| terça-feira, junho 01, 2004 |
Dia Mundial da Criança by Violeta
Cornell Capa - El Salvador. Mother and Child, 1973
Já vos disse uma vez que não gosto de amores com datas marcadas. Mas pareceu-me algo pertinente trazer este tema à Vara. Muitos de vós fazem referência aos filhos, aos sobrinhos, mais ou menos filhos, mais ou menos sobrinhos, conforme a hora marcada pelo relógio biológico de cada um. Assistimos ainda, quase em directo, ao nascimento esperado do Cutivinho, já para não falar na criança que cada um de nós tem dentro de si.
Espero que obviamente tomem esta frase como uma metáfora usada, ou ainda nos tomam por um blogue de ginástica respiratória para preparação para o parto.
Neste dia Mundial, esperaria eu, e todos os anos o espero, que a nossa comunicação social nos fizesse reflectir sobre as actuais condições das crianças no mundo, sobre o trabalho infantil tão dramático e chocante na China, como tão discreto e chocante em Portugal, sobre a mortalidade infantil excessiva em alguns países, sobre o tráfico de crianças para os mais diversos fins, sobre as redes de prostituição infantil, sobre o abandono escolar dos ciganos das nossas escolas, sobre os meninos soldados nos países em guerra, sobre os meninos sós em países em paz, sobre os meninos que vivem na rua com olhos de adulto e snifam cola desde os 8 anos e moram nos bairros ao nosso lado.
E não falo no “excelente” trabalho das nossas televisões sobre a tragédia da pedofilia, porque já Virgílio Ferreira nos deu a Manhã Submersa há muitos (desmaiados) anos e já toda a gente sabia há muitos (demasiados) anos que os movimentos de carros de luxo no Parque Eduardo VII, à noite, não eram exibições automobilísticas. Adiante.
Aproxima-se o dia Internacional da Criança e assistimos a uma pérola da nossa publicidade. Uma voz infantil de enorme candura e maldade anuncia na rádio o seguinte:
-“No dia da mãe, dei à minha mãe uma flor, no Dia do Pai dei ao meu Pai um desenho. Aproxima-se o dia da Criança e não vejo nada lá em casa. O que estarão à espera? “
Claro que os pais estão, aflitivamente, à espera do ordenado. E até calha bem, que o dia 1 é a seguir ao fim do mês. Dia 1 é dia de encher as grandes superfícies e atafulhar os carrinhos de play stations, action men, barbies e carros a pilhas. Dia 1 é dia de mostrar às nossas crianças o amor que temos por elas. Nem que isso custe mais uma vez o equilíbrio financeiro do próximo fim do mês. E no dia 2, as nossas crianças terão apenas mais do mesmo. E um armário mais cheio e gavetas mais cheias e um tédio ainda maior.
Eu sempre vivi com crianças. Pertenço a uma família que se tem ciclicamente renovado. Periodicamente nasce alguém. Nasce-se muito na minha família e nasce-se, se calhar, porque até nos amamos. Por razões profissionais também conheço muitas crianças. Talvez muitas crianças não saibam porque nasceram, ou porque razão alguém se lembrou de os trazer a este mundo. Talvez muitas crianças sofram em silêncio à espera que passe. Talvez muitas crianças não precisem de mais brinquedos. Talvez muitas crianças precisem só de conversar.
Eu não vou comprar mais brinquedos para as minhas crianças. Vou só estar lá. A responder às perguntas que sei, a responder, não sei, quando não sei, ou apenas em silêncio. Com elas.
P.s. - Peço somente atenção à expressão "(...)ou ainda nos tomam por um blogue(...)". Está de facto entranhado...gosto que também seja vosso de facto!
Cornell Capa - El Salvador. Mother and Child, 1973
Já vos disse uma vez que não gosto de amores com datas marcadas. Mas pareceu-me algo pertinente trazer este tema à Vara. Muitos de vós fazem referência aos filhos, aos sobrinhos, mais ou menos filhos, mais ou menos sobrinhos, conforme a hora marcada pelo relógio biológico de cada um. Assistimos ainda, quase em directo, ao nascimento esperado do Cutivinho, já para não falar na criança que cada um de nós tem dentro de si.
Espero que obviamente tomem esta frase como uma metáfora usada, ou ainda nos tomam por um blogue de ginástica respiratória para preparação para o parto.
Neste dia Mundial, esperaria eu, e todos os anos o espero, que a nossa comunicação social nos fizesse reflectir sobre as actuais condições das crianças no mundo, sobre o trabalho infantil tão dramático e chocante na China, como tão discreto e chocante em Portugal, sobre a mortalidade infantil excessiva em alguns países, sobre o tráfico de crianças para os mais diversos fins, sobre as redes de prostituição infantil, sobre o abandono escolar dos ciganos das nossas escolas, sobre os meninos soldados nos países em guerra, sobre os meninos sós em países em paz, sobre os meninos que vivem na rua com olhos de adulto e snifam cola desde os 8 anos e moram nos bairros ao nosso lado.
E não falo no “excelente” trabalho das nossas televisões sobre a tragédia da pedofilia, porque já Virgílio Ferreira nos deu a Manhã Submersa há muitos (desmaiados) anos e já toda a gente sabia há muitos (demasiados) anos que os movimentos de carros de luxo no Parque Eduardo VII, à noite, não eram exibições automobilísticas. Adiante.
Aproxima-se o dia Internacional da Criança e assistimos a uma pérola da nossa publicidade. Uma voz infantil de enorme candura e maldade anuncia na rádio o seguinte:
-“No dia da mãe, dei à minha mãe uma flor, no Dia do Pai dei ao meu Pai um desenho. Aproxima-se o dia da Criança e não vejo nada lá em casa. O que estarão à espera? “
Claro que os pais estão, aflitivamente, à espera do ordenado. E até calha bem, que o dia 1 é a seguir ao fim do mês. Dia 1 é dia de encher as grandes superfícies e atafulhar os carrinhos de play stations, action men, barbies e carros a pilhas. Dia 1 é dia de mostrar às nossas crianças o amor que temos por elas. Nem que isso custe mais uma vez o equilíbrio financeiro do próximo fim do mês. E no dia 2, as nossas crianças terão apenas mais do mesmo. E um armário mais cheio e gavetas mais cheias e um tédio ainda maior.
Eu sempre vivi com crianças. Pertenço a uma família que se tem ciclicamente renovado. Periodicamente nasce alguém. Nasce-se muito na minha família e nasce-se, se calhar, porque até nos amamos. Por razões profissionais também conheço muitas crianças. Talvez muitas crianças não saibam porque nasceram, ou porque razão alguém se lembrou de os trazer a este mundo. Talvez muitas crianças sofram em silêncio à espera que passe. Talvez muitas crianças não precisem de mais brinquedos. Talvez muitas crianças precisem só de conversar.
Eu não vou comprar mais brinquedos para as minhas crianças. Vou só estar lá. A responder às perguntas que sei, a responder, não sei, quando não sei, ou apenas em silêncio. Com elas.
P.s. - Peço somente atenção à expressão "(...)ou ainda nos tomam por um blogue(...)". Está de facto entranhado...gosto que também seja vosso de facto!
Arrotos do Porco: