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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


sexta-feira, fevereiro 27, 2004


De orelhas em pé - XI

Esperneou a oposição quando soube que o admirável Santana Lopes beneficiava de uma mordomia reservada às grandes figuras de Estado - a protecção policial a expensas do erário público. Esperneou, não porque se sinta ofendida com a aparente ilegitimidade da medida, mas porque é adepta da táctica da rasteira, do empurrão pelas costas, da cotovelada na costela, muito à imagem do futebol que temos (já vão ver porque falo de futebol...). À falta de argumentos que mobilizem o povo num projecto de união nacional que arranque o país dos braços da depressão medicada em que está enterrado, atacam-se as figuras, procuram-se os podres, diz-se, no fundo, "olhai, eles ainda são piores que nós".

O improvável edil declara gravemente que há coisas com que não se brinca, que há ameaças à integridade física, filhos que convém defender. E, pasme-se, evoca a memória. A memória de um Primeiro-Ministro morto num acidente de aviação com causas ainda não definitivamente explicadas, no que constitui uma das maiores vergonhas da República Portuguesa.

Dando de barato a insinuação imprudente de uma figura política num campo que não lhe diz respeito - o da Justiça - gostaria de, aqui, complementar a memória que agora evoca o rapaz, acrescentando-lhe uns episódios. Gostava de lhe lembrar as duas vezes que prometeu deixar a política e não cumpriu. E gostava, sobretudo, de lembrar-lhe que quando foi presidente do meu clube usou o mesmo expediente das ameaças de morte. Chegou até a convocar uma conferência de imprensa para exibir as provas de tais ameaças - que mais não eram do que a publicidade a um livro ("Cuidado com os Rapazes", Alface) que lhe foi colocada na caixa de correio. A memória é uma coisa lixada.

Tem toda a razão Santana Lopes quando diz que há coisas demasiado sérias para que se brinque com elas. Mas, a menos que ele seja um caso singular no meio das figuras públicas portuguesas, sendo o único ameaçado de morte, podia começar por guardar algum recato quanto às matérias que lhe não parecem adequadas a brincadeiras. Isto, claro, supondo que quem tenha alguma memória ainda o leve a sério.


É SEXTA-FEIRA E ESTÁ FRIO...

E como nevou na Serra da Estrela, lá devem partir as famílias portuguesas em romaria para ver esse fenómeno fascinante... E depois ficam roxos de frio e molhados e desconfortáveis mas dirão sempre que se divertiram muito e que gostam da neve. As farmácias abastecem-se de antigripais, vendem-se vários sucedâneos de Queijo da Serra e há uma ou outra fractura exposta para dar que fazer aos ortopedistas. É uma alegria!

Assim, aproveito a ocasião para vos dar a ler, na língua de Herculano e de Brandão, mais uma pérola da lírica pop contemporânea, homenageando desta feita um canadiano de boa cepa a quem os pais chamam Matthew Adam Hart mas a quem o mundo inteiro conhece por The Russian Futurists.


"It's Not Really Cold When It Snows"



We used to marvel at the way the snowflakes looked
Ficas com ar de parola quando vês a neve a cair
Under the setting sun until we (were) getting numb
Depois queixas-te que não sentes os dedos...
But could we find the two that matched like me and you?
Achas que esses bonecos de neve estão parecidos connosco?
Well I won't answer that 'cause there's no chance of that
Mais parecem o cravo fálico do Cutileiro!

But now come on girl, it's not really cold when it snows
Vês?! Já estás a espirrar! Eu bem te disse que ía estar frio!
Get outside, it's not really cold when it snows,
Passas a tarde acarvada na neve... depois dá nisto!
I still love you, it's not really cold when it snows unless you're underdressed
Não é que eu me aborreça, mas avisei-te para vires mais agasalhada, não foi?

We used to marvel at the way houses looked back
Estas casinhas de madeira na Serra não são nada mal jeitosas...
When they had peaks of white and endless seas of lights
Com os telhados cobertos de neve e a lareira acesa lá dentro
And trees without their leaves had led us to believe
Mas assusta-me a perspectiva de ficarmos presos lá dentro
The wind and heartless cold had frozen lightning bolts
Condenados a uma creogenia involuntária.

And their arms reach out to the dancing snowflakes
Se continuas a dançar na neve ainda pensam que és uma drogada!
They spin like kids skating on frozen lakes
Mais valia termos ficado em Lisboa, na pista de gelo do Dr. Santana
And they know that it's not really cold when it snows unless you're underdressed
E ao menos aí podias andar com roupinha mais leve

And we could keep our books on how the snowflakes looked
Eu sei que tu gostas de desenhar estas paisagens com neve
Under the setting sun until we're getting numb
Mas o sol já se está a pôr e a viagem ainda é longa
But could we find the two that matched like me and you?
Sabes que somos dois desorientados e o mais certo é perdermo-nos
Well I won't answer that 'cause there's no chance of that
E nem penses em ficar cá mais uma noite que o dinheirinho custa a ganhar!

But now come on girl, it's not really cold when it snows
Bom... frio? Não tenho assim muito frio...
Get outside, it's not really cold when it snows,
Achas que sim? Ficamos quentinhos se estendermos aqui o saco-cama?
I still love you, it's not really cold when it snows unless you're underdressed
Então, vá. Despe-te que isto hoje vai ser trepidação até causarmos uma avalanche!

The Russian Futurists, Let's Get Ready to Crumble



quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Alambridatia, 8

- E Budapeste?
- Budapeste? Que é que há em Budapeste?
- Ora, que pergunta! É uma das cidades mais bonitas do mundo. As avenidas, os palácios, a arquitectura. Respira-se erudição.
- Não me parece... e se fosse Ibiza?
- Ibiza?!? Que nojo! Montes de ingleses semi-analfabetos e ruidosos a comportarem-se como se estivessem em casa...
- Mas tem praias lindas. E imensa animação.
- Praias temos nós por cá, para quê gastar um dinheirão indo lá para fora?
- Boa ideia! Podíamos ir para o Algarve!
- O Algarve é um caos turístico completamente descaracterizado. Antes irmos para o litoral alentejano, Odeceixe ou Aljezur. Há lá uns tipos giríssimos a recuperar moínhos e estilos de vida tradicionais.
- Mas as praias ficam longíssimo!
- Podíamos ir de bicicleta, ou caminhar. A beleza rude daquelas falésias é devastadora.
- E, além disso, não há mais nada para fazer.
- Se queres fazer “coisas”, porque não Viena? Temos os concertos, a ópera, os museus...
- Porra, mas não há mais ninguém, e o meu conceito de diversão em férias não é bem esse...
- Em contrapartida, passávamos as férias com pessoas que nos são culturalmente afins.
- Pois. O meu medo é mesmo esse.

quarta-feira, fevereiro 25, 2004

O vazio das sombras. Os ruídos latentes que percorrem o silêncio. Sentir o chão a fugir debaixo dos meus pés. Sentir a alma que arrefece e beber um café requentado. Queria fugir daqui e ir para aí. Sentir o fogo que me queima e casar-me com o teu vazio. Queria amar-te só para me lembrar que tu existes, queria matar-te só para me lembrar que já foste minha. Tocar-te, sentir o calor que já nao tens. Olhar para ti como tu olhas para mim e sentir em ti o nada que tenho em mim.

Fechar as luzes e apagar os sons, levantar-me e tocar-te. Queria ter-te aqui junto de mim para poder ter-te longe de mim. Enquanto te tenho nos meus braços sinto que fujo de ti, para longe, para perto, para lado nenhum. Quero beijar-te e amar-te, quero lavar-te, quero te manter perto de mim, só assim sei que não terás distância para onde fugir.

Menti-te e enganei-me. Disse que te queria para mim, para sempre, para além do bem e do mal. Relembrei-me de mil promessas feitas, de mil sonhos rasgados. Procurei em ti o eu que já não tenho em mim. Descobri em mim os destroços do teu ser, da tua alma agora fria e do teu pensar um dia quente.

Ontem estive a ver-te e a rever-te, em fotografias antigas e novas, em albuns queridos e rasgados. Vi-te no fundo do mar e sobre o céu que me percorre. Toquei-te o corpo, percorri os meus dedos pela tua pele, senti as rugas que te percorrem. Não sei quando te perdi, nem quando te encontrei, sei que ainda aqui estou à espera de te perder outra vez.


UMA IMAGEM...

...vale mais que mil palavras, sobretudo quando não temos tempo para nos debruçarmos sobre elas!

Ou ainda, quando precisamos - desnecessariamente - de esperar segundos ( ou minutos ), para se proceder ao download de 600 e tal comentários...

Ryuijie - Floating Boat, 1997

segunda-feira, fevereiro 23, 2004

QUANDO O CARNAVAL CHEGAR - CHICO BUARQUE


Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as penas de louça da moça que passa e não posso pegar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E que me ofende, humilhando, pisando, pensando
Que eu vou aturar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar

- Eu também me estava a guardar para quando o Carnaval chegasse...não fosse esta puta de gripe que me deixou afónico, e ter que trabalhar no dia em que metade do país fez ponte, até poderia neste preciso momento ( em que o meu sentido de responsabilidade, me apela a postar qualquer coisa...) estar no lado de lá...mas toda a gente sabe que eu hoje me fantasiei à mesma! Mas o Carnaval a sério há-de chegar...
- Cala-te ó palhaço!..
- Palhaço eu?? Anda cá cabrão, que já vais ver quem é o palhaço...Qual não levo a mal, qual quê? Eu nem gosto de Carnaval!

Tunkz, Tinkz...Tronx


Então não é que o cabrão me anda a foder o juízo? Ir para a puta que o pariu não lhe faria mal nenhum. Dava-lhe cá um estaladão que até andava de lado. Onde é que já se viu uma merda destas! Anda um gajo dez anos a trabalhar para depois lhe fazerem isto! Há gajos que não merecem nada! Ainda o mês passado lhe perguntei como estava e o panasca a dizer-me que lá ía andando, que a diabete o atormentava um pouco e que isto e aquilo e o caralho a sete. Estive aí uns 5 minutos a falar com ele, a dizer que as coisas se íam arranjar, que nem tudo era tão mau como parecia, e isto e aquilo e o outro...

Mas não. O cabrão tem a mania que é mais que os outros, que a ele ninguém lhe faz nada porque já esta velhinho e porque é doentinho e por mais não sei quantos inhos que vocês se lembrem. Depois dá nesta merda! E quem se fode, quem é? Sou eu, claro! Agora tenho que andar feito estúpido para a frente e para trás a tratar de papeis e mais papeis e tudo porque o velho resolveu armar um 31.

Eu bem o avisei. Não te preocupes! Nao é a primeira vez! Já aconteceu e tu nunca ligaste! Porquê essa fúria agora? E o cabrão do velho nada... Vai-se a ver e ele já tinha o esquema todo montado. Então ele não me podia ter dito logo!? Assim, eu estava prevenido e orientava logo as cenas (qualquer coisa do género comprar uma passagem aérea para o Benim. Sempre queria ver se alguém me conseguia contactar). Mas não! O filho de um regimento de bombeiros tinha que se fechar em copas! Pois está claro!!! Assim, como assim, eu só estou aqui para apanhar. Eu dizia-lhe! Era um par de estalos e uma apresentação formal ao Bibi a ver se ele aprendia a fazer as coisas.

Cabrão do velho! Agora era bem feito que ele se fodesse à grande e à francesa. Não há direito! Se ele queria matar a velha que me avisasse que eu até o ajudava (era logo denúncia à polícia que até fervia!). Deve ter sido da diabete! Atrapalhou-lhe o espirito de certezinha absoluta. Afinal, aquilo que lhe ocupava o frontispício já não era armação! Era árvore de natal digna de ganhar concursos internacionais! E, agora, vem com merdas que nao é corno manso!!! Eu não entendo. O velho ja não dava uma foda em condições há mais de 10 anos! A senhora minha mãe chegava a casa tarde e a más horas; o vizinho sabia, melhor do que eu, o que estava no frigorífico, não há hipótese nenhuma dele não saber o que se passava (sim, porque o velho era diabético mas, ainda, não era cego!).

Agora vou ter que ir a trinta mil repartições públicas, apanhar pela frente duzentos funcionários públicos - espécie rápida e trabalhadora como não há outra - e tudo porque o senhor doutor achou que matar a senhora minha mãe a tiros de caçadeira era uma boa ideia!


sexta-feira, fevereiro 20, 2004

HOJE É SEXTA-FEIRA E AMANHÃ É VÉSPERA DE DOMINGO GORDO!

E o que é que isso me interessa?... Nada, confesso. O Carnaval diz-me pouco. Não gosto desta imposição do calendário: agora têm três ou quatro dias para se divertirem muito e serem uns grandes malucos! Divirto-me quando quero e como quero e, no que toca a máscaras, já ando toda a semana mascarado de funcionário público.

Temos, portanto, que para mim este é um fim-de-semana à semelhança de outros. Tanto ou mais que 2ª feira tenho de trabalhar: qualquer sonho de ponte que eu alimentasse teve um fim à Hintze Ribeiro...

Ainda assim, é Carnaval. Uma época de folia e folguedo. Que vos poderia eu sugerir que não um mergulho de cabeça na euforia e na vertigem de máscaras e serpentinas e balões de água? Sim, o quê? Nada.

Daí que tenha optado por partilhar convosco uma canção melancólica, sofrida e algo neurótica. Hoje tenho a honra de dar a ler ao falante da língua de Antero e de Pascoaes um poema de Mark Eitzel. Esse mesmo, o dos American Music Club e da inconstante e fértil carreira a solo. Este "Western Sky" é uma canção brilhante, qualquer que seja a leitura: foi gravada com os AMC e foi revista o ano passado no álbum a solo The Ugly American de forma absolutamente genial. Será a banda sonora perfeita para Quarta-Feira de Cinzas, quando sobre vós tombará uma enorme ressaca e a consciência da Quaresma...

Western Sky



Time for me to go away
O prazo de validade disto já caducou, não é?
I'll get a new name, I'll get a new face
Quando passares por mim na rua não me vais ver nem me vais falar...
Time for me to go away
Eu sei que estas merdas não vêm com livro de reclamações.
No I don't belong in this place
E eu esqueço-me... eu consigo esquecer tudo o que não me apetece lembrar.

But I'm not gonna ask you why
Não vou perguntar-te o que é que se passou
You think the parade has passed you by
Sei tão bem como tu que o nosso Carnaval acabou
Or if everything good is gone into the western sky
O que houve de bom eu levo para o sítio - um qualquer - para onde vou

I hate to see you look that way
Pois... não te é difícil deixares-me transtornado nestes dias do fim
All the beauty has left your face
Talvez seja pedagógico ver a tua cara a sofrer com o peso das decisões
That's such an easy thing to give away
É muito mais fácil não te achar bonita, assim
That's impossible to replace
E já só guardo esta imagem de ti, sem lugar a substituições

So I'll take you in my two weekends
Vamos só passar os dois fins-de-semana à Quarteira porque já gastámos o dinheiro no time-sharing
And I'll throw you so high
E talvez te ensine mais uma coisa ou duas...
Watch you fall forever in the western sky
E no fim acenas-me, contra o céu algarvio... são mãos bonitas, as tuas
And when you land you'll turn into some kind of prize
Quando baixares o braço e ficares sozinha vais ser um troféu de caça para algum galifão que por ali ande
Into somebody's sweet prize
E eu vou armar-me em galifão para outro lado

I won't see you no more
Depois da Quarteira não te vou ver mais
Who am I to rate that high
Não vou fazer juízos sobre o que se passou - não vale a pena, não é?
The world's a shadow of what went before
Um dia os dias contigo ou sem ti vão-me parecer iguais
The world gives off none of its own light
'Inda faço como o irmão do outro e compro um cabriolé

So please be happy baby
Portanto, minha linda, desejo-te saúde e sorte.
And please don't cry
E de que é que te vale chorar, afinal?
Even though the parade has passed us by
Devias rir-te... é Carnaval!
Well you can still see it shining in the western sky
Sofrer já não faz parte dos padrões da civilização Ocidental.
So why won't you stop crying
Não chores... fica-te mal.
You can still see it shining
Lembra-te antes do pôr do sol na Praia do Carvalhal.

Mark Eitzel, The Ugly American

E que tal, hein? Uma tradução quase sem vernáculo, quase sem carga lúbrica, quase sem piadolas... Lá está: é Carnaval, nada parece mal! Bom fim-de-semana.



Eu queria escrever sobre a solidariedade

Ter as palavras certas para exprimir o que sinto acerca deste estado de espírito, ou será sentimento?
Conseguir descrever a comoção quando presencio a solidariedade de alguém.
Justificar com palavras, as lágrimas nos meus olhos quando sou cúmplice de um Ser solidário.
Perceber a motivação de quem se tira de cuidados e vai fazer alguma coisa por alguém que não conhece.
Dar tempo próprio a desconhecidos.
Despender serão, sofá e televisão.
Com desprendimento, dar sem receber.
Perceber esta via de sentido único.
Mais nobre que a amizade.
Mais honesta que a religião.
Anónima.

Pensando bem, eu queria era que alguém traduzisse o meu sentir, já que não o consigo exprimir.

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Raios partam a fome!!! Acordei a pensar no que ía fazer esta manhã e só me vinham à cabeça ideias tolas de encher a barriga. Lembrei-me de tudo, desde ovos estrelados com bacon, a quilos de batatas fritas a acompanhar um bom bife e muito feijão (daquelas coisas porreiras que aumentam o colesterol só de pensar). Levantei-me, apanhei a caneta e agradeci a insulina que me acalmou um pouco (também que triste ideia a idade trazer-me diabete).

Enquanto me lavava não conseguia tirar da cabeca a visão da comida e da gordura a pingar. Tudo isto me fez pensar que se calhar mais vale um enfarte de miocárdio do que esta vida. Não posso comer; beber, então, está fora de questão (se pusessem a glicémia num sítio que eu cá sei faziam um figurão); cada vez que acendo um cigarrito tenho a familia a olhar para mim como se eu estivesse a beijar o Bin Laden ao mesmo tempo que apalpava o Saddam. Meus caros, isto é imbecil! UM CIGARRO não me vai matar - é certo que os três macitos por dia são capazes de fazer a sua diferença, mas também que diabos um homem tem que viver! Agora experimentem lá pensar um pouco, o que acham da vida sem poder comer, sim, porque aquela dieta que me pespegam à frente todos os dias não pode, seguramente, ser qualificada como comida, afinal a comida tem sabor, cheiro, consistência... a isto juntem só poder beber água lisa, daquela que é mesmo boa para lavar pratos. Não posso fumar, não posso foder (a diabete e a idade tem destas coisas...), se me esqueço e ponho açucar, o pâncreas resolve lembrar-me que está ali, mesmo só, para ocupar espaço; e, para compôr o ramalhete não posso ir a lado nenhum sem a insulina. Estou como o meu filho quando era bébé, para me mexer tenho que ver se tenho tudo na malinha!

Tudo, para dizer que ontem passei num armeiro. Entrei, olhei, demoradamente, para as armas expostas, corri os dedos por elas, verifiquei a folga do gatilho de algumas, até que me considerei satisfeito com a minha escolha. Paguei a dita cuja, coloquei-a na caixa respectiva e levei-a comigo.

Entrei em casa, sentei-me na minha poltrona preferida, há anos que ela me apoia as dores, me escuta as mágoas. Estiquei as pernas e tirei a minha recente aquisição de dentro da caixa, passei os dedos pelo cano, carreguei-a, verifiquei uma e outra vez a folga do gatilho. A coronha tinha as dimensões perfeitas e o cano reluzia no lusco-fusco do fim de dia. Encostei o metal na cara e senti o frio perpassar-me a pele. Fechei os olhos e esperei um pouco... Passado algum tempo senti chaves na fechadura, entreabri os olhos, segurei a coronha com força e tirei a folga do gatilho por uma última vez.

O sangue saltou em rojo e espalhou-se no tapete, os olhos teimavam em querer lutar, ingloriamente, contra o peso das palpebras. A cabra estava estendida no chão, sempre quero ver como é que ela, agora, vai comer o vizinho. Sim, posso já não ter força, posso já não ter nada, mas CORNO MANSO NÃO SOU!!!




PORQUE NÃO?


É premente discutir coisas que têm discussão. Sobretudo quando não tenho nenhuma opinião concreta formada sobre o assunto em questão. Por mais que possa esmiuçar certos assuntos controversos, existe sempre aquela ponta de dúvida, que me faz pender para um “porque não?”...

Dá-me alguma intraquilidade, que não é necessariamente uma forma de insegurança, pensar que não tenho uma opinião...ou seja, se fizessem um referendo sobre determinado assunto, não gostaria de votar em branco, só porque não me tinha debruçado o suficiente sobre o tema. Não por desleixo, mas sobretudo pela quantidade de prós e contras, que se alternam e degladeiam, sem fim à vista.
Gosto de sentir o conforto de ser a favor, ou de ser contra...sobretudo, quando envolve causas do direito básico das pessoas, assente em princípios de justiça, mesmo quando globaliza os pequenos grupos. Sobretudo, dá-me até um certo gozo, opinar sobre essas questões, e transmitir com alguma confiança as minhas razões, mesmo quando essa minha opção é intrínseca a uma pequena minoria.
Resumo então que é quase impossível ( porque fico a pensar durante horas, até me convencer do “sim ou sopas” ) haver um tema da nossa sociedade, sobre o qual eu não penda para um dos lados da balança!

Um destes raros acontecimentos, é a questão premente e actual, da possibilidade de casais homossexuais poderem adoptar crianças.
Não me querendo ( sem hipótese ) alongar no assunto, deixo já claro que sou a favor dos direitos legais - enquanto casal - de todos os casais homossexuais, nomeadamente as “tretas” do casamento, crédito à habitação, etc. Digo tretas, porque para mim, o casamento não é assim tão importante, e todos os regulamentos vigentes são susceptíveis de poderem ser deturpados, em favor da conquista do fim a que se propôem. Mas, estes “pormenores” tornam-se por vezes o “cavalo de batalha” de algumas minorias, porque é a ferramenta de uma justificação de uma hipotética submissão a que eventualmente estarão sujeitos por parte de um estado vigente que não ( será? ) os acolhe, da mesma forma que acontece com as maiorias. Este oportunismo, quanto a mim é falicioso, e é alvo de crítica...aqui fica desde já a minha! Não gosto de os ver falar como “os coitadinhos”...

Posto este preâmbulo cabe-me aqui analisar os prós e os contras.
Começo pelos contras, e nos princípios básicos da criação. Alguém nasce com um Pai, e com uma Mãe ( poderão estar ausentes ou não, mas para a concepção foram necessários estes personagens ). Contestam então que, por esse motivo não deverão adoptar crianças aqueles que não têm estes requisitos mínimos.

“Não contam dois pais, nem contam duas mães.”

Ora, eu questiono...e os casais inférteis?Não têm igualmente esse poder de concepção...porquê então a possibilidade de adoptarem crianças? Pelo facto de ser um pai e uma mãe, ou seja, pelo assumir do papel de PAI e MÃE, individualmente?
Ponho o necessário rebatimento...é de facto estranho, forçar-se num casal de homossexuais, a que um dos membros faça o papel de pai ( no caso de um casal de lésbicas ) e noutro, um se proponha a fazer o papel de mãe ( obviamente no casal de gays ). É ridículo, e acho que por vezes, duas mães resultam melhor do que uma mãe e um pai...como o contrário também será possível.
O fundamento de existirem os dois, enquanto entidades separadas, para justificar uma opção de “contra”, leva-me a pensar no meu caso. Sou filho de pais divorciados desde muito novo...nunca senti, por capacidade natural da minha mãe, a falta de um pai no meu seio familiar. Nunca fui condenado, humilhado, prejudicado por esse motivo. A não ser, por parte daqueles que por natureza não o deveriam fazer.
Relato aqui a única altura que de facto me senti “tocado”. Estava em 1986, numa aula de Religião e Moral ( naquela altura em 30 alunos, éramos 28 nesta aula...ao contrário dos nossos dias...em 30, só dois é que frequentam...vá-se lá saber porquê! ). A certa altura a professora pergunta:
- Quem é que de vocês tem pais divorciados?
Só eu é que levantei o braço...resposta imediata:
- Deixa estar, filho, tu não tens culpa de teres uns pais assim!

Ora...eu nunca tive queixa nenhuma dos meus pais. Gosto deles como são, com as suas virtudes e defeitos!Mas não deixa de ser curioso que, a maior crítica ( ridícula, claro! Não fiquei minimanente afectado, mas passaram a ser só 27 inscritos...) viesse daqueles que, supostamente, o não deveriam fazer.

Tudo isto, para reflectir qual o papel da criança na sociedade, e qual a recepção que ele iria ter no seu contexto diário. Não tenho dúvidas que a maior discriminação será sempre feita por aqueles que, obcecados, fundamentam e regem a sua vida em princípios claramante desajustados. São desajustados, mas respeito-os. E isto é importante...o respeitar de uma criança, que seria ( eventualmente ) adoptada por casais homossexuais é fundamental para a continuação da verdade dos direitos das pessoas. Porque é uma criança...e porque ( ridículo, mas pronto... ) “ela não tem culpa de ter uns pais adoptivos assim”!

Uma mãe por vezes é melhor do que uma mãe e um pai!
Não ter pais por vezes é melhor do que os ter... por isso, muitas vezes algumas pessoas, a quem foi concedido essa “iluminária” de poderem conceber crianças, têm o discernimento de as “abandonar em caixotes de lixo”, ou de as “darem” ( gosto do termo “dar uma criança” ) para a adopção. Se o lar que as acolher for um lar saudável, onde haja o respeito e o equilíbrio, questiono-me....porque não então, se forem duas mulheres?Ou mesmo dois homens?

Aliás...estas duas mulheres, nasceram e foram educadas pelos ditos casais de heterossexuais, que os conceberam....logo, poderão facilmente dar a educação que os pais lhes transmitiram! Porque sem dúvida nenhuma, nem sempre são estes os resposáveis pela opção ( prefiro chamar natureza ) sexual dos seus filhos!
Coloco porém mais entraves a um casal de homens...mãe é mãe!
Mesmo um casal de mulheres, tem sempre lá no fundo, uma natureza especial. Tem o poder da concepção, da fertilidade...já o casal de homens, será mais difícil....mas mesmo neste caso pergunto...porque não?

Por fim, realço que o processo de adopção, rege-se por critérios muito rigorosos, e sobretudo, por uma avaliação real e concisa dos futuros pais adoptivos! Se o casal homossexual preencher os requisitos necessários, depois de várias avaliações, volto a perguntar...porque não?
Quanto a mim, esta questão irá sempre depender das pessoas em questão...tenham elas as opções sexuais que tiverem! Porque, em nenhuma altura me parece crível, que no questionário de adopção se encontre a questão:
- São homossexuais ou não?

quarta-feira, fevereiro 18, 2004

18 de Fevereiro de 1908



O meu avô nasceu há 96 anos. Foi uma terça-feira. Era o quarto de seis filhos que os meus bisavós geraram. Nasceu no concelho de Ferreira do Zêzere. E viveu lá até que pôde, se descontarmos o serviço militar. Hoje divide o tempo entre Ferreira do Zêzere e Tomar, que é como quem diz entre as casas do filho e da filha. A filha dele é a minha mãe. Pronto.

O meu avô - o único que conheci, o outro morreu novo, novo demais - faz hoje 96 anos. Tem dois filhos, quatro netos e três bisnetos. É viúvo. É pensionista. Tem um glaucoma. Quase não vê. Usa bengala. Tem o cabelo branco mas mesmo branco. Tem o nariz longo. Tem um riso inimitável. Tem um sentido de humor como poucos.

O meu avô chama-se Américo. Casou aos 27 anos - cedo demais, reconhece. Não terá sido sempre fiel, mas só a morte o separou da minha avó. Trabalhou no campo, agricultor de subsistência, imagem padronizada do minifúndio do Ribatejo Norte. Tem orgulho em que os meus pais não tenham vendido as terras que eram dele. E eu também.

O meu avô ensinou-me muito. Mais do que ele pensa. A paciência, a bonomia, a inutilidade de certas discussões, o poder apaziguador de uma piada ou de um outro tema de conversa. E outras coisas... Lembro-me de passear com ele em Tomar, tinha eu uns 15 anos, e de ele comentar sobre uma senhora que passava: "Hum... Deixa estar que esta também apanhava com seis pastéis de nata a ferver pela conaça adentro!". Tinha 83 ou 84 anos, na altura, mas ainda se "lembrava"...

Sempre gostou de mulheres. E de vinho. E das suas terras. Dos seus animais, ainda que se enfurecesse com facilidade com a teimosia da mula, a Carriça. De conversar. De inventar umas patranhas. De jogar às cartas. Nunca aprendeu a ler ou a escrever. Mas aprendeu outras coisas: sabia fazer poços, sabia levantar paredes e muros, sabia quando havia de semear e de colher. Serviu-lhe.

O meu avô faz hoje anos e está feliz. Falei com ele. Sente-se bem com a vida que teve e gosta ainda da vida que tem. Não tem "casos pendentes". Foi um bom pai, gerindo como podia a carestia. É um grande avô. Não percebe que raio de curso é que eu tirei - se não é médico nem advogado nem engenheiro é o quê?! - mas tranquiliza-se porque tenho um emprego. Gosta de mim. Gosta que lhe dêem atenção e que o ouçam e eu gosto de o ouvir. Gosta de rezar o terço. Não fuma, como dizia o anúncio.

96 anos. Ele costumava dizer: "Se chegar aos 70, faço uma festa!". E o mesmo valia para os 80 e depois para os 90. Sempre achou que morreria cedo. Bem feito. Ninguém o mandava achar fosse o que fosse a esse respeito. E nunca fez festa nenhuma. Nem é preciso. Basta que ele lá esteja. Que me agarre os braços para ver se estou gordo ou magro. Que fique feliz por achar que eu saio a ele nos pulsos magros. Que se vá rindo. E queixando da mínima beliscadura à sua saúde invejável. E que vá largando pérolas como "Duas mulheres juntas como é que gozam?... Aquilo de bater prato com prato não deve dar grande resultado..."


SÓ ESTOU À ESPERA DA VAGA DE FUNDO!



Sim. Eu compreendo a angústia nos rostos dos milhares de portuguesas e portugueses que comigo se cruzam na rua e me imploram: "Senhor Vareta! Pela sua saúdinha, candidate-se a Presidente! Os outros candidatos a candidatos só querem é rock!" Eu compreendo. Sim.

Será do elevadíssimo padrão moral que tem pautado o meu comportamento nestes quase 28 anos de vida? Será da mescla única de qualidades humanas e profissionais que me caracteriza? Será esta aliança ímpar entre beleza física e profundidade intelectual? Será da minha modéstia? Não o sei. Sinto, isso sim, que estou habilitado a responder aos anseios de uma larguíssima franja do eleitorado português que pretende ver como Chefe de Estado uma figura insígne, com uma reputação sem mácula, com um temperamento político equilibrado e, claro, com uma vareta que reforce o orgulho pátrio na singularidade do macho lusitano.

É assim natural que a populaça ígnara olhe à sua volta e se questione: "Quem, Senhor meu Deus, quem poderá tutelar os nossos destinos enquanto Estado-Nação?" (por populaça ígnara deve entender-se o conjunto de cidadãos votantes que não reside em Tomar nem na freguesia da Ajuda, pois esses já de há muito conhecem a resposta). Face ao panorama semi-árido da política portuguesa nestes tempos de encruzilhada, acho que é o meu dever enquanto cidadão responsável e modestamente consciente das qualidades que me fazem pairar por sobre as massas ululantes e iletradas, acho que é meu dever, repito, prestar-me ao sacrifício e avançar para Belém - no fundo, basta-me descer a Calçada da Ajuda...

As minhas intenções não são vãs. Reparem: ao contrário de 85% dos taxistas, eu não venho dizer: "Eu só queria era mandar nisto tudo durante 15 dias! 15 dias chegavam! Isto dava cá uma volta!..." NÃO. Eu quero "orientar" isto tudo durante 10-anos-10. O meu médico de família poderá facilmente garantir que tenho para tal as condições de saúde necessárias. Serei, se o eleitorado irracional e animalesco se deixar por uma vez iluminar, um garante de estabilidade, um Presidente um pouco à imagem da Vodafone: durante dez anos, onde quer que você esteja eu vou estar lá. E digo dez anos porque não duvido da reeleição. Nem poderia duvidar. Isso seria um pensamento ímpio e pecaminoso. Era o que mais faltava!! Havia de foder os cornos a cada um dos eleitores que me roubasse o sonho de estar reformado antes dos 40!!

Bom... Quer isto dizer que eu estou pronto para vos servir à frente do mais alto cargo da Nação. Conheço a máquina do Estado. Sou um bom filho. Nunca tive filiação partidária. Sei dizer uma ou outra palavra em estrangeiro. Fui delegado de turma uma vez no Secundário. Mastigo de boca fechada. Não tenho o Padre Melícias por confessor. Não existem dúvidas quanto ao meu estado civil. Não me chamo Valéria Vanini. Por tudo isto - que não é nada pouco, convenhamos - percebo que muitos olhem para mim como o melhor candidato a candidato. Eu também sinto o mesmo quando me vejo ao espelho.

Este é o meu primeiro passo. Se outros se seguirão ou não depende em exclusivo de vocês, cidadãos comuns, corja de chupistas. Se quereis um Presidente que vos respeite, suas alimárias, que vos encha de orgulho e de certeza no porvir, então deixai-me sabê-lo! Manifestem-se! Organizem jantares! Convidem-me para lançar a minha autobiografia política! Arranjem-me uma entrevista no Herman SIC! Comecem desde já a porfiar para que a Lei seja alterada e permita a candidatura de pessoas com menos de 35 anos! Não quero cair no maniqueísmo, mas se não o fizerem, em última instância perdem muito mais do que eu. Bem feito! Mariquinhas!

terça-feira, fevereiro 17, 2004

Passou um ano de vento, de frio, de sol. Passei as escadas e os cheiros e olhei para ti e para mim. Nao sei quando foi que me levantei, nao me lembro de me ter vestido. Passei os olhos e os dedos, lembrei-me dos teus labios, do teu corpo, senti o teu cheiro. Lembrei-me do meu mar, do teu ar, vi-te e revi-te no espelho da minha alma. Paguei o teu corpo e apaguei o teu sonho, virei-me de costas e senti o frio em mim. Toquei-te no cabelo e soprei-te no ouvido.

Lembro-me de te ver ainda com um sorriso, de te ter na minha mao, de me rir para o ar enquanto via a tua alma. Lembro-me do som dos teus passos, do vazio da tua ausencia. Esqueci-me das agruras, das tristezas, dos vazios (outros, que nao os da ausencia). Esqueci-me de ti e de mim.

Vi o sol, e as nuvens e tudo o que o tempo escondeu. Vi a chuva e toquei a neve, fiz um boneco (bem feio, ficou parecido contigo). Fitei o infinito e esqueci-me de mim...

Corri para ti, fugi de mim, fui para onde nao havia terra, nem cheiros, nem sal, nem vida. Fui para ti, para fugir daqui. Queria sentir o teu suor a escorrer no meu corpo e beijar o sal das tuas lagrimas (sim, minha puta, porque se ate hoje nao derramaste nem uma lagrima pela minha ausencia bem que podes mudar o nome para vaca insensivel).


* deixo-vos aqui uma mao cheia de acentos para os porem onde vos parecer melhor '`~^


Diálogos de Amizade, 8

- Já soubeste do Nélson?
- Sim. Já estava à espera.
- Eu bem o avisei. Largar o banco por aquela coisa da consultadoria externa, estava-se mesmo a ver.
- Essas coisas só dão quando um gajo tem muitos padrinhos. O gajo, convencido que era bom, vai de peito aberto e lixa-se, claro.
- Eu dei-lhe todo o apoio! Quando o gajo me falou nisso, eu disse: “Grande ideia, Nélson. Vai em frente, tu és capaz!”. O tipo estava com aquelas dúvidas da treta, de não ser capaz de se lançar sozinho, de ser um passo maior que a perna...
- Eu falei-lhe da carteira de clientes. O gajo estava receoso que não chegassem, que ainda era cedo e o caralho, mas eu disse-lhe que não fosse cobarde e se atirasse. Se não fosse agora, que é novo, ia ser quando? Com 50 anos?
- Bem, a verdade é que eu nunca lhe reconheci uma capacidade por aí além, mas sabes como é...
- Claro, pá. Eu também vi logo que o gajo se ia lixar se não tivesse clientes, mas nós somos amigos dele, temos que lhe dar força.
- Encontrei o pai dele ontem. Diz que o gajo está na merda, teve que vender a casa.
- Já soube. Telefonaste-lhe?
- Eu, não, e tu?
- Também não, mas o gajo sabe os nossos números.
- É... ele sabe que somos amigos e estamos aqui para o que for preciso.

segunda-feira, fevereiro 16, 2004

Portugal, é o país ...– 4

...com mais presos da União Europeia! Curioso ou não, é o facto do nosso país possuir a menor taxa de criminalidade, mas estranhamente, ter o maior índice de criminosos por habitante ( 132 presos por 100.000 habitantes )! Números...enfim!

Portugal tem igualmente a maior taxa de sobrelotação da União, mas só está 15% acima ( 120% ) da média Europeia. Ou seja...todas as cadeias estão sobrelotadas na Europa ( ao menos valha-nos isso! ).

Como já é amplamente conhecido e noticiado, tem havido um aumento da população criminal, e simultaneamente, um crescimento dos presos preventivos ( aliás o Marcelo Rebelo de Sousa noticiou ontem, uma directiva do Governo Francês* que pretende um alargamento do prazo dessa mesma “estadia” preventiva...que, vai no sentido oposto às propostas que este relatório, realizado por Freitas do Amaral, sugere..enfim, há coisas que nunca vou perceber! ). Há 4.000 presos preventivos neste momento – 1 em cada 3 presos, são presos preventivos!

Por fim, elucida que 60% dos actuais presos, estão condenados por crimes ditos menores, como são os relativos a estupefacientes. Conclui que, só em anos de Amnistia, é que houve redução deste número de criminosos nos estabelecimentos prisionais portugueses!

Ora, para dar estes dados concretos baseei-me em pesquisa...mas pela manhã, quando me dirigia ao escritório, ouvi a actual Ministra da justiça – Celeste Cardona – no Fórum TSF, dizer basicamente que ( relativo à proposta de redução de penas como forma de diminuir o número de presos ) se congratulava com esta opção, “(...)pois não iria ser necessária uma amnistia...medida que o governo nunca iria adoptar!”
Redução de pena e amnistia...estão a perceber?É bonito como o Português tem destas coisas...

Existe uma outra recomendação, que já está aliás em vigor ( que estranhamente,tal como os genéricos, não é implementada pelos juízes ), que é a do trabalho comunitário efectuado pelos presos, em oposição à estadia nas prisões. Parece aqui haver um reforço desta ideia...falta perceber o porquê da não adopção desta medida, que me parece francamente óbvia ( talvez hajam aqui umas viagens pelo meio, vamos esperar...)!
Por fim, e entre muitas outras medidas que dizem respeito ao humanizar das relações com os presos...prevê-se a construção de 6 novas cadeias, e o melhoramento de 20 actuais construções.

Ora, eu que ainda não tive acesso ao estudo proponho, não a nossa ida a Marte porque já me deixei disso, mas antes, o envio dos presos para Marte! Pensem nisto:

- O que é que há para roubar, matar, violar, despedaçar, pedofilar, partir... em Marte? Com excepção de 1 ou 2 robots da Nasa...nada! Nem água...
- Os presos poderiam andar livremente por todo o planeta! Era um novo conceito de Loft-OpenSpace-Prisional. Estou a pensar inclusive em criar uma patente...
- Não necessitávamos de novas prisões ( a não ser que me dessem os projectos... ), e só precisávamos de melhorar duas ou três. Isto permitia a poupança de uma grande fatia do orçamento, e investir na Conquista de Jupíter ( porque se prevê um aumento brutal do crime em Portugal, por causa destas condições idílicas de Marte ), prevendo o envio gradual de novos prisioneiros para este Planeta! Este é que tem água...concerteza!
- Assistiríamos à criação de um Mad-Max em Marte, que quanto a mim seria muito mais sugestivo e interessante do que Bases ordenadas, limpas e sólidas!
- Colocaríamos à mesma ( uma das medidas do relatório ) pulseiras nos presos, e controlaríamos ( com um maior alcance ) o local onde se encontrassem! Se por exemplo desparecessem dos radares de Marte, ficaríamos com a certeza de que haveria vida noutros planetas, e os presos Portugueses tinham ido de boleia para outro planeta mais aprazível. Pensem só, o que era seguirmos o Bip-Bip dessas pulseiras...Seria fácil encontrar finalmente os homens verdes, através do isco dos presos portugueses.
- Por fim, só deixaria cá alguns criminosos mais importantes e conhecidos, como forma de conferirem a identidade ao nosso país!

Isto é ou não a principal recomendação deste relatório:
“reduzir o número de presos e humanizar e dignificar as condições de vida nas cadeias”?

Bora lá mandar os presos para Marte!

*Pensava que era Português mas, como estava a jantar não ouvi tudo...aliás, ainda estava com os ouvidos a zunir de tanto gritar: gooooooooooooolo! Se a tt diz que é Francês...é porque é francês!E pronto!

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

SEXTA-FEIRA, 13, VÉSPERA DE SÁBADO, 14 - E TUDO ISTO SE PASSA EM FEVEREIRO...

Quem foi São Valentim? Não sei. Nem tão pouco me interessa. Ao que parece o dia 14 de Fevereiro é-lhe votado e é suposto os namorados namorarem e gastarem dinheiro. O português, amigo do folguedo, depressa agarrou com as duas mãos mais uma festa propícia ao convívio íntimo. E lá estão as lojas cheias de ursinhos, flores, postais e caixas de chocolates - e não são só as lojas que ficam perto dos hospitais. Tanto melhor. É preciso é que o dinheiro circule.

Em que pérola da lírica pop contemporânea poderia eu, então, pegar na véspera de tão peculiar festividade? Pensei, por estranho que pareça, pensei bastante e lá encontrei a resposta num dos melhores álbuns da safra de 1981: The Lexicon of Love, dos ABC. Foi nesse conjunto de cantigas que o platinado Martin Fry se deu ao trabalho de escrever uma "coisa" chamada Valentine's Day, passando-me inconscientemente a responsabilidade de a traduzir, tornando-a clara e perceptível aos olhos dos milhões de cidadãos lusófonos que nos visitam.

Aqui fica, assim, a sugestão de fim-de-semana: cuidado com a sexta-feira 13, não vos vá acontecer ficar com o mesmo ar caramelizado destes pombinhos.



VALENTINE'S DAY

When the postman don't call on Valentine's day
Amanhã é Sábado e não há distribuição de correio
And Santa Claus don't come on a Christmas Day
E o Natal também calha ao Sábado, este ano
That umbrella won't work on a rainy day
O mês de Fevereiro vai seco... vamos ter água no Verão
Don't ask me, I already know
E os "americanos" dizem que Setembro vai ser muito quente

When they find you beached on the barrier reef
A barreira de coral é um ecossistema muito frágil
And the only pleasure treasured is in map relief
Os novos SIG's - Sistemas de informação Geográfica - são muito úteis para as revisões dos Planos Directores Municipais
The choice is yours, sure, saint or thief
A RTP vai estrear um concurso novo chamado "Um Contra Todos"
Don't ask me I already know
O Prof. Marcelo não gosta que lhe perguntem se vai ser cabeça de lista às Europeias ou Comissário

When they baked your cake in little slices
O meu fogão tem o forno avariado
Kept your eyes on rising prices
E até estou a tremer só de pensar no próximo aumento da bandeirada nos táxis
Wound up winning booby prizes
Será que a Cinha Jardim também fez plástica ao seios?
I'm sure you'd like to think you know what life is
A minha avózinha que Deus tem até se havia de benzer se visse como isto anda...

Find destiny through magazines
Foi uma pena acabarem com a Ana + Atrevida
Liplicking, unzipping Harpers and Queens
Não gosto dos bares das Docas - muito menos do Queens
From here to eternity Without in-betweens
Quem cantava o "From here to eternity" era o Engelbert Humperdinck
Don't ask me, I already know
Eu sei porque eu tenho o disco

With your heart on parade and your heart on parole
Esta coisa das pulseiras electrónicas de vigilância anda muito popular
I hope you find a sucker to buy that mink stole
A Sofia Aparício faz campanhas contra o uso de peles verdadeiras no vestuário
School for scandal
Os resultados das provas de aferição foram um escândalo
Guess who's enrolled?
E lá vai o Prof. Sousa Franco para Deputado Europeu, hein?
So ask me, I already know
Já há muito tempo que não aparece na televisão o astrólogo Paulo Cardoso... esse é que sabia tudo

When they find you beached on the barrier reef
Mas agora pondo de lado a conversa de merda
When the postman don't call on Valentine's Day
Tu até és gira, pá, podíamos ir sair
When the only pleasure treasured is in map relief
Eu até comprei o Guia do Lazer, do Público
When you don't tell the truth, that's the price you pay
Íamos jantar assim a um sítio porreiro sem ser muito caro
When I'm shaking a hand, I'm clenching a fist
Depois dávamos as mãos e passeávamos um bocadinho
If you gave me a pound for the moments I missed
Se eu te parecer ausente é dos comprimidos que ando a tomar
And I got dancing lessons for all the lips I shoulda kissed
Só não me arrastas é para o Salsa Latina ou para os Alunos d'Apolo
I'd be a millionaire
Se eu fosse mais rico alugávamos uma suite no Carlton
I'd be a Fred Astaire
Mas qualquer cama serve para eu dançar em cima de ti como o Fred Astaire

ABC, The Lexicon of Love


quinta-feira, fevereiro 12, 2004

RAZÃO TINHA O GENET PARA DESCONFIAR DOS EMBARCADIÇOS...



Catano! O gajo é um animal de hábitos, certo? O gajo, como qualquer mamífero do sexo masculino, marca o seu território de uma forma ou de outra, verdade? O gajo que é gajo é fiel nos seus padrões de consumo e em tudo aquilo em que a líbido não interfira, correcto? Assim sendo, só me resta expelir um sonoro "Ora foda-se!" e explicar porquê.

Cheguei do almoço, tranquilo, cheio de sangue no estômago e com uma medida correcta de flatulência. Sentei-me pesadamente em frente ao computador e pensei, de mim para comigo já que mais ninguém aqui estava: "Ó Vareta, 'bora lá espreitar a Tasca da Cultura a ver o que aquele velho safardana d'O Bom Selvagem nos arranjou para hoje". Se bem pensei, melhor o fiz. Esperei, pacientemente, que a página se vestisse e apanho com esta mensagem nas ventas: "O Bom Selvagem vai embarcar numa aventura. Voltará em breve. Melhor do que nunca."

Cheirou-me a esturro. Pior ainda quando vi que o primeiro post de hoje naquela baiuca se chamava "Fim do Primeiro Acto". E o "Ora foda-se!" formou-se-me no espírito quando li:

"A Tasca encerra as suas portas por um tempo mas volta.
Vou aparecendo de forma intermitente mas apenas para vos garantir que estou ainda estou alive and kicking, e responderei às cartas como de costume.
É que estou velhote e não me resta muito tempo, é normal, a vida é mesmo assim.
Há uma coisa que preciso de fazer antes de esticar o pernil e por acaso vou trabalhar para vocês todos, mas em reclusão e isolamento."

Catano! E agora?! Toma-se uma decisão destas sem pensar nos efeitos colaterais que ela provoca na rotina diária de milhões de portugueses?! Condena-se assim à participação no "Olá Portugal!" uma franja considerável da população nacional com mais de 65 anos?! Somos forçados a trocar O Bom Selvagem pelo Carlos Ribeiro?!

A Tasca da Cultura é, salvo melhor opinião, um dos 4 ou 5 melhores blogs nacionais - sim, que só a modéstia me impede de escrever que é, ao lado deste Porquinho, o melhor blog nacional. Lê-lo é, para mim, um hábito diário, uma coisa tão enraízada como trocar de roupa interior. É subsersivo. É corrosivo. É um antibiótico de largo espectro. É tresloucado. É genial. Numa palavra: é um clássico! E a mim, quem me tira os clássicos...

E pumba! Catano! Agora ameaçam tirar-me mesmo um clássico, durante uns tempos! O apelo da maresia ou o onírico canto de alguma sereia melíflua levam a que O Bom Selvagem embarque... Humpf! Eu até podia, se quisesse, até podia encher páginas e páginas de piadas chocarreiras sobre marinheiros e os seus peculiares hábitos sexuais. Eu até podia lembrar que a doidivanas da Tonicha cantava uma cantiga sobre marinheiros. Eu até podia apresentar estatísticas sobre naufrágios. Mas não me apetece.

Apenas fico à espera que as portas da Tasca reabram em breve, alimentado por duas certezas: a de que a espera será compensadora e a de que a blogoesfera não se pode dar ao luxo de passar muito tempo sem um autor do calibre d'O Bom Selvagem.

Ora foda-se!


Alambridatia, 7

- Desculpe...
- Sim?
- Não me contive, e tive que vir falar-lhe.
Ela sorriu um sorriso levemente amargo e cansado.
- Vê? É esse mistério. Esse sorriso delicioso e radiante, essa indefinível sombra que lhe vela o rosto...
- Não há nada a esconder, garanto-lhe.
- Mas claro que há! É todo o mistério da condição feminina que eu vejo nesse sorriso, nesse porte orgulhoso e impecavelmente devastador de mulher que sabe a impressão que causa, na volúpia ousadamente sugerida pela sua roupa.
- Tu és um galanteador...
- Por favor, não reduzas a importância que tens. Quero conhecer o que te tolhe a fruição de toda essa generosidade física. Quero perceber porque não reinas tu sobre todo o espaço que iluminas.
- E então, que sugeres?
- Deixa-me estar aqui contigo. Vamos falar um dia inteiro, vamos deixar escapar sinais da nossa humanidade, vamos tocar nas nossas almas.
- Um dia inteiro? Tás louco? Meia horita e já gozas. 150 Euros, mais o quarto e só com preservativo. E nem penses em vir pra cá com porcarias.

quarta-feira, fevereiro 11, 2004

SER NINGUÉM

Ando de facto, meio alucinado com esta história de os governos, de vez em quando, se lembrarem de votarem ( por mim ) situações demasiado importantes, para a capacidade mental e social que algumas cabeças só por si podem suportar.

Uma recente ( que felizmente o nosso Governo ainda não se lembrou ) foi a votação do Parlamento Francês, sobre a proibição de se usarem símbolos religiosos nas escolas públicas francesas. Ora, não querendo meter a foice em seara alheia, não me posso deixar de me indignar...”MAS O QUE É ESTA MERDA?”

Fui há uns anos atrás a Paris...guardo na memória a emoção da subida à Torre Eiffel, a visita aos Campos Elísios ( traduzindo!), algumas obras do Corbusier e...sobretudo lembro-me da pluralidade de culturas que pontificam o quotidiano da vida parisiense. Numa célebre ida ao metro, assisti à maior concentração de raças, tradições e culturas de que me lembro ver por metro quadrado. Recordo com agrado, que a violência do metro parisiense, é inexistente comparada com algumas linhas de Sintra que temos por cá...nem, mesmo o facto das pessoas andarem encostadas às paredes dos túneis ( com receio de serem empurradas, tal é a multidão! ) me intimidou.

Puxando da minha memória algumas palavras francesas, que me recordo ver escritas no metro, lembro-me logo destas:
“Egalité” “Liberté” e “Fraternité”

São os princípios, ou antes...eram o princípios básicos vigentes na sociedade francesa há uns bons anos atrás. Colocados agora de lado, porque se lembraram disto...
A cobardia de uma atitude mais franca e prepotente por parte do Governo Francês ( que poderia criar nalguns – muitos – grupos da sociedade francesa, analogias com o espírito de Le Pen ) que se assume numa proibição de crianças usarem por exemplo o véu ( na religião muçulmana ), só pode trazer subjacente um desencorajamento à entrada deste povo neste país, ou mesmo, como fim último, à saída dos que ali já se encontram...e que são franceses ( apesar de regerem as suas vidas sobre os princípios muçulmanos! ).

Sabem perfeitamente que os muçulmanos ( e falo destes como exemplo ), não possuem dinheiro para pagar uma escola privada...sabem perfeitamente que não vão deixar de fazer as suas orações, nem deixar de usar véu ( apesar das limitações )...sabem perfeitamente que, ou reagem de uma forma extremista ( perdendo assim a razão que de facto possuem ) ou embarcam para outros destinos.
O mais deprimente disto tudo, é não terem tido a coragem de proibirem a entrada de muçulmanos e outras raças no próprio país, e de expulsarem as que não se enquadram no “perfil” adoptado como modelo da sociedade francesa. Questiono só o que acontecerá ao Zidane, se por exemplo ao marcar um golo pela selecção francesa, mostrar uma camisola com qualquer escrito muçulmano ( sim...ele era Argelino antes de ser um ícon da França )?

Mostro aqui, esta conhecida foto tirada há uns anos por Steve McCurry...


...como experiência decidi alterá-la, e inserir-lhe os modelos que o Governo pretende adoptar.

Como hipótese deixo aqui, em vez dos trajes e das vestes muçulmanas que se pretendem proibir, um desenho de algumas camisolas que o Governo aceitará de bom grado, e que não são proibídas nas escolas públicas francesas..porque de facto, não têm menções religiosas.

Por fim, fiquei boquiaberto com o comentário de uma cidadã francesa, entrevistada na rua, que proferiu algo como isto:

- E se nós fôssemos aos países deles...poderíamos usar uma mini-saia?
Concluo que não estranho ( como já ouvi referenciar ) a subida percentual nas próximas legislativas do partido de Le Pen...com analogias assim, e com um aparente carácter de “É óbvio que não!” a uma pergunta destas...só poderei mesmo achar que as mini-saias é que estão na moda!


terça-feira, fevereiro 10, 2004

MAIS CEDO



Hoje cheguei mais cedo do que esperava. Quero dizer: ontem fui a um sítio do qual só devia voltar amanhã mas vai-se a ver e voltei hoje. Mais cedo, portanto, do que esperava. O que de certa forma me espanta é que não sei o que hei-de fazer a este carácter inesperado do meu regresso porque ninguém me esperava.

Quero dizer: ninguém me esperava, salvo seja. Dois dias ou três não eram motivo para qualquer Penélope se pôr a tecer mantas para o seu Ulisses. As pessoas contavam com o meu regresso amanhã e planificaram as suas vidas como se eu não existisse neste intermezzo. E quem sou eu para lhes levar a mal tal atitude? Já antes de mim Garrett o escreveu: "Ninguém!". Pois é. Mas mesmo assim não sei o que fazer com este regresso inesperado.

Quero dizer: "não sei o que fazer" é uma expressão exagerada. Não sei como o partilhar sem forçar este incidente temporal aos planos alheios, isso sim. Isso é bem dito. Bem dito, salvo seja: a minha modéstia impede-me de tecer considerações de valor sobre o que digo ou escrevo ou faço. Só que tenho um regresso inesperado nas mãos e sinto-o condenado a ser apreciado apenas a posteriori. Se telefonar a alguns amigos e disser que já estou "cá", o que quer que "cá" seja, o mais provável é que achem inesperado o facto de não ter estado, o que equivaleria a tomar um antibiótico com meia garrafa de gin. Se telefonar a alguém de família, ficarão tranquilos por me saber "cá" mas "cá" é onde eles não estão e teríamos um regresso inesperado desperdiçado em rede de satélite e anulado pela frase "tanto melhor". Se aproveitar para sair com quem não sabia que eu tinha partido antes deste regresso, será um exercício de onanismo mental porque não poderei partilhar o adjectivo que me martela a moleirinha: inesperado.

Quero dizer: hoje voltei mais cedo, o que - tudo leva a crer - só para mim constitui, de momento, algo de inesperado. Seria preciso que outros acasos se somassem ao acaso do meu regresso antecipado para que este se tornasse inesperado para outros. Como eu não sou o Paul Auster, tenho as minhas dúvidas que tal venha a suceder. Dúvidas, salvo seja, que duvidar do acaso não me parece avisado. Resigno-me e conformo-me, como qualquer fadista de Alfama, perante as probabilidades mais cinzentas e bisonhas.

Quero dizer: ante a falta de vontade de voltar a partir para chegar um pouco mais tarde se bem que mais cedo do que o previsto, repetindo o inesperado, deixo aqui lavrado em acto público que voltei hoje quando só me esperavam amanhã. Assim, quando quem me esperava ler isto poderá pensar coisas como "Ai o cabrão já cá estava e não disse nada!" à sua inteira vontade que me sentirei perfeitamente escudado.

P.S. - Nunca estive em Oklahoma, mas como voltei pela auto-estrada...

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Reflexões de fim-de-semana, ou de como a incriatividade pode ganhar forma escrita

Do paradoxo da justiça:

Porque é que tantas coisas certas acabam por dar errado?

Dos atrasos na gestão do Porco:

Ultimamente tenho assistido a um proliferar de belogues que, simpatica e algo despropositadamente, nos lincam. Longe de estar(mos) a ser snobs, estamos demasiado ocupados com coisas vãs (trabalho, família, etc.) para Vos acrescentar à coluna do lado, onde vocês merecem. Não temam, que o Vosso dia chegará.

Das razões escondidas deste poste:

...a menos má será acabar com este despautério de comentários acumulados. Isto não é o Pipi para ter centos de disparates apensos às pérolas de intelectualidade que nós oferecemos. Como se pode ver, não enfermo da modéstia terminal que apoquenta o Vareta lui même.

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

E VAI-SE A VER E É SEXTA-FEIRA OUTRA VEZ...

E ontem foi quinta. E eu fui ver os Mogwai, ali à Garagem do Paraíso. Belo concerto, em verdade vos digo. Grande exercício o de domar a electricidade mais pura de acordo com padrões de beleza inquestionáveis. Gostei tanto ou tão pouco que hoje, na já costumeira tradução, NÃO os vou homenagear. Pelo contrário. Os homenageados, quando comparados com os escoceses Mogwai, encarnam o espírito "and now for something completely different" - que é como quem diz, em estrangeiro, que não se deve confundir o olho do cu com a Feira de Beja.

Hoje a escolha recai nuns suecos. Serão os ABBA? Não. Os Cardigans? Também não. Os Whale? Os Wannadies? Os Kent? Não, não e não. Quem são então?, perguntam vocês, meio desconfiados. E eu, benemérito, respondo: são os EGGSTONE. Parece-me que ouço algumas vozes descrentes: "Os quem?!", "Egg-quê?!" ou mesmo "Lá vem ele outra vez armado ao pingarelho falar de coisas que pouca gente conhece só para passar por intelectual de meia-cultura... Mete mas é o ovo no cu!". Sim, ouço essas vozes e apiedo-me delas. E relembro as Escrituras: "Bem aventurados são os pobres de espírito..."

Per Sunding, Patrik Bartosch e Maurits Carlsson juntaram-se em 1986 para formar os Eggstone e desde esse ano têm feito algumas das melhores canções pop não só da invernia nórdica mas de todo o continente europeu. A escolha de hoje é uma canção de amor esquizóide e bizarra, um poema que parece uma composição de escola primária até que o último verso do refrão a transforma na mais bela história sobre gajas e elementos. E é com esta sugestão - a de que vos laveis - que vos ofereço em português de Portugal mais um pérola da lírica pop contemporânea.

WATER



water is good for your health
A tarifa da EPAL até é baixinha - faz parte do índice de preços que determina a inflacção...
water is good for your body
Mas, por mais que tome banho em casa, sinto-me melhor no Vimeiro.
and you can drink it with lime and with lemon
Aquelas "águas santas" têm um gosto esquisito...
or drink it pure
O que vale mesmo a pena são os banhos de agulheta.


water can turn into snow
Durante anos bebi água da Fonte da Asseiceira.
water can turn into icecubes
Mesmo sabendo que funcionavam dois aviários ali bem perto.
and in the air that you breath there is water
Cheirava mal quando eles queimavam as carcaças das galinhas doentes.
that might turn into fog
Mas a água era boa... era mesmo! Garanto-vos!

water can be found in waterfalls
Nunca visitei nenhuma cascata,
water can be found in tennisballs
Mas já apanhei com uma bola de ténis nas fuças.
water can be found in orchids
Não tenho plantas em casa,
water can be found in you
Mas antes de fazerem obras no telhado entrava um fiozinho de água pela parede do quarto.
in your lips
Felizmente não te importavas com a humidade.

water contains lots of salt
Das Salinas de Rio Maior extrai-se sal-gema.
water contains lots of minerals
Nas Minas da Panasqueira suspenderam a extracção de minério...
and it can be boiling or freezing or sparkling
Não percebo o gozo da água Frize: ou se bebe 7Up ou Água das Pedras!
or just be floating around
E depois aquela merda dá-me gases...

with water you can make tea
O chá de coca é outra fraude - aquilo não dá moca nenhuma!
and with water you can make coffee
Mas admito que bebo café em excesso - isso fará de mim um drogado?
and if you're drinking a bottle of red wine
Se ao menos pudesse beber um copinho no local de trabalho...
it's mostly water
Mas só me dão café... e águinha da torneira.

water takes you around the world
De todos os sítios do mundo, a água da torneira em Lisboa logo havia de vir do Castelo de Bode, bem pertinho de Tomar...
water even can be heard
É como se ouvisse a voz do sangue a chamar por mim...
water is in every word
"Vareta", diz a voz, "filho, já começaram a construir o novo Pavilhão Gimnodesportivo!"
water is in lemon curd
Depois fervo a água com uma casquinha de limão
and in every bird
E a "voz do sangue" aclareia a minha voz de rouxinol...

water can be found in waterfalls
Sim, sou um pacóvio que nunca foi a uma cascata
water can be found in tennisballs
Sim, roubava bolas de ténis que se perdiam junto ao Rio Nabão
water can be found in orchids
Mas nunca roubei orquídeas!
water can be found in you
As que te ofereci paguei-as do meu bolso... e bem me custou! Fazes ideia do preço a que estão as orquídeas?!
in your lips
Vê lá se ao menos as pões em água...

Eggstone, The Spanish Slalom

E é isto. Bom fim-de-semana.



LIFE by Bruno Bozzetto, argument by Mimosa

Sou portador, no meu cérebro, de uma teoria sobre o mundo, e de como é que ele foi criado.

Esqueçamos por momentos a personagem Deus.
Coloquem de lado todas as teorias religiosas, ciêntíficas, teológicas, filosóficas, etc sobre o tema.
Imaginemos o mundo, como ele é...composto de imperfeições, guerras, desequilíbrios, desigualdades, catástrofes, desordem...e sobretudo, controlado e coabitado por um elemento fundamental: o homem.
Passando isto tudo num espremedor, filtrando todos estes reagentes, e criando uma solução dissolúvel de todos estes elementos, temos o planeta terra. Ou seja...

Creio ( gosto de me mentalizar disto ) que o nosso mundo, é o fruto de uma experiência de alguém, que ainda não encontrou a solução final, e que, servindo-se das cobaias que são os seres humanos, o vai modificando, na tentativa de chegar a algo, que não tem necessariamente que ser...perfeito. Ora...eu penso que esse alguém, é igualmente um “produto” inacabado de uma outra experiência de outro alguém..e por aí fora ( teoria sobre o universo infinito ). Fica para outra vez!

Debrucei-me muito superficialmente sobre este tema ( a propósito de um outro assunto) logo num dos primeiros posts ( numa bela Quarta-feira, Setembro 17 de 2003) aqui do porco ( que recomendo, quando tiverem tempo, a revisitar ), através de um desenho, que pretendia reportar já naquela altura, as teorias que venho tentando provar inequivocamente...sem porém, ter chegado a lugar nenhum, porque as teorias religiosas, ciêntíficas, teológicas, filosóficas são muito mais consubstanciadas do que as minhas aparentes suposições.

O curioso disto tudo, é que, o Bruno Bozzetto ( ajustem o volume de som...), sendo igualmente uma pessoa inteligente, passou brilhantemente ( em meia dúzia de segundos ) para uma animação uma teoria muito semelhante...que aliás, é partilhada por outro ser ( igualmente sobredotado...sim, porque isto é para pessoas que já estão muito além ) que foi o realizador do filme “MIB”*, em que mesmo no final, dois monstros jogam ao berlinde...sendo um deles o planeta terra. No final, armazenam todos os berlindes ( os vários planetas ) num só cesto ( o universo ). Concluí nestes 5 últimos segundos do filme, que afinal, tinha valido a pena o dinheiro do bilhete...

Foi bom sentir que não estou sozinho, e sobretudo, que não sou o único louco a pensar assim...ou antes, que já somos três lunáticos a sugerir que o Universo poderá ser desta forma...aliás, o facto de um dia alguém ter dito que a terra era redonda, também foi considerado como parte de uma loucura...vamos ver, vamos ver!...o tempo o dirá...e o tempo é sempre o melhor conselheiro!

*Esta alteração, deveu-se ao brilhante apontamento e correcção do senhor Menir...grande fã da sequela "MIB". Desde já, deixo aqui os meus sinceros agradecimentos!


quinta-feira, fevereiro 05, 2004

Diálogos de amizade, 7

- Não sei que hei-de fazer, pá.
- Realmente, é muito chato...
- É o colégio dos putos, é o piano da Sofia, é o karaté do Afonso... não dá pra tudo. Vou ter que os tirar.
- Tu não faças isso!
- Que é que tu queres? Já se sabe como é, ao fim do terceiro contrato puseram a Joana na rua. E agora, arranjar emprego é impossível. Sobretudo para uma mulher da idade dela, com filhos.
- Está bem, mas não podes hipotecar o futuro dos miúdos. A escola oficial, além de ser um perigo, está cheia de professores armados em funcionários públicos, que só querem receber o deles no fim do mês. Os bons professores estão na privada.
- Não será bem assim...
- Claro que é! Tu ouves queixas em relação às privadas?
- Não, mas isso não quer dizer que as públicas sejam todas más.
- Claro que são, pá! Tudo do pior. E também não podes deixar para trás a componente extra-curricular da formação deles. É importantíssimo que os mantenhas nessas merdas da música e do karaté.
- E o dinheiro, vou buscá-lo onde? Sou só eu a ganhar, pá...
- Eh, pá, isso já não sei... não tens nada que possas vender?
- Só se fosse o carro. Podia comprar um utilitário em 2ª mão. Mas até para vender carros está difícil...
- Eu ajudo-te, pá. Fico-te com o carro.
- A sério?
- Sério. Dou-te 15.000 Euros por ele.
- 15.000??? Mas tu estás doido? O carro está praticamente novo, tem 6 meses! Vale, pelo menos, 20.000 Euros! Isso é proposta que se faça a um amigo?
- Pá... tu é que disseste que está difícil vender... e os amigos são para as ocasiões.

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

QUANDO EU FOR GRANDE...

"Sou obcecada por caras de pessoas. Nunca consigo tirar suficientes"- Judy Dater

Para além da notável qualidade da fotografia, e do momento único da sua captura, encontram-se outros motivos de reflexão de igual beleza: a relação entre a velhice e a juventude, da rudeza e da pureza, do vestido e do nú, e da própria natureza do tema: o preconceito da velhice ( e a implícita nudez ).

Confesso que a velhice me amedronta...não o ser velho em si, mas o facto de me encontrar dependente, a todos os níveis, de uma suposta juventude...quanto mais não seja, do meu passado! Gostava de chegar a velho ( pode ser daqueles dementes, tarados, loucos, etc )... mas somente se tiver capacidade para, também eu, continuar a coleccionar fotos, imagens ... e caras!

terça-feira, fevereiro 03, 2004

CONTAGEM DECRESCENTE



A verdade é esta: gosto dos Festivais Eurovisão da Canção. Mais do que gostar, vibro intensamente com cada edição. A 15 de Maio, lá teremos uma serigaita qualquer na Turquia a reconhecer que realmente Foi (por pura) Magia que ganhou o direito ao título de Embaixadora da Canção Portuguesa 2004. Como é dois dias depois do 13 de Maio, pode ser que uns ventos miraculosos da Cova da Iria a ajudem a conseguir um bom resultado. Mas isso não interessa, por agora.

O que quero partilhar com vocês é um sonho que acalento desde criança: representar Portugal na Eurovisão. Já pensei em tudo! Iria concorrer sob o nome Senhor Funda e as Varettes. A música é uma questão de somenos importância... Assim como assim, nunca ganhamos. A certeza é que a minha interpretação seria inesquecível, quer se tratasse de uma balada de fazer chorar as pedras da calçada ou de qualquer musiquita upbeat que lançasse as Varettes em loucas e acintosas coreografias.

Imagino-me nos bastidores, durante os ensaios, a tentar convencer a representante da Polónia - costumam ser bem giras, quando são gajas - de que uma ida ao meu quarto de hotel a faria alcançar um dó de peito mais possante e luminoso. Imagino-me a conseguir finalmente a cisão no bloco nórdico, fazendo com que a sueca, tomada pelo ciúme, ameaçasse de morte a finlandesa depois de a apanhar na minha cama, ao lado da croata e da macedónia... Imagino-me a ter que pagar em géneros às Varettes pela sua preciosa colaboração. Imagino-me a regressar a Portugal sem qualquer ponto mas com muitos números de telefone e muitas casas à disposição por essa Europa fora.

Não sei porque é que este belíssimo certame foi caindo no desamor de boa parte do público. Quer dizer, até sei. Vocês agora querem é rock... depois dá nisto. Mas todos os anos há, pelo menos, uma mão cheia de canções que valem a pena. Há, pelo menos, 10 ou 15 pares de pernas que valem a pena. E há, pelo menos, 6 ou 7 decotes que valem a pena. É claro que hoje o Festival já não é a rampa de lançamento de grandes nomes para a ribalta internacional que foi noutros tempos - e não deixa de ser triste se pensarmos que o último desses casos foi a Céline Dion...foda-se! Mas é uma instituição como poucas, que diabo!

O ano a que a fotografia acima aposta se reporta, por exemplo. 1963. Venceu a Dinamarca com o belíssimo "Dansevise" (Portugal só iniciaria a participação no ano seguinte). É uma canção ainda hoje revisitável: tem uma aura de "James Bond" e uma guitarra que me faz sempre lembrar os The Monochrome Set. E tantos outros anos... A Sandie Shaw descalça. A France Gall ninfeta e tão gira, a cantar Gainsbourg. A irlandesa Dana e o seu tom pastoral. A Isabelle Aubret. A Maciel com o seu "La la la la" e aquele ar de espanhola poderosa, tipo "Anda cá, anda, que eu desfaço-te em três tempos". Os Abba. Os Bucks Fizz. As holandesas do meu coração, as Frizzle Sizzle. A Amina. A cipriota Evridiki. O palhação do Johnny Logan. Os belgas Telex, a revolucionar o sistema com os seus sintetizadores analógicos. E as Tatu, no ano passado, a revolucionar o sistema com as suas... os seus... as delas... as... pronto.

O futuro da música pode não passar por ali. Mas também pode passar. Se ao menos a RTP apostasse no Senhor Funda e as Varettes... Para mostrar como são sérias as minhas intenções, deixo já uma sugestão para a letra da canção a interpretar: uma canção ganhadora, com um toque futurista mas dentro dos cânones clássicos da Eurovisão. Sim, que a mim, quem me tira os clássicos... Seria assim:

Sobe balão sobe, como um conquistador, que lá em cima há um grande grande amor e é bem bom e nem te dás conta quando cai a noite na cidade e até parece que foi magia (um título grande e expressivo é sempre bom)

Lembras-te de mim?
Como eu me lembro de ti...
Mãos macias de pudim
Cara de abacaxi (homenagem implícita a Rosa Lobato de Faria)

Lábios doces de cereja
Voz de amor a refulgir
As outras têm inveja
De tu me fazeres sorrir (homenagem a quem quer que fosse que escrevia as letras das Doce)

Segues os passos de um povo
Na manhã de cravo em flor
Vem fazer um mundo novo
Com paz, pão e muito amor (ah grande Ary!)

(e o refrão, este pedaço de sumo doce e espesso...)
La la la la la laaaa la la
É tão bom estar contigo assim
La la la la la laaaa la la
Eu ao pé de ti e tu ao pé de mim
La la la la la laaaa la la
Sabes a mel e a amendoim
La la la la la laaaa la la
És o meu refrão de uma canção sem fim uh-oh uh-oh

(violinos em Si, pizzicato: plinc plinc plinc plinc plinc)

Lembras-te de mim?
Como eu me lembro de ti...
Concertina e bandolim
Cucuru cucurrupi (mãe África...)

Amanhã é outro dia
Outra noite p'ra cantar
A ouvir telefonia
O Sala e o Despertar

Nosso amor é uma lenda
Qual Armando e Valentina
Tu fazes naperons de renda
Eu componho a sonatina

La la la la la laaaa la la
É tão bom estar contigo assim
La la la la la laaaa la la
Eu ao pé de ti e tu ao pé de mim
La la la la la laaaa la la
Sabes a mel e a amendoim
La la la la la laaaa la la
És o meu refrão de uma canção sem fim
La la la la la laaaa la la
É tão bom é tão bom para mim
La la la la la laaaa la la
Entrar em ti como um berbequim
La la la la la laaaa la la
Enquanto tu gemes eu já me vim
La la la la la laaaa la la
E se queres que te diga, és assim-assim uh-oh uh-oh

E pronto. Não me digam que não ganhávamos...



O GRAXISTA

Hoje, como tenho obrigatoriedade de pagar os empréstimos vitalícios, deixo para estas alturas de saldos, a “oportunidade” de comprar qualquer coisa para vestir a preços mais acessíveis, tentando rechear o meu guarda-fatos que já por si só, se encontra cheio de tralha ( e roupa ) que normalmente não uso. Podia até aqui debruçar-me sobre as dimensões dos roupeiros embutidos nos apartamentos , e se a sua forma, é adequada às exigências actuais...mas não é esse o tema.

Fui hoje, durante a minha hora de almoço, “ver se arranjava” um par de sapatos, quiça esquecidos por aqueles, que tal como eu, deixam para os saldos a 70% essa impossível tarefa...quando para mais, tenho um pé normal, de tamanho comum e que, por esse motivo não abundam nos “maiores de 44´s” que enchem as prateleiras dos vistosos saldos a + de 50%. Mas não é sobre saldos que eu queria falar...

Actualmente “só me dá” para comprar sapatos de fraca qualidade. Não só, porque não me consigo habituar à ideia de sapatos de sola como, preguiçoso que sou, não me concebo a ter que engraxar este calçado diariamente. Desta forma, compro sapatos de camurça ou algo sinteticamente semelhante que, por serem ( na minha ideia ) desta qualidade, se resignam a se sujarem com facilidade, ajudando-me assim a dar uma desculpa fácil para o não engraxamento da camurça. Mas não...não é sobre sapatos de camurça...

Quando tinha 6 ou 7 anos, não tinha este problema. A obrigatoriedade de ter que usar os sapatos que a minha mãe ponderadamente me escolhia, levava-me sempre a calçar aqueles baixos, normais, de sola, e que, eram normalmente engraxados com aquela lata de graxa preta com uma imagem estilizada de um touro na tampa. No entanto já nesta altura, essa tarefa me era confinada ( era uma das responsabilidades que a minha mãe me doava ). Assim gerindo, preferia guardar alguma da minha mesada ( ou optar pela hipótese de deixar os nervos em franja da minha mãe – pagando -, ao ver o estado limiar dos sapatos ), e pagar ao homem-careca-do-Samambaia ( café do meu bairro ) para me engraxar o “belo sapato”.

- Ah, como eu adorava estar sentado - como os adultos que pausadamente bebiam o seu café e liam o jornal de Sábado - e pousar o meu 36 na placa-metálica-em-forma-de-pé-tamanho-42!

Gostava de sentir os dedos dele a passar uma primeira fase de graxa no exterior do sapato, seguido de uma passagem (que expandia essa pasta ) com um farrapo branco-preto em todo o sapato... culminando com o “êxtase” do pano vigoroso verde que, com fortes e secos movimentos – que faziam um som simplesmente fabuloso – o fazia deslizar com perícia nos meus sapatos, deixando-os com um brilho único.
Todo este trabalho ao meu serviço pelo preço de uma única moeda, que não me tinha custado nada a ganhar...Para quê então o esforço de engraxar sapatos, pensava já eu sabiamente nesta altura?

Actualmente o senhor-careca-exgraxador-de-sapatos ainda lá faz um pezinho de dança aos Domingos. Porém, e apesar de continuar a ser um frequentador assíduo do Samambaia ( gosto de ler o jornal e beber o café antes do almoço de Domingo ), e como uso sapatos de camurça, já não lhe requisito os serviços, ( apesar de me dar um saudosismo muito especial daqueles momentos )...até porque a moeda de 1 euro que cobra hoje me faz falta, para ajudar a pagar todos os empréstimos que tenho!

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

PESCADINHA-DE-RABO-NA-BOCA

“Sem entrar em peixeiradas”, como alguém oportunamente uma vez me aconselhou, não deixo desta vez, e a propósito de uma expressão impertinente de me questionar com alguns adjectivos que, não acreditando serem proferidos qual pescadinha-de-rabo-na-boca, me levam a questionar sobre esta temática.

A propósito do facelift, e de toda a nova imagem que o Porco decidiu adoptar, obviamente que não faço qualquer tipo de considerações, até porque elas são proferidas com o cunho e gosto pessoal.
No entanto, e a propósito da nódoa que caíu no “babete de eleição” ( estas palavras são minhas ) do Porco, e porque sou um dos visados ( leia-se, que postou um parágrafo sobre a morte do “imigrante hungaro Fehér”), não deixo de tecer algumas considerações, após a frieza do espaço temporal de 7 dias.

Desta forma, e porque alguns dos “tratadores” foram “contaminados pela pieguice” e fizeram ”coro com a choraminguice nacional” relativamente à morte de alguém, realço que pieguice e choraminguice não são adjectivos que enquadro e encaixo com alguma facilidade, até porque, nem todos os entendem da mesma forma. Friso; sei que se trata de um blog “impertinente” e que, como assiduamente constato, esta expressão está enquadrada dentro de um contexto muito peculiar! Aproveito para acrescentar ainda, que é um motivo de orgulho, sermos um dos poucos blogs impertinentes.

Apeteceu-me escrever... após a morte do Feher. Não pela morte em si, não pelo jogador, nem pelo clube, não pela família....apeteceu-me, pela conjuntura expressa de ter sido obrigado a participar daquela morte ( e respectiva tentativa de auxílio ). Morte essa que não é de todo normal, nos parâmetros a que ( felizmente ) estou habituado a assistir, e que normalmente se procede porque a idade “o obrigava”. A inevitabilidade, a crueldade, a impotência, a frieza, a inexplicabilidade daquela morte, é que me levou a escrever um parágrafo sobre o assunto. Não pela onda de pieguice ou choraminguice que se alastrou posteriormente ( que entendo e respeito...), até porque na própria noite, me fui deitar sem saber se o jogador tinha de facto falecido. Não me revia na guerra de audiências ( que veio posteriormente a acontecer ) à custa de uma morte cruel. Não tinha obviamente que explicar isso num parágrafo...nem queria!

Tive porém ( e passo a confidenciar ) alguma curiosidade em verificar se os blogs com maior visibilidade, tinham escrito no próprio dia sobre o facto. No próprio dia é importante...porque a frio, tecer qualquer tipo de considerações, é de facto uma tarefa mais despropositada. Sem espanto, constatei que, ou ninguém vê futebol, ou o Benfica não tem mesmo 6 milhões de adeptos, ou então, morrer um jogador ( sem qualquer tipo de pancada, very-light, tiro, murro, etc. ) dentro do campo é um acontecimento perfeitamente normal no nosso planeta. Custa-me acreditar e pensar que, atrás dessa pescada-de-rabo-na-boca, poderia estar qualquer tipo de elitismo, ( que quanto a mim, é provincianismo ), sobre a regra do “nunca-escreverei-sobre-futebol”...porque, não era de facto futebol...era chuva, era morte...e foi isso que choraminguei. Sou de facto piegas e choramingão...mas à minha maneira!

P.s. – De acrescentar que, em nenhuma altura pensei naquele parágrafo, com qualquer tipo de “causa”. Causas no futebol é uma coisa que com a idade já aprendi a esquecer...como se veio a comprovar ontem, no mesmo estádio. Sob os mesmos olhares que viram há uma semana um homem estatelar-se no chão, sem hipótese perante o adversário “morte”, ontem sob a estupefacção desses mesmos olhos quiçá ainda em lágrimas, aconteceu uma outra batalha – campal -, com metade dos intervenientes que, minutos atrás estavam reunidos num minuto de silêncio, supostamente em redor de uma causa...

P.s.1 - Ontem, em conversa na SicNotícias, Pacheco Pereira ( já passou uma semana ), voltou a tecer duras críticas sobre a exploração da imagem de todo o processo da morte do jogador, como factor de aumento de audiências. Após uma semana, continua a ter uma opinião formada! Concordo em absoluto...agora!




"BOM DIA, PROFESSOR!"


Morreu dia 31...

Vitor Figueiredo foi meu professor!
Velho...era um velho seco, ilustre, frio, sombrio, frontal...arquitecto, que tratava a arquitectura como tratava a vida.
Lembro-me dele na primeira aula, de casaco escuro e chapéu!Lembro-me daquela primeira impressão algo ridícula, até ter soltado as primeiras palavras, por entre uma voz espessa que proferia entre dois cigarros...
Nunca um professor me impôs tanto respeito como este homem! Realço que sempre fui um cobarde na hora de o afrontar...o mais que consegui foi um “Bom dia Professor”.
Tenho pena, como alguns colegas, de não ter partilhado algumas horas de conversa...quanto mais não seja para termos falado de tudo, com excepção da arquitectura! A arquitectura portuguesa, e sem querer cair num lugar comum, está definitivamente mais pobre...os arquitectos portugueses perderam hoje um velho...eu perdi aquele professor...o tal que nunca cheguei a conhecer...

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