparei que a pressão da cerveja estava em condições, apesar de muita espuma...e portanto do agrado dos convivas ), falámos, e fomos formando um grupo maior! Com maior ou menor facilidade, e centralidade, foram chegando! Ninguém se enganou..."Ainda bem!"

Eram 20h12...nisto, sem "passagem vermelha", chegou o último...Mandei-o ( perguntando ) dirigir-se a pé "porque era perto, só tens de atravessar a ponte", e o restaurante era logo ali...
Desliguei, mas logo pensei..."Será que vem com um saco muito grande?" "Se calhar deveria ter ido buscá-lo!"
Lá o encontrámos mesmo à porta do restaurante...reparei que tinha um saco feio...mas pequeno! Até podia aqui descrever o saco, mas já me estou a alongar...

Entrámos!
De facto, tal como a Dona Teresa me tinha já alertado, os lugares eram apertados, pois só por favor e eu ser um "bom moço", me fizeram o jeito de colocar mais 28 lugares, num restaurante já cheio! Escolhi este porque sim, e porque não era necessário andarem á procura de lugares, e porque era perto do parque, e porque era perto das saídas das auto-estradas, e porque eu janto sempre ali com os meus amigos nestas alturas...e queria continuar a fazê-lo! Porque ia juntá-los todos...
Ficámos apertados...
Serviram o jantar...escolhi um prato comum:
"Será que fiz mal?Se calhar queriam outra coisa...Mas senão tínhamos que esperar muito...e há pessoas que podem querer ir embora mais cedo!"
Todos falaram...gozaram-me o tempo todo, como já é hábito...Afinal, nem estava a ser assim tão diferente!
Continuaram a falar...vi até que alguns riram...sorriram...eu, por mim, matei saudades, apesar de estar meio morto por dentro! Estava com uma filha de puta de tensão que, nem comi em condições...mas bebi! Bebi um bom vinho tinto Alabastro de 2001...de reserva disse o empregado! 2001 é de reserva...enfim...

Acabámos o jantar...fiz as contas! Tive que dividir...apesar de já ter um nome conhecido a nível internacional, essa mesma condição por si só não paga contas, pelo que tive que fazer a célebre divisão! Os meus amigos, já estão habituados, mas será que estes estariam?
Lá pagaram...eu achei um preço razoável...nem pouco nem muito! Foi ajustado...para mim...

Saímos...arranjei uns convites para o pessoal que ainda aguentou, e pôde, e quis ir ao Parque! Sobraram para todos...uff..ainda dei alguns aos outros meus amigos, que sabiam que hoje não daria para eles!

Lá descemos..despedimo-nos antes de alguns...já tenho saudades deles!
Entrámos...
Fui beber...bebi, continuámos a conversar...a rir...a sorrir...
Finalmente desprendi-me...
Perguntei à minha:
"Achas que correu tudo bem?", ao que ela respondeu:
"Deixa de ser estúpido e vai-te lá divertir!"

Deixei...e fui! Mas eu já me estava a divertir...enfim...


O nham

Coimbra. Em má hora demandei esse lugar decrépito e bafiento, cuja única e dúbia virtude é a de ter sabido convencer um rei boçal e estróina a lá instalar um estabelecimento de ensino superior. Por muito que tentem contornar a questão, é insofismável que muito da problemática do ensino em Portugal se funda nesse acto irreflectido e eivado de equívocos - mas avancemos, que disso não falarei agora.
Dizia eu que me tirei de cuidados, e do meio intelectual e culturalmente estimulante em que me encontro imerso 99% do meu tempo, para visitar essa terra frouxa e morna. Não é Norte nem é Sul, não é fria nem é quente, nem bonita nem feia, etc., etc. Até a porra do rio não se decide se é coisa a sério ou se fica por ser um ribeiro. Tristeza. E porque cometi eu tamanha imprudência, perguntarão vocês (e espero que o façam para o telefone 96285401)? Anunciava-se um convívio entre algumas das pessoas que frequentam este belogue e a possibilidade de privarem um pouco comigo afigurava-se decisiva para convencer alguns renitentes. Relutante, acedi.
Dado já me serem por demais familiares as trombas repelentes da maioria dos participantes, a única curiosidade residia na oportunidade de conhecer essa criatura mítica, o FPM. Dir-vos-ei, sem rodeios, que o rapaz não desiludiu. É uma besta em tudo comparável aos restantes, com um gosto muito duvidoso para roupa e uma voz esganiçada e irritante que insistiu em fazer-nos ouvir. Do Papa e do aRMAS já pouco mais haverá a dizer mas, porque hoje me sinto bondoso, direi que não pioraram desde a última vez que tive a infelicidade de os ver - o que já não é nada mau. A tt surpreendeu todos, ao apresentar-se na companhia de um mocetão atlético e de poucas falas, sendo a sua aparição pouco menos que meteórica. Pouco mais tempo durou a presença do casal Galhão, para alívio dos donos do restaurante que se viram a braços com uma inesperada falta de almofadas que permitissem aos referidos chegar à mesa para comer. A menina Dentada falou - embora eu não tenha podido verificar esta informação na primeira pessoa, quem mo confidenciou merece toda a credibilidade. O Vareta estava radioso e modesto, e tive a oportunidade de ouvir uma ária por si interpretada em homenagem ao nascer do Domingo. Um momento inesquecível. O Miminho - a quem os amigos se referem como a Mimosa, sem dúvida por lapso - esteve ao seu nível. Falou em "emoção", "amigos", "gostei muito" e outras coisas igualmente amaricadas. Apresentou-nos uma rapariga simpática que ele asseverou ser sua namorada. Por educação, todos fingimos acreditar.
O jantar foi uma amostra da gastronomia local - bifinhos com cogumelos, batatas fritas e arroz - regada com bebidas vagamente alcoólicas. A maioria dos comensais revelou gosto e requinte ao optar pela cerveja. À esperança de doces conventuais, que o local do evento acalentava, respondeu o dono do restaurante com uma salada de frutas anónima, com um toque de nouvelle cuisine conferido pelas caricas em que a mesma foi servida.
Terminado o doloroso repasto, deslocámo-nos até ao vomitódromo(*) fronteiro ao restaurante para apreciar a animação local. Uns concertos, muitas bebedeiras, magotes de gente envolta em capas ridículas, graças ao Senhor, que se apiedou de todos e os obrigou a dispersar à força de chuva (embora a esta parte eu já não tenha assistido, recolhido que estava nos meus aposentos a disfrutar de um merecido sono reparador). No dia seguinte, o regresso ao conforto da capital em carruagem especialmente fretada para o efeito.
Todos os ausentes foram recordados, embora nenhum o tivesse sido de forma elogiosa. À falta de matéria concreta, imputável com conhecimento de causa aos conhecidos, inventaram-se mentiras torpes e vis a propósito dos que ainda não tiveram a coragem de se apresentar.
Dizem-me que estão na forja eventos semelhantes a este. Sendo eu suficientemente crédulo para acreditar que tal seja verdade, escapa-me a razão pela qual mo dizem com entusiasmo. Enfim...

(*) expressão gentilmente cedida pela VD.

sexta-feira, maio 07, 2004

A PUTA DA SAUDADE


Começou...foi ontem, ou hoje...nunca sei em que dia é que devo dizer que começou! Se às 0:00 ( e 1 segundo ) de Sexta, ou se no processo que se estende durante toda a Quinta-feira, até soarem as 12 badaladas, e se entoarem os primeiros acordes da guitarra...Sei que começou, e isso já é suficiente!

Lembro-me da primeira vez em que, depois de um jantar de colegas de curso, nos dirigimos em grupo numeroso, para a Sé Velha...A serenata, mais do que um momento solene, é uma espécie de ritual! Ninguém está ali para ver ou escutar a serenata em si...estamos todos ali para "fazer" a serenata! Simplesmente há uns que têm o micro de perto e podem cantar...todos os outros escutam em silêncio! Gosto de sentir que todos se esforçam para manter esse segredo inviolável, como se isso fosse de facto o mais importante...
A cor predominante é o preto, que cobre os nossos corpos, compondo uma moldura humana já por si uniforme. Capas e batinas circulam, entre apertos por entre a calçada da Sé Velha, que agora não é perceptível pela quantidade de sapatos que a cobrem! Falo de facto de milhares...posso até dizer que em tão pouco espaço seria impossível colocar tanta gente como aquela que se amontua, queda e muda, durante pouco mais de uma hora, a escutar "Coimbra, tem mais encanto"...porque de facto, toda a espiritualidade que ali se conjuga, tem sempre muito mais encanto...

Conheço a sereneta desde há muito...mesmo antes de saber que um dia viveria aquilo enquanto estudante. Uns anos antes, a serenata servia para ir ver umas miúdas todas de preto, e observar aquela que traria a saia ilegalmente acima do joelho...grandes ilegalidades eu vi, quando era miúdo ( mais miúdo, note-se! )! Mas ainda gosto de me aperceber dessas ilegalidades...

Diz-se que a queima já não é o que era...como tudo na vida, gostamos tanto de certas coisas do nosso passado, que tentamos mentalizar-nos que os mesmos acontecimentos que se repetem, não poderão ter o mesmo efeito nos outros!
"No meu tempo é que era"! Não penso assim...acho que é diferente. As vivências serão porventura outras...

A Queima é a altura de paixões, por natureza! Conheço praticamente todos os detalhes, segredos, escritas, diálogos, olhares, sorrisos, copos, tascos, acordes, músicas, cenários, vistas, locais...que existem e teimam em persistir durante a Queima! Sei o local que piso, e consinto que outros disfrutem de toda a aura que paira sobre a minha cidade, nestes dias! Tento sempre, durante esta semana, envolver os meus amigos neste acontecimento, não só porque ele é único, mas também porque ele, sem todas essas pessoas, nunca seria o mesmo...tal como a serenata..que foi ontem ( ou hoje ), e que eu não fui ver...porque já não sou estudante! Saudade...que me consome, que me vai matando aos poucos...e que me vai dizendo que estou a ficar velho!

É por isso que hoje vou para a Queima! Vou jantar e beber com uns amigos, e vou lá para o amontoado, fingir e tentar não me lembrar que já não sou estudante...Pelo menos esta semana, vou andar feliz da vida! Vou andar uns anos para trás, e vou tentar não me consumir pela saudade, e pela sorte que aqueles "gajos de preto" ainda têm por serem estudantes...

"O que vale é que no meu tempo, a Queima era bem melhor!Pff..."



(Para todos vocês e para o sr. Estounu)

Sou daquelas pessoas que não lêem Manuais de Instruções.
São chatos. Mal traduzidos. Têm letras demasiado pequenas. Alongam-se nas coisas que já sabemos e são escassos naquelas que não entendemos. Mas, em certas alturas da vida, teria dado a unha do meu dedo mindinho direito e um carregamento de gotas em troca do Meu Manual de Instruções.
« O seu botão on-off encontra-se situado no lado direito logo a seguir à sobrancelha, como indicado na figura (1)» ou então « O seu coração pode ser sintonizado automaticamente através do botão search new channel como indicado em (2)» ou ainda « A escolha correcta da funcionalidade Mudança de Profissão será assinalada com uma luz verde no display (3), enquanto estiver intermitente mais vale ir dormir a sesta», «Em caso de avaria consultar técnico do representante oficial, reparações efectuadas por outro técnico podem causar avarias irreparáveis».
Mas nunca o encontrei. Não vinha com o equipamento, e o fabricante já descontinuou a produção.
Alturas houve em que entrei em curto-circuito, queimei cards essenciais, algumas funcionalidades mantiveram-se inactivas durante anos, outras ficaram irremediavelmente perdidas e outras ainda a funcionar mal.
Há uns anos a esta parte encontrei o técnico certo. Reparou-me os componentes que julgava perdidos e substituiu os que estavam em conflito. Infelizmente há avarias que não se reparam, já não existem peças, resulta daí que, qualquer pico de corrente mais inconveniente desencadeie uma série de mensagens de erro e a necessidade de manter o equipamento em standby por tempo indeterminado.
Tenho duas fontes de alimentação: a amizade/solidariedade e o amor. A primeira provém da energia que pessoas como vocês me transmitem. A segunda tem como principal responsável o sr. Estounu.
Isto tudo para dizer: Leiam sempre as instruções.
Mentira, era palhaçada! O que eu quero mesmo é agradecer-vos por partilharem comigo a vossa existência e, nalguns casos, a vossa inexistência apesar das falhas de corrente.

quinta-feira, maio 06, 2004

Porque será que a distância nunca acalma o espírito? Já fugi, já me escondi atrás do espelho, já tentei de tudo mas olho para vocês como se ainda aí estivesse. Devo confessar que nunca foi fácil viver numa família disfuncional e ter amigos que nunca jogaram com o baralho todo. Tentei, vezes sem conta, dizer-lhes que a minha sanidade mental me fazia imensa falta, mas eles ouviram-me, não! À primeira oportunidade fizeram de mim passador de leite!

O meu marido (que Deus o conserve durante muitos e bons anos, que quando ele cá chegar logo lhe digo com quantos ovos se faz uma omelete!), não contente em encornar-me violentamente com o meu melhor amigo, mata-me! O meu filho acha engraçado ir para a cama com a minha afilhada na noite do meu funeral. A menina bastou acordar para se arrepender no mesmo segundo do que acabara de fazer, e eu, aqui, a ter que assistir a tudo com vista de camarote!

Pois agora é a minha vez de lhes fazer a vida negra. Por cada acto sabujo que fizerem eu conto um pormenor escabroso das suas miseráveis vidinhas. Sim, porque o meu marido lá ter coragem para tirar a folga ao gatilho teve, mas assumir que se virou para o Pedro porque, todas as mulheres que teve, o empalitaram violentamente aí mais devagar...

Pois é, a cabeça do menino havia dias que mais parecia um jardim num dia de primavera. A primeira mulher fugiu com o contabilista da empresa dele. O coitado bem que deu voltas à cabeça para arranjar uma desculpa plausível em que todos acreditassem e ele saisse com a honra mais ou menos limpa. Resolveu inventar que o contabilista tinha a mãe às portas da morte na terra e que teve que voltar para trás do sol posto para lhe fazer companhia. Quanto à senhora sua esponja arranjou uma desculpa esfarrapada, que a relação já dera o que tinha a dar, que haviam crescido, que as suas vidas tinham seguido rumos diferentes, mas, que não havia mais ninguém nas suas vidas.

Poder-se-ía dizer que a explicação era mais ou menos plausível, nunca ninguém os tinha visto juntos, por isso uma suspeição de relação amorosa entre os dois não seria evidente, e o facto de eles terem ido viver para Moscovo tornava implausível alguém torná-los a ver.

Pegou ele no seu farnel e mudou-se para uma casa mais pequena, porque a outra sem mulher era muito grande (isso e não ter ninguém que a limpasse), porque já estava cansado de viver no meu mesmo bairro, que queria um jardinzinho para tratar, enfim, mil e uma desculpas para não ter que dormir na mesma cama onde a outra estivera enrolada com o amante.

Tudo teria terminado em beleza se dois anos mais tarde eles não tivessem voltado a Portugal para mostrar o lindo rebento que ela acabara de conceber...

quarta-feira, maio 05, 2004

QU'ESTA MERDA!

Está um gajo, cheio de trabalho, sem aqui por os pezinhos dois dias e quando aqui chega dá de caras com 844 comentários! (Vocês não têm uma pilinha para brincar?)

segunda-feira, maio 03, 2004

ADEUS SOLTEIRÕES!


Oiço muitas vezes, que os homens quando amigos uns dos outros, são-no na prática mais, do que as mulheres! Porquê? Na generalidade dos grupos ditos “machos” a intriga é um acontecimento escasso, porque nos preocupamos com banalidades, e não damos grande interesse a essas coisas de que as mulheres se preocupam na generalidade dos seus dias! Se isso é razão por si só para justificar esse maior grau de união, posso acrescentar que dificilmente uma mulher perdoa uma outra mulher! Aliás…dou sistematicamente um grande “valor” às mulheres por isso…são de facto muito mais consistentes e coerentes relativamente às amizades que possuem, e com muito maior dificuldade perdoam algo que possa quebrar esse elo! Enfim...

Uma das coisas que sempre me intrigaram, foram as despedidas de solteiras das mulheres! Pensei sobre isso neste Domingo, durante a minha viagem de regresso de uma despedida de solteiro de um amigo, e quando o meu cérebro ainda acusava o álcool do dia anterior:
Porque é que as mulheres continuam a ridicularizar a “pobre” coitada-ainda-solteira, colocando-lhe aqueles véus ridículos, um “vibrador” na mão, e o indispensável pénis-bandelete na cabeça? Saem assim, vão para bares, vão as mais “doidonas” a bares de strip masculinos nestas figuras, gritam, mandam uns guinchos, bebem meia dúzia de copos…e assim passam a noite! Se realmente não é bem isto, as despedidas de solteiras com que eu me deparo, quando saio à noite para beber um copo na minha tranquilidade, têm sido de facto a excepção! Ou seja…as despedidas de solteiras das mulheres, são acontecimentos que todos, mais ou menos, já nos deparámos! Ao outro dia lá ouvimos as amigas:
“- Foi engraçado! Tivemos só um pouquito no hospital, por causa da Anabela que bebeu uns copitos…”
São acontecimentos sociais, da qual não se preserva a imagem da solteira, em que – e isto é uma intriga minha – o grupo das outras mulheres tenta a todo o custo ridicularizar a outra, no intuito de demonstrar que se até aquela arranjou marido, porque não eu? E o mesmo para as casadas…Esta é a imagem que gosto de ter…confesso! Sei que na realidade não é bem assim, mas não interessa!Adiante...

As despedidas de solteiros são de facto diferentes! Não me cabe aqui explicar como é uma, porque nunca me foi preciso dizerem para não falar sobre isso…É um pouco como o “fight club”. Não contamos a ninguém porque, sobre despedidas de solteiros só se fala lá dentro.
Sábado fui mais uma vez a uma, com um grupo de 25 pessoas – homens, claro! Saímos para uma outra cidade, e de facto, a escolha do local era de facto irrelevante! O facto de estarmos todos juntos, era por si só, o indispensável para uma noite bem passada! Bebemos, comemos, fumámos…Paro!

Escolhemos um local pacato, com uma boa ambiência…sonora! Entrámos, pagámos o consumo mínimo adequado ( regateando…sempre! É indispensável o regateio numa despedida de solteiro. ) e lá entrámos “confiantes”, para aquele local de rara beleza! Muito iluminado como podem imaginar, dirigimo-nos ao balcão, onde nos serviam bebidas, mediante um pagamento simbólico de 5 euros por cerveja!
Lá combinámos com o proprietário, ficarmos até a “loja” fechar, porque:
“Gostamos mesmo muito do espaço!”
O senhor acedeu depois de algum regateio, e de lhe termos doado uma pequena quantia simbólica ( 2 ou 3 euros a cada um ), para ele poder melhorar o “sistema sonoro do seu empreendimento”!

Lá estávamos no final, todos sentados à volta de uma mesa – que ainda há pessoas que insistem em chamar de “table”-, de copos na mão e sorrisos nos lábios, sem dizer uma palavra, e olhando todos para o semblante carregado do nosso amigo solteiro, que aquela hora, por já ter bebido uns copos, decidiu com a ajuda de uma bela rapariga, colocar uma cadeira em cima dessa table…e sentar-se!

As diferenças? Nenhumas...a não ser a história do véu e acessórios! Isso de facto nós - gajos - não usamos!
Venha o próximo...

sábado, maio 01, 2004

Vânia - Uma novela erótica.



Vânia tinha olhos de anime.

Alta e imponente, ela vestia cores sóbrias e pompeava uma personalidade deliciosamente elaborada. Estava sempre em controlo. Gabava-se disso sem uma única palavra. Mesmo na mais inconsolável inércia, transpirava uma confiança pétrea. Pior: era bonita. Muito bonita.

Era duro ser-se amigo dela. Estava sempre um passo à frente na companhia de uma subtileza implacável. Era o tipo de pessoa que, nos gestos triviais, comunicava essencialmente com o olhar. Coleccionava palavras, como os miúdos juntam cromos de futebol nas cadernetas. Economizava a verve para um momento de mestria - E que momentos, esses!

Era uma grande pessoa, no entanto e espantosamente, era triste. Sim, muito triste.

Nem todos sabiam deste detalhe. Vânia deleitava-se com as nossas experiências e sensações. Era um ombro presentíssimo e fugia quando lhe oferecíamos o nosso num qualquer momento infeliz - isto, quando nos apercebíamos destes, que ela não revelava a ninguém.

Muitos pensavam que seria egoísmo, mas eu não. Eu via uma síndrome de "Anjo-Da-Guarda", como tal, ela padecia de uma tristeza quase poética. Era bonito, mesmo que contraditório. Era assim que ela queria ser, e eu sempre assim a deixei.

Um dia, durante um dos nossos passeios habituais, encontramos umas folhas de papel anexadas com alguns poemas. As folhas estavam suspensas de uma outra, timbrada e assinada pelo Director da "Delegação para o Desenvolvimento Local" da câmara municipal da zona.

Após orarmos pelo emprego do pobre estafeta infortunado, começamos a ler, curiosos, que poemas seriam aqueles... Então assim foi. Sentamo-nos no "calhau" mais confortável do parque e começamos a jornada pelos misteriosos papéis.

Após a leitura em voz alta de algumas estrofes, comecei a estranhar a expressão da Vânia. Por um momento, o seu rosto simétrico e ordeiro padecia de sobrancelhas em triângulo e olhos de cachorrinho largado. Nada havia acontecido para tal, estávamos sempre juntos e as nossas vidas nunca foram segredo. Sabíamos os mais sórdidos e recônditos detalhes dos nossos "eus".

Era a minha vez de ler.

Vânia observava-me com alguma ansiedade. Enquanto fazia contas aos versos e às várias locuções que surgiam nas estrofes de devassidão, consegui deslindar que a poesia erótica barata lhe fazia um efeito de enfraquecimento na blindagem de aço impenetrável que ela alardeava - Impenetrável, com todo o respeito, claro... Ou talvez nem tanto, que ninguém é de ferro, não é? - De qualquer forma, dizia eu que enquanto articulava aquelas palavras, Vânia estava incontrolável de movimentos e olhares traquinas. Por uma ou duas vezes, pude vislumbrar um humedecimento dos seus lábios rosa - e tenho quase a certeza que a vi fechar os olhos - numa pontuação bem escolhida para o efeito - e gemer baixinho uma surda exclamação de derradeiro prazer.

Nunca imaginei vê-la assim. Sentei-me a terminar as últimas folhas de papel, enquanto me deixei envolver pelos seus finos braços dourados. Afinal, ela já tinha percebido que, dessa vez, não conseguiu esconder o que já há três poemas atrás o seu corpo clamava. Enquanto eu lia, ela pousou-me o queixo no ombro e desenhou algo no meu cabelo com o seu dedo indicador. A pressão estava cada vez maior. Agora, também eu começava a perder o juízo. Após quinze minutos de expectativa, gaguejava insistentemente através das linhas que teimavam em fugir pelos recantos daqueles papéis. Aquela Ode estava no seu apogeu, sentia a Vânia tremer enquanto apertava, cada vez mais, o meu braço já frágil perante aquele episódio axiomaticamente sensual. Já não olhava as folhas que tinha, limitava-me a mudar as páginas e entoar com o melhor estilo possível todo aquele palavreado bem-vindo.

Parei de ler. A folha estava rasgada mesmo antes do final daquela última estrofe. Ambos estávamos na linha d'olhos. Arfando e descodificando o que se estava a passar.

Num último impulso animal, algo dentro em mim disse-me que não podia perder aquela oportunidade vinda dos céus e, guloso, fui à procura dos seus lábios doces e delineados, já prometidos pelas musas sagradas.

Ela virou-me a cara, levantou-se com preguiça e num suspiro desgostoso, confessou-me:



- É pena que esse último esteja rasgado. Não há nada pior que um poema interrompido. Bem... Vamos lanchar?

- ...

- Que se passa? Estás bem?

- Mas... O que...

- Então?...

- Ah! Vânia, isso não se faz!

- O que foi? O que é que não se faz? - Perguntou ela, com o seu mais manhoso sorriso.

- Podias ter dito que estavas a "tangar", não achas?

- Ora porquê? Assim tirava a piada toda à nossa tarde... Ao menos, foi bom para ti?



O pior é que, mesmo assim, era impossível não se gostar dela.


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