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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


terça-feira, maio 25, 2004

Cartas, correios e carteiros.
ou a propósito dos mensageiros
by Violeta


Não sei se sabem mas criei há pouco tempo um blogue com a finalidade de motivar as pessoas a escreverem ou publicarem as cartas da sua vida. Visitei os trinta mil blogues que parece que existem em Portugal e convidei todos os seus autores a participarem no projecto inovador. Como tenho talentos inconfessáveis a convencer os outros e como a ideia era genial, tive uma adesão fantástica. Um blogue de franco sucesso. Cinco (5) autores e uma média de comentários diários de seis (6) presenças. Como nós os cinco, comentamos sempre os posts uns dos outros, faço a ilação óbvia de que haja mais uma pessoa em toda a blogosfera interessada neste tema.
Projecto de sucesso, portanto. Agora, dirão vocês, com toda a pertinência, mas como tive eu esta ideia genial de um blogue feito de cartas?
Eu explico. Desde criança tive um fascínio em receber cartas. Ora, para as receber, tinha também de as escrever. Ninguém escreve a quem não existe e eu iniciei essa aventura das cartas ainda pequenina. Felizmente havia uma papelaria na minha rua. Ao lado da drogaria do Sr. Venceslau. Nas tardes de sexta-feira em que os dias eram maiores, eu saía pela aventura do passeio fora, e com a semanada que poupava religiosamente, comprava um boião de anilina colorida, que misturava com tudo o que podia para fazer novas cores e uma embalagem de cartas e envelopes. Papéis de carta de cores infames, como lilás e violeta, gravados com corações, gaivotas e ursinhos, eram a minha perdição. Depois era só escrever cartas às amigas no fim-de-semana e entregá-las na segunda-feira na escola.
Confesso, que cresci rapidamente. Comecei a perceber que a coisa tinha mais piada com selo à séria e metida no vermelho sedutor do marco de correio que me acenava na esquina da rua de cima. Os selos… outra paixão. Nunca os coleccionei, mas que adorava o sabor da cola na língua, isso, adorava. Depois, abrir a caixinha de correio com a chave que se encontrava pendurada na porta da rua, ao pé da imagem da Nossa Senhora de Fátima, era um acto de devoção. Guardo ainda hoje todas as cartas que a minha melhor amiga de liceu me enviou durante as longas férias de verão em que estivemos separadas. Ela tinha a particularidade de enfeitar os envelopes por fora com desenhos fantásticos, tipo bonecas Rita.
Um dos desgostos da minha vida foi o envelope normalizado. A partir daí, percebi o que era a normalidade…
Cartas de juventude, cada vez mais elaboradas, foram chegando e sendo enviadas. Cartas de amigos em aventuras por outros mares, cartas de namorados cheios de paixões novas, até tenho saudades das cartas dos meus pais, nos primeiros anos em que me tornei gente crescida e voei para fora de casa. Dentro do envelope de papel fininho, vinha uma folha de carta fininha (porque se pesava o amor dentro das cartas na balança dos correios e o amor pesado era mais caro), que trazia a caligrafia desenhada da minha mãe e a assinatura no cheque do meu pai. Sobrevivi com essas cartas, paguei a renda de casa e fiz-me mais gente com elas.
E os dias começaram a ser mais rápidos. A urgência era a exigência dos nossos dias, e o tempo, ganhou contornos de soberano. Já não nos deixava escrever cartas. Despedimos os carteiros. Começámos a viver agarrados ao telefone, mas ele agarrava-nos ao sofá. Tínhamos de andar depressa, amámos por isso o telemóvel. Estamos ligados em qualquer lugar em qualquer situação. Não precisei mais dos cheques do meu pai. E as palavras dele já estavam tão longe da minha saudade…
Conhecemos um novo canal. A Internet. O correio a toda a hora. Faça chuva ou faça sol, este novo carteiro nunca nos desilude. Não há atrasos. Abro o meu correio várias vezes ao dia. E rejubilo sempre. 18 mensagens de correio? 18 amigos que se lembram de mim? Abro o correio, mas a chave já não está pendurada num local de culto. 18 mensagens de gente anónima que me diz coisas incríveis, como emagrecer 10 kilos numa semana, como aumentar os meus seios, como aumentar o meu pénis, como conhecer mulheres de sonho, como aumentar os meus gémeos e os meus bíceps e como ganhar dinheiro facilmente. Ainda me dizem que são meus amigos e que eu sou uma pessoa linda, na condição de eu chatear mais dez pessoas como eu, reenviando os passarinhos e as imagens de paz fatelas que me mandam. Se eu quebrar estas correntes, estou feita. Não respondo a estas cartas. Sou antipática e assumo isso.
Desligo o correio electrónico. Espero pelo meu dia de luz e de amizade. Chego a casa, abro a minha caixa metálica de correio, que pago incluída no condomínio caríssimo, e novamente rejubilo porque tenho a caixa cheia. Meto-me no elevador que pago incluído no condomínio caríssimo e até ao 7º andar vou lendo os remetentes. Conheço os remetentes. São fiéis e constantes na altura do mês em que se lembram de mim. E solicitam-me delicadamente o pagamento em euros da minha existência. Respondo a todos eles, delicadamente, dolorosamente, não envio beijos, mas assino os cheques com a minha melhor caligrafia.

São estas as cartas do nosso dia a dia.

Por isso criei um blogue de cartas. De amor, de desamor, de paixão, de raiva, de carinho, de amizade, de ódio, de ser gente. Voltei a escrever cartas. Voltei a ler cartas. Descobri mensageiros esquecidos. Somos imensos. Somos cinco. (ou seis)

P.s. - O blog é este! E um tal de mimosa que de vez em quando lá escreve umas barbaridades, é um primo que eu tenho...lá de longe! A imagem em cima é a do meu primo, nessas brincadeiras...

Arrotos do Porco:


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