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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


quarta-feira, março 10, 2004

Apertei os botões de punho, calcei os sapatos e fechei a porta do armário. Sentei-me no sofá a beber o café, calmamente, enquanto passava os olhos pelo jornal. Nada de novo, alguém que roubou alguém, mortos, feridos, países destruídos, vidas chacinadas. Se um dia fizessem um jornal onde só publicassem notícias positivas eu seria um homem feliz.

Acabei o café fiz duas chamadas e fui para o carro. Não sabia se havia de ir directamente ou de dar algumas voltas pela cidade. O cheiro do orvalho, o lusco-fusco do amanhecer, os primeiros sons que acordam a cidade; há anos que não acordava tão cedo, já não me lembrava como é bom acordar com a cidade, sair ainda de noite e chegar já de dia.

Passei os portões, apanhei um ramo de flores e sentei-me. Os olhares caídos, as lágrimas escorridas, os abraços, os cumprimentos cerimoniosos, os apertos de mão, a distância provocada pela dor.

Quando ele entrou o silêncio subiu, até eu conseguir ouvir os meus pensamentos, até todos sentirem os seus olhos. As algemas, os polícias, a carrinha cor de pastel na entrada. Nem o corpo, no centro da sala, fora olhado com tanta atenção.

Continuava igual. Os mesmos olhos azuis, os mesmos ombros largos, o cabelo em tons de cinza revoltos. Nada mudara, mesmo o olhar de superioridade e de arrogância se mantivera. Admirei a calma com que olhava em redor como se nada se tivesse passado, como se não tivesse sido ele a premir o gatilho. Aproximou-se do caixão e olhou-o de soslaio como se fosse algo distante que a ele não lhe pertencesse. Cruzamos os olhos e vi-me refletido neles, como quando nos beijamos pela primeira vez. Senti o meu amor e o amor dele, apeteceu-me beijá-lo e dizer que o compreendia, mas não aqui, não agora...

O padre quase tinha um colapso quando sentiu a sua presença. Os olhos piscaram rápido, como se de súbito a intensidade da luz tivesse variado. As mãos rodavam uma sobre a outra, incessantemente, à procura de limpar o suor para que não escorregassem da próxima mão que ele tivesse que segurar.

Para ele nada mudara, sentou-se calmamente, cumprimentou quem para ele olhou, manteve-se sereno mesmo quando o barulho dos sussurros se tornou, insuportavelmente, audível.

Depois de tantos os anos, depois de tantas carícias não entendo o porquê de a matar. Tinha cíumes?! Pois se eu só tinha olhos para ele como seria possível traí-lo? (mesmo que fosse com a sua própria mulher). Foi assim, que eu soube que, mesmo tendo morto a minha melhor amiga, apesar da velhice e dos anos, apesar da diabetes e da impotência, apesar de tudo e de nada eu ainda o amava.

Arrotos do Porco:


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