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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


quinta-feira, abril 29, 2004

Puxei a cadeira e sentei-me. À minha frente tinha um porco enorme, completamente disforme, com o queixo completamente escondido entre as mamas. A cabeça alagada em suor ostentava meia dúzia de fiapos de cabelo gordurentos. Tinha a certeza que de cada vez que eram lavados ele devia sentir a gordura a escorrer-lhe pela nuca e a prolongar-se ao longo das costas. Fechei os olhos e olhei em volta. A pobreza e degradação fizeram-me abanar a cabeça e sorrir levemente.Não demorou nem um minuto até começarem as perguntas. Nome, Carlos Alberto Piçarra Monteiro. Idade, 48 anos. Estado civil, (olha! Foi desta que enlouqueceu...) viúvo. Profissão, neste momento? Presidiário. Não, porra! Mais uma gracinha e vai ter problemas! Profissão, delegado de propaganda médica.

Fui respondendo maquinalmente às perguntas sem pensar e sem saber por que raios me estariam a massacrar. Não sabia, sequer, porque estava ali. É verdade que tinha acabado de matar a minha mulher, mas também era verdade que não ía fugir (afinal, estive sentado na minha cadeira quase três horas à espera que os senhores se dignassem aparecer) e, como não era bígamo, não havia mais nenhuma para matar.

O porco rodou na cadeira, passou a mão pela cabeça e limpou o suor às calças da farda (não vomitei por pouco). Levantou-se e foi tirar um café. Noutra situação teria achado uma certa graça à situação. Se ele sentado parecia um porco, em pé parecia um paquiderme. Cada passada fazia estremecer banha em sítios onde, à primeira vista, julgaria impossível a existência do que quer que fosse. A sala onde estávamos, além de pequena, estava atulhada de móveis e de lixo. Uma deslocação de 10 metros foi por ele realizada como se de um verdadeiro percurso de obstáculos se tratasse. Estou seguro que se ali for colocada mais uma caixa de arquivo o homem vai-se sentir como a personagem príncipal de A Metamorfose de Kafka.

Voltou com o café e continuou com as perguntas. Como matou a sua mulher, a tiros de caçadeira. Quantos, 10. Foi intencional, (não, estava a limpá-la quando me deu uma comichão indescritível no dedo no exacto momento em que ela entrou!) sim. Foi premeditado, sim. Porque matou a sua mulher, por ciúme.

Cuspi a última palavra como se me queimasse a boca. Ainda agora não conseguia pensar nisso. Ainda agora tinha dificuldade em entender. Lembrei-me dela, de quando nos conheceramos, dos primeiros beijos, das primeiras zangas, dos afastamentos cada vez maiores, da primeira vez que conhecera o Pedro. Tinha sido ela a apresentar-nos, eram amigos de infância, a vida deles entrecortara-se ao longo dos anos, ora mais próximos, ora mais afastados, mas sempre ali, sempre perto um do outro.

Quando foi a última vez que teve relações sexuais com a sua mulher, há cinco anos. Por causa da diabetes, não. Ainda consegue ter relações sexuais, sim. Teve outras mulheres, não. Ainda se sentia fisicamente atraído pela sua mulher, não. Então como pode alegar ciúmes como o motivo para ter morto a sua mulher.

Recostei-me na cadeira, pedi-lhe um cigarro, acendi-o, tirei uma longa passa e respondi-lhe calmamente. Os meus ciúmes não eram dela, eram do seu melhor amigo. Eu e ele somos, éramos, amantes. Não sei como, nem quando, nem porquê, mas acho que eles tiveram um caso. Não sei se sim, ou se não, mas quando achei que sim não aguentei e matei-a.

Arrotos do Porco:


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