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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


quinta-feira, setembro 16, 2004

HOMENS DE BRANCO - II

Pelopimedes: a entrega de Farimedes.


Quando o gregal expirou no seu último alento, já lhe falhavam forças para agarrar as encostas do Monte Surdo. Tinham passado noventa longos dias de penosas provações. Só lhe restava a ténue esperança de conseguir desbravar pedra e frio para chegar ao empíreo prometido e sonhado; o destino e recompensa dos Bravos de Tasimedes: Pelopimedes.

A cada passo, sentia os tendões rasgar em gritos de desespero. O seu corpo cedia, mas enquanto inspirasse aquele ar fétido das cavernas de Cena, sentia a sua vida como uma imputação. Forças brotavam audazes dos confins do seu ser. Seria a alma que insurgia em coragem? Já não interessava. Só tinha que continuar e não perecer. Não havia crenças. Só a crua audácia e determinação dos canteiros de sua terra.

No seu dorso, o pequeno tesouro de sua irmã pranteava por fome e desconforto.

- Aguenta, criança! Depressa chegaremos! Mexei-vos, ó pernas ociosas! Ainda que vos dilacere, a dor será um ânimo bem-vindo para a tarefa que me foi ferrada!

Assim foi.

Novos dias pariam do cume de Surdo, cada um trazendo um óbito eminente. Aos treze, Farimedes, exaurido e esgotado, avistou a esperança de conseguir completar a sua jornada. Ao longe, por entre o misto lácteo, avistava já as planícies da pátria encantada. Meramente pela sugestão de contemplar o seu dever cumprido, chorou avultadamente, assustando o seu pequeno protegido que rebentou numa alarido tal, que afastou o almoço daquela manhã.

- Com mil milhões de nabos putrefactos, queres matar-nos de fome, petiz? Ah, deixemo-los ir… Estas ervas são frescas e saudáveis. Já pouco falta para vinho e frango suculento abundar sobre a mesa de teus primos! E Janimedes! Aquela velhaca certamente não te recusará para cuidar com afinco! Levantemo-nos, pois! A nossa viagem já lê o seu próprio epitáfio!

A perseverança de Farimedes seria sua ruína. Embora alardeando o seu incomensurável perfil pétreo, ele próprio sabia que não sorriria à sua velha amiga. As bênções que lhe foram entregues apenas garantiam a segurança do fedelho. E isso era apenas o que lhe interessava. A missão era simples, apesar de fatal.

Seguiram pela bruma do gigante cinzento, descendo sinuosamente até ao sopé. Aí já se avistavam os arcos e o castelo de Gedena. Farimedes, cauteloso, apalpava a bolsa para fazer estalar o pergaminho com as instruções de sua irmã, garantindo que tudo estava em condições e nada se tinha perdido naquela expedição infernal.

A Entrega estava próxima e sabia que, derradeiramente, acabaria por descansar em paz. Por isso, sorria. Sorria por um novo ciclo que se iniciaria. Tinha voltado a casa com uma nova esperança. Uma esperança de baba e ranho, mas também barro nobre e pronto para formar um novo excelso membro do seu clã.

E repetia estes pensamentos a cada passo, que já retumbavam como contrapesos largados aquando notou que eram na realidade os seus joelhos.

Ao longe, Janimedes, distraída, pisava roupa contra as pedras da fonte, absorta, mas com um pressentimento que a acompanhava desde essa manhã. Uma pressão no fundo do tímpano que nada tinha a ver com o tempo que viria a fazer, mas com algo em que não cabia bem raciocinar. E continuava os seus afazeres, desconfiada.

Gritos e travessuras de petizes reverberavam pelas paredes altas das casas acanhadas da Praça menor de Gedena. O sol brilhava alarvemente nos animais que se refugiavam nos bebedouros e três antigos que falavam das castas a experimentar esse ano.

Aparentemente, um dia vulgar e singelo, mas com uma sombra invisível e um cheiro a jasmim que pairava baixo e difuso.

Enquanto a velha pegava no seu cesto de vime com os afazeres da manhã, sentiu o seu coração ser esmagado com os olhos a reflectirem a imagem do seu irmão moribundo à porta de sua casa. Já deitado sobre a soleira, um silêncio surdo revestiu a rua, fechando os olhos ao sol moreno que se retirava, envergonhado, para dar lugar a um poder maior.

Farimedes ainda lutava por si, enquanto era agarrado e arrastado com intensidade pelos braços enrugados de sua mana. Num último alento, pegou-lhe na mão e sorriu para os seus míopes olhos verdes. Janimedes sabia deste dia e aceitou a despedida do seu irmão amado, selando-a com um beijo na fronte e aconchegando a sua mão sobre a face do moribundo.

Farimedes tinha feito duas Entregas e faleceu feliz e honrado na cidade antiga.

Assim será recordado para sempre.



Arrotos do Porco:

Assim serás tu recordado.. sem eu saber jamais o que contavam os homens de branco I.


Uma excelente pérola, Fodimedes.

Farimedes morreu para fazer a Entrega, agora, espero que tu pegues novamente no papel e na pena e continues a história, para demonstrar que Farimedes não morreu em vão. :)

[A capacidade de compreensão do escrito veio após muitas passagens de olhos, difícil, mas não incompreensível. ;o)]



A morte de cada um já está em edital.


Ai Poeta! Que injustiça o tempo comete quando te impede de escrever com mais frequência. Eu quero mais.


Hoje começou em Coimbra o VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Recebe cerca de 1500 participantes, metade dos quais brasileiros. Constitui uma iniciativa consolidada que, também em Coimbra, se iniciou em 1990. Depois, viajou pelo Brasil, Moçambique e Portugal. A partir dela desenvolveram-se projectos e redes conjuntas de investigação, trocaram-se alunos e professores, publicaram-se livros e revistas. Fizeram-se amigos e estreitaram-se relações entre os três continentes. Cultura viva sente-se nestes dias, como em outras ocasiões.
Mas nada disto motivou a Ministra da Cultura. Convidada para abrir o Congresso, faltou. Tinha de estar na cerimónia da trasladação dos restos mortais de Manuel de Arriaga. Coimbra fica longe? De Lisboa talvez, mas não do Brasil. A ausência do Governo português foi compensada pela presença de Governo brasileiro.

Maria Manuel Leitão Marques (causa nossa)



Enriquecimento sem justa causa
Ao fim de menos de dois anos à frente da Caixa Geral de Depósitos, com a confortável remuneração correspondente (dezenas de milhares de euros mensais), Mira Amaral sai ainda com uma reforma choruda para toda a vida, presumivelmente acumulável com qualquer outra remuneração ou pensão. Seguramente superior à pensão (única) da generalidade dos portugueses ao fim de dezenas de anos de trabalho. Ao pé desta cornucópia, a justamente criticada reforma dos políticos é quase inocente (só se obtém ao fim de 12 anos de função e é no fundo uma forma enviesada de compensação dos relativamente baixos vencimentos respectivos em Portugal). Eis um exemplo do escandaloso regime de pensões que os gestores de muitas empresas públicas se auto-atribuíram, à margem do conhecimento público. Um privilégio imoral, um verdadeiro enriquecimento sem justa causa. É urgente denunciar publicamente estes inaceitáveis regimes de excepção.

(causa nossa)



Há algo de podre no reino da Dinamarca.


Boa tarde.

Vou já pedindo desculpa pela pergunta, mas, a curiosidade não é exclusivo do feminino.

Este, não é o primeiro poste do Fodimedes, aqui no Vareta Funda?



Excelente texto, Fode e Medes.

Muito difícil de seguir. Mas bom.

Puseste aqui a família toda?

Respondendo ao ClAustro: não. Definitivamente, não.



chOURIÇO, Obrigado


Muito obrigado aos incautos(as) que elogiam postas pouco meritórias em forma e conteúdo. Sois, acima de tudo, uns caros.

Claro que não, chOURAS, a epopeia é grande e haverá muito a contar.

Tens toda a razão, Austro. Quem haveria de querer alienar tal direito meritório das gajas e moços alegres. Tens todo o direito em perguntar e respondo com todo gosto: não, infelizmente.

Por último:

A Entrega, na crença Fodimeica, é uma missão divina e predestinada pelos escritos sagrados do templo de Argosena aos Varões de cada família. Isto será explicado mais à frente, mas fica já aqui a desmistificação de um qualquer eventual misticismo poético.


* Hoje descompus a Sra. Fodimedes. Ela fez-me o favor de provar que as grandes mulheres não dependem da medida e acertou-me com dois carolos que me puseram no devido lugar. Bem-haja, por isso.



A Senhora Fodimedes, é certamente, uma Senhora, avisada.

Provávelmente, de poucas palavras, como todas deveriam de ser.



Pois ficai sabendo que não consigo aceder à enetation de casa.


Velho refilão!


Este texto é absolutamente genial.




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