| sábado, maio 01, 2004 |
Vânia - Uma novela erótica.
Vânia tinha olhos de anime.
Alta e imponente, ela vestia cores sóbrias e pompeava uma personalidade deliciosamente elaborada. Estava sempre em controlo. Gabava-se disso sem uma única palavra. Mesmo na mais inconsolável inércia, transpirava uma confiança pétrea. Pior: era bonita. Muito bonita.
Era duro ser-se amigo dela. Estava sempre um passo à frente na companhia de uma subtileza implacável. Era o tipo de pessoa que, nos gestos triviais, comunicava essencialmente com o olhar. Coleccionava palavras, como os miúdos juntam cromos de futebol nas cadernetas. Economizava a verve para um momento de mestria - E que momentos, esses!
Era uma grande pessoa, no entanto e espantosamente, era triste. Sim, muito triste.
Nem todos sabiam deste detalhe. Vânia deleitava-se com as nossas experiências e sensações. Era um ombro presentíssimo e fugia quando lhe oferecíamos o nosso num qualquer momento infeliz - isto, quando nos apercebíamos destes, que ela não revelava a ninguém.
Muitos pensavam que seria egoísmo, mas eu não. Eu via uma síndrome de "Anjo-Da-Guarda", como tal, ela padecia de uma tristeza quase poética. Era bonito, mesmo que contraditório. Era assim que ela queria ser, e eu sempre assim a deixei.
Um dia, durante um dos nossos passeios habituais, encontramos umas folhas de papel anexadas com alguns poemas. As folhas estavam suspensas de uma outra, timbrada e assinada pelo Director da "Delegação para o Desenvolvimento Local" da câmara municipal da zona.
Após orarmos pelo emprego do pobre estafeta infortunado, começamos a ler, curiosos, que poemas seriam aqueles... Então assim foi. Sentamo-nos no "calhau" mais confortável do parque e começamos a jornada pelos misteriosos papéis.
Após a leitura em voz alta de algumas estrofes, comecei a estranhar a expressão da Vânia. Por um momento, o seu rosto simétrico e ordeiro padecia de sobrancelhas em triângulo e olhos de cachorrinho largado. Nada havia acontecido para tal, estávamos sempre juntos e as nossas vidas nunca foram segredo. Sabíamos os mais sórdidos e recônditos detalhes dos nossos "eus".
Era a minha vez de ler.
Vânia observava-me com alguma ansiedade. Enquanto fazia contas aos versos e às várias locuções que surgiam nas estrofes de devassidão, consegui deslindar que a poesia erótica barata lhe fazia um efeito de enfraquecimento na blindagem de aço impenetrável que ela alardeava - Impenetrável, com todo o respeito, claro... Ou talvez nem tanto, que ninguém é de ferro, não é? - De qualquer forma, dizia eu que enquanto articulava aquelas palavras, Vânia estava incontrolável de movimentos e olhares traquinas. Por uma ou duas vezes, pude vislumbrar um humedecimento dos seus lábios rosa - e tenho quase a certeza que a vi fechar os olhos - numa pontuação bem escolhida para o efeito - e gemer baixinho uma surda exclamação de derradeiro prazer.
Nunca imaginei vê-la assim. Sentei-me a terminar as últimas folhas de papel, enquanto me deixei envolver pelos seus finos braços dourados. Afinal, ela já tinha percebido que, dessa vez, não conseguiu esconder o que já há três poemas atrás o seu corpo clamava. Enquanto eu lia, ela pousou-me o queixo no ombro e desenhou algo no meu cabelo com o seu dedo indicador. A pressão estava cada vez maior. Agora, também eu começava a perder o juízo. Após quinze minutos de expectativa, gaguejava insistentemente através das linhas que teimavam em fugir pelos recantos daqueles papéis. Aquela Ode estava no seu apogeu, sentia a Vânia tremer enquanto apertava, cada vez mais, o meu braço já frágil perante aquele episódio axiomaticamente sensual. Já não olhava as folhas que tinha, limitava-me a mudar as páginas e entoar com o melhor estilo possível todo aquele palavreado bem-vindo.
Parei de ler. A folha estava rasgada mesmo antes do final daquela última estrofe. Ambos estávamos na linha d'olhos. Arfando e descodificando o que se estava a passar.
Num último impulso animal, algo dentro em mim disse-me que não podia perder aquela oportunidade vinda dos céus e, guloso, fui à procura dos seus lábios doces e delineados, já prometidos pelas musas sagradas.
Ela virou-me a cara, levantou-se com preguiça e num suspiro desgostoso, confessou-me:
- É pena que esse último esteja rasgado. Não há nada pior que um poema interrompido. Bem... Vamos lanchar?
- ...
- Que se passa? Estás bem?
- Mas... O que...
- Então?...
- Ah! Vânia, isso não se faz!
- O que foi? O que é que não se faz? - Perguntou ela, com o seu mais manhoso sorriso.
- Podias ter dito que estavas a "tangar", não achas?
- Ora porquê? Assim tirava a piada toda à nossa tarde... Ao menos, foi bom para ti?
O pior é que, mesmo assim, era impossível não se gostar dela.
Vânia tinha olhos de anime.
Alta e imponente, ela vestia cores sóbrias e pompeava uma personalidade deliciosamente elaborada. Estava sempre em controlo. Gabava-se disso sem uma única palavra. Mesmo na mais inconsolável inércia, transpirava uma confiança pétrea. Pior: era bonita. Muito bonita.
Era duro ser-se amigo dela. Estava sempre um passo à frente na companhia de uma subtileza implacável. Era o tipo de pessoa que, nos gestos triviais, comunicava essencialmente com o olhar. Coleccionava palavras, como os miúdos juntam cromos de futebol nas cadernetas. Economizava a verve para um momento de mestria - E que momentos, esses!
Era uma grande pessoa, no entanto e espantosamente, era triste. Sim, muito triste.
Nem todos sabiam deste detalhe. Vânia deleitava-se com as nossas experiências e sensações. Era um ombro presentíssimo e fugia quando lhe oferecíamos o nosso num qualquer momento infeliz - isto, quando nos apercebíamos destes, que ela não revelava a ninguém.
Muitos pensavam que seria egoísmo, mas eu não. Eu via uma síndrome de "Anjo-Da-Guarda", como tal, ela padecia de uma tristeza quase poética. Era bonito, mesmo que contraditório. Era assim que ela queria ser, e eu sempre assim a deixei.
Um dia, durante um dos nossos passeios habituais, encontramos umas folhas de papel anexadas com alguns poemas. As folhas estavam suspensas de uma outra, timbrada e assinada pelo Director da "Delegação para o Desenvolvimento Local" da câmara municipal da zona.
Após orarmos pelo emprego do pobre estafeta infortunado, começamos a ler, curiosos, que poemas seriam aqueles... Então assim foi. Sentamo-nos no "calhau" mais confortável do parque e começamos a jornada pelos misteriosos papéis.
Após a leitura em voz alta de algumas estrofes, comecei a estranhar a expressão da Vânia. Por um momento, o seu rosto simétrico e ordeiro padecia de sobrancelhas em triângulo e olhos de cachorrinho largado. Nada havia acontecido para tal, estávamos sempre juntos e as nossas vidas nunca foram segredo. Sabíamos os mais sórdidos e recônditos detalhes dos nossos "eus".
Era a minha vez de ler.
Vânia observava-me com alguma ansiedade. Enquanto fazia contas aos versos e às várias locuções que surgiam nas estrofes de devassidão, consegui deslindar que a poesia erótica barata lhe fazia um efeito de enfraquecimento na blindagem de aço impenetrável que ela alardeava - Impenetrável, com todo o respeito, claro... Ou talvez nem tanto, que ninguém é de ferro, não é? - De qualquer forma, dizia eu que enquanto articulava aquelas palavras, Vânia estava incontrolável de movimentos e olhares traquinas. Por uma ou duas vezes, pude vislumbrar um humedecimento dos seus lábios rosa - e tenho quase a certeza que a vi fechar os olhos - numa pontuação bem escolhida para o efeito - e gemer baixinho uma surda exclamação de derradeiro prazer.
Nunca imaginei vê-la assim. Sentei-me a terminar as últimas folhas de papel, enquanto me deixei envolver pelos seus finos braços dourados. Afinal, ela já tinha percebido que, dessa vez, não conseguiu esconder o que já há três poemas atrás o seu corpo clamava. Enquanto eu lia, ela pousou-me o queixo no ombro e desenhou algo no meu cabelo com o seu dedo indicador. A pressão estava cada vez maior. Agora, também eu começava a perder o juízo. Após quinze minutos de expectativa, gaguejava insistentemente através das linhas que teimavam em fugir pelos recantos daqueles papéis. Aquela Ode estava no seu apogeu, sentia a Vânia tremer enquanto apertava, cada vez mais, o meu braço já frágil perante aquele episódio axiomaticamente sensual. Já não olhava as folhas que tinha, limitava-me a mudar as páginas e entoar com o melhor estilo possível todo aquele palavreado bem-vindo.
Parei de ler. A folha estava rasgada mesmo antes do final daquela última estrofe. Ambos estávamos na linha d'olhos. Arfando e descodificando o que se estava a passar.
Num último impulso animal, algo dentro em mim disse-me que não podia perder aquela oportunidade vinda dos céus e, guloso, fui à procura dos seus lábios doces e delineados, já prometidos pelas musas sagradas.
Ela virou-me a cara, levantou-se com preguiça e num suspiro desgostoso, confessou-me:
- É pena que esse último esteja rasgado. Não há nada pior que um poema interrompido. Bem... Vamos lanchar?
- ...
- Que se passa? Estás bem?
- Mas... O que...
- Então?...
- Ah! Vânia, isso não se faz!
- O que foi? O que é que não se faz? - Perguntou ela, com o seu mais manhoso sorriso.
- Podias ter dito que estavas a "tangar", não achas?
- Ora porquê? Assim tirava a piada toda à nossa tarde... Ao menos, foi bom para ti?
O pior é que, mesmo assim, era impossível não se gostar dela.
Arrotos do Porco: