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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


terça-feira, abril 06, 2004

Alonguei o olhar para além do sol que me turvava a vista e tentei lembrar-me da noite anterior. Apertei os olhos com força e espreitei para a rua. Nada mudara desde que me deitara. As pessoas continuavam vivas, o mundo ainda girava, não me caíra o cabelo e podia estar sossegada que nenhum mal viera ao mundo. Afinal, pinocar com um amigo de infância não era, assim, tão mau.

Também, que raio de ideia! Embebedar-me no enterro, ir para casa do filho da enterrada, fumar umas ganzas (coisa que não fazia desde os tempos do liceu) e, não bastando, dar uma bem dada (a parte do bem dada está sujeita a análise futura que isto da primeira tem que se lhe diga). Mas isso agora pouco interessa. O que tem suprema importância neste momento é o guronsan que está aqui à minha espera.

Só não entendia os porquês e os comos. Tinha alguma dificuldade, sobretudo, em compreender como tinha sido possível. Um amigo de infância serve para sofrer, para me ouvir quando aquele que quero levar para a cama me dá uma tampa, para sofrer calado enquanto eu esvazio a minha alma, não serve, de todo, para sexo.

E, no entanto, tinha sido bom. Não ouve medos nem receios, não tive que fazer conversa, não houve sorrisos amarelos, nem perguntas desconfortáveis. Conhecemo-nos bem demais para não sabermos os pontos fracos um do outro. Se calhar a ideia até não seria, assim, tão estapafúrdia. Talvez fosse possível conciliar uma boa amizade com uma boa cama.

Saí do quarto e espreitei para a sala. Vi-o, de pé em contra-luz, e lembrei-me porque nunca antes o tivera despido. Magro, muito magro, tinha umas orelhas enormes que saiam muito para fora e que lembravam um avantajado par de abanos. Para disfarçar ele sempre usara o cabelo comprido e desgrenhado. Mas as orelhas maciças, vivas, de um orgulho narcisista empurravam os esparsos fios de cabelo para cima e para os lados, lembrando um pano de cozinha mal ajeitado por cima das pegas do fogão. Em vez de as esconder, o cabelo enaltecia-as e chamava a atenção para elas como se fossem um par de néons numa noite escura. Ai filho! Se eu ontem não estivesse perdidinha de todo eu dizia quem é que te tinha batido uma!

Arrotos do Porco:


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