| quinta-feira, abril 15, 2004 |
Uma casa de sonho, uma fantasia by IMACULADA
"Seguindo as recomendações ela trouxera a capa impermeável, amarela, sobre o vestido de cor purpura. Numa das mãos os dois cadernos pareciam querer desfazer-se - "How do I love thee? Let me count the way" podia ler-se na sua caligrafia redonda, poema copiado meticulosamente, durante uma tarde na leitaria. Desenhara aqueles caracteres sentindo pulsar na imaginação o vulto de um homem que lhe lembrava um pássaro, sem que ela soubesse explicar o motivo de tal associação.
Entra naquela casa flutuante sem olhar para ninguém, os olhos picam-lhe, ela atribui o desconforto à névoa. Saúda com um gesto esquivo o SôZé, murmura boa tarde, e queda-se no exterior do convés, sem sentir o frio, olhando as gaivotas. De olhos fechados e mãos abertas, sente vertigens e espirais serpenteiam em redor do seu corpo. Respira apressadamente, e abrindo os olhos crê descortinar, para lá da neblina, o tom improvavelmente rubro da Casa de Malaparte. Imagina-se nos contrafortes e depois percorrendo o terraço - "Le Mepris", murmura...De súbito levanta-se, e sem uma palavra abandona aquele navio envidraçado sussurrando palavras ininteligíveis, desliza sobre o convés, desaparece nas fragas e sente os seus movimentos de uma forma diferente, em lugar das passadas suaves, as pernas ganham uma agilidade diversa, ela desliza, eleva-se sobre ervas esparsas e embrenha-se no mato. Sentindo o poder de Gaia dentro de si corre cada vez mais veloz na direcção da casa de tons ocres....Sabe que o seu olhar habitualmente suave acolhe agora uma centelha nova e ela grita...
Cerca de duas horas depois regressa à leitaria envidraçada. Olha o mar fremente de espumas poderosas e detém-se nas pequenas fendas gravadas no seu corpo macerado por silvas ou cardos, ou espinhos de rosas bravas ou lascas de madeira ou pedras ariscas...Estremece ao ver as tatuagens vermelhas nos tornozelos, a evidência da nudez desamparada dos seus pés perturba-a. A capa amarela desaparecera e no bolso do vestido purpura, encharcado, sente a presença de conchas, um búzio, um pedaço de alga, folhas e pequenos bagos vermelhos. Tê-los-à ingerido como Perséfone? Não se recorda, não sabe...vê que as polpas dos seus dedos, habitualmente tão brancas, têm agora a coloração ambígua daquilo que medra no interior dos arbustos e das ervas. E nos seus lábios permanece o sabor da pele salgada do desconhecido e nas suas unhas restam minúsculas marcas da pele do homem/pássaro. E gotas de chuva vestem-lhe os cabelos, compondo uma alquimia única com o cheiro da maresia e do mato. Já despojada de embaraço olha os compañeros da Leitaria e pede ao SôZé uma chávena de chá bem quente. Alguém lhe estende um lenço singularmente alvo para estancar o rubro que resta das recentes separações de peles. E escutando a voz de Nat King Cole numa velha juke box apercebe-se de que o corpo arranhado apresenta já a suavidade de outrora, como se tivesse recebido gotas de um qualquer óleo sagrado ou uma maga, cúmplice, lhe tivesse aplicado uma fórmula misteriosa. E para seu espanto o vestido purpura já não está rasgado. Com um enorme sorriso coloca o búzio sobre a mesa e aguarda os efeitos das fumigações que a chávena de chá vão proclamar na sua boca salgada e no seu corpo ainda trémulo mas já tranquilo."

Este texto foi-me enviado há uns dias pela Imaculada, que frequentemente nos visita aqui no porco. Este texto é um pouco uma homenagem ( penso eu! ) ao Blog do Z, que anda meio arredado destas lides! Como tenho pouco tempo para escrever, deixo-vos aqui como partilha estas magníficas palavras! Acho que poderemos acrescentar aí um novo tratador! Pelo menos qualidade não falta!
Homenagem então aos dois...ao Z e a ela! Até porque também é uma das minhas casas de sonho...e um pouco como eu!
"Seguindo as recomendações ela trouxera a capa impermeável, amarela, sobre o vestido de cor purpura. Numa das mãos os dois cadernos pareciam querer desfazer-se - "How do I love thee? Let me count the way" podia ler-se na sua caligrafia redonda, poema copiado meticulosamente, durante uma tarde na leitaria. Desenhara aqueles caracteres sentindo pulsar na imaginação o vulto de um homem que lhe lembrava um pássaro, sem que ela soubesse explicar o motivo de tal associação.
Entra naquela casa flutuante sem olhar para ninguém, os olhos picam-lhe, ela atribui o desconforto à névoa. Saúda com um gesto esquivo o SôZé, murmura boa tarde, e queda-se no exterior do convés, sem sentir o frio, olhando as gaivotas. De olhos fechados e mãos abertas, sente vertigens e espirais serpenteiam em redor do seu corpo. Respira apressadamente, e abrindo os olhos crê descortinar, para lá da neblina, o tom improvavelmente rubro da Casa de Malaparte. Imagina-se nos contrafortes e depois percorrendo o terraço - "Le Mepris", murmura...De súbito levanta-se, e sem uma palavra abandona aquele navio envidraçado sussurrando palavras ininteligíveis, desliza sobre o convés, desaparece nas fragas e sente os seus movimentos de uma forma diferente, em lugar das passadas suaves, as pernas ganham uma agilidade diversa, ela desliza, eleva-se sobre ervas esparsas e embrenha-se no mato. Sentindo o poder de Gaia dentro de si corre cada vez mais veloz na direcção da casa de tons ocres....Sabe que o seu olhar habitualmente suave acolhe agora uma centelha nova e ela grita...
Cerca de duas horas depois regressa à leitaria envidraçada. Olha o mar fremente de espumas poderosas e detém-se nas pequenas fendas gravadas no seu corpo macerado por silvas ou cardos, ou espinhos de rosas bravas ou lascas de madeira ou pedras ariscas...Estremece ao ver as tatuagens vermelhas nos tornozelos, a evidência da nudez desamparada dos seus pés perturba-a. A capa amarela desaparecera e no bolso do vestido purpura, encharcado, sente a presença de conchas, um búzio, um pedaço de alga, folhas e pequenos bagos vermelhos. Tê-los-à ingerido como Perséfone? Não se recorda, não sabe...vê que as polpas dos seus dedos, habitualmente tão brancas, têm agora a coloração ambígua daquilo que medra no interior dos arbustos e das ervas. E nos seus lábios permanece o sabor da pele salgada do desconhecido e nas suas unhas restam minúsculas marcas da pele do homem/pássaro. E gotas de chuva vestem-lhe os cabelos, compondo uma alquimia única com o cheiro da maresia e do mato. Já despojada de embaraço olha os compañeros da Leitaria e pede ao SôZé uma chávena de chá bem quente. Alguém lhe estende um lenço singularmente alvo para estancar o rubro que resta das recentes separações de peles. E escutando a voz de Nat King Cole numa velha juke box apercebe-se de que o corpo arranhado apresenta já a suavidade de outrora, como se tivesse recebido gotas de um qualquer óleo sagrado ou uma maga, cúmplice, lhe tivesse aplicado uma fórmula misteriosa. E para seu espanto o vestido purpura já não está rasgado. Com um enorme sorriso coloca o búzio sobre a mesa e aguarda os efeitos das fumigações que a chávena de chá vão proclamar na sua boca salgada e no seu corpo ainda trémulo mas já tranquilo."

Este texto foi-me enviado há uns dias pela Imaculada, que frequentemente nos visita aqui no porco. Este texto é um pouco uma homenagem ( penso eu! ) ao Blog do Z, que anda meio arredado destas lides! Como tenho pouco tempo para escrever, deixo-vos aqui como partilha estas magníficas palavras! Acho que poderemos acrescentar aí um novo tratador! Pelo menos qualidade não falta!
Homenagem então aos dois...ao Z e a ela! Até porque também é uma das minhas casas de sonho...e um pouco como eu!
Arrotos do Porco: