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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


terça-feira, março 02, 2004

Apalpei as mamas em frente ao espelho como todas as manhãs. Primeiro uma, depois a outra, com calma e com os mesmos movimentos estudados, repetidos por anos de hábito. Verifiquei as unhas, vesti-me e escovei o cabelo (tenho que pintar as raízes). Maquilhei-me, esbocei um sorriso e destribuí beijos pelo ar enquanto ía mordiscando os lábios. Estava perfeito. Arranjei as mamas uma última vez, dei uma volta em frente ao espelho, apanhei as chaves e saí. Mesmo a tempo de sentir os primeiros raios de sol. Fui a casa do Pedro, eramos vizinhos desde que o bairro fora construido. Eramos ainda quase criancas, não nos importavamos com a lama, com os restos das obras, com o cimento ainda mal seco que se colava em todo o lado.

Os anos passaram, as rugas apareceram, os problemas que antes eram divertidos começaram a pesar. As nossas vidas foram mudando, ora nos afastavamos, ora nos reencontravamos com redobrado anseio. A carga sexual do reencontro sempre presente, sempre constante. Envelhecemos juntos. Eu, ele, as elas dele e o meu ele. Embora sem nunca nos termos tocados sentia o corpo dele junto do meu como se a nossa amizade nos tivesse colado. Talvez por isso nunca senti necessidade de o ter dentro de mim. Ele sempre estivera presente na minha vida, na minha casa. Conhecia-me por dentro e por fora, a mim, ao meu marido, aos meus filhos, à minha casa. Não havia segredos, nem mágoas, nem silêncios sentidos.

A amizade infantil, sem o fogo da paixão para a consumir, durara até hoje. Eu sabia que a nossa amizade sempre trouxera o meu ele preocupado, alimentando sonhos tortuosos de paixões escondidas, amores traídos e cenas de sexo em sítios escusos. A ausência de actividade sempre fora uma má influência. A visão, ou desejo, de amores estranhos e negros escondidos de qualquer razão, a vontade súbita pela morte, o turbilhão de sentimentos, as doenças que o atormentavam, tudo isto o fazia ver fantasmas onde antes apenas via vidas.

A noite chegou e com ela voltei para casa, sempre pensando no que os olhos dele me diriam, na raiva sempre presente. Respirei fundo, enterrei as chaves na fechadura, empurrei a porta e preparei-me para os gritos e berros habituais.

Não sei quando senti o vazio em mim, vi o metal, ouvi o barulho ensurdecedor. Vi a cara dele por cima de tudo, em cima de tudo, ouvi o suspiro (o dele e o meu). Porquê? Ele nao podia pensar que eu tinha algo mais que uma amizade! Porquê tanta raiva, porquê tanto ciume. A minha morte não ía seguramente acalmar o mal que ele tinha. As dores não lhe íam passar e o seu vazio ser preenchido. Sinto agora o chão frio colado nas minhas costas, sinto o calor do corpo dele junto do meu.

Arrotos do Porco:


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