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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


terça-feira, fevereiro 03, 2004


O GRAXISTA

Hoje, como tenho obrigatoriedade de pagar os empréstimos vitalícios, deixo para estas alturas de saldos, a “oportunidade” de comprar qualquer coisa para vestir a preços mais acessíveis, tentando rechear o meu guarda-fatos que já por si só, se encontra cheio de tralha ( e roupa ) que normalmente não uso. Podia até aqui debruçar-me sobre as dimensões dos roupeiros embutidos nos apartamentos , e se a sua forma, é adequada às exigências actuais...mas não é esse o tema.

Fui hoje, durante a minha hora de almoço, “ver se arranjava” um par de sapatos, quiça esquecidos por aqueles, que tal como eu, deixam para os saldos a 70% essa impossível tarefa...quando para mais, tenho um pé normal, de tamanho comum e que, por esse motivo não abundam nos “maiores de 44´s” que enchem as prateleiras dos vistosos saldos a + de 50%. Mas não é sobre saldos que eu queria falar...

Actualmente “só me dá” para comprar sapatos de fraca qualidade. Não só, porque não me consigo habituar à ideia de sapatos de sola como, preguiçoso que sou, não me concebo a ter que engraxar este calçado diariamente. Desta forma, compro sapatos de camurça ou algo sinteticamente semelhante que, por serem ( na minha ideia ) desta qualidade, se resignam a se sujarem com facilidade, ajudando-me assim a dar uma desculpa fácil para o não engraxamento da camurça. Mas não...não é sobre sapatos de camurça...

Quando tinha 6 ou 7 anos, não tinha este problema. A obrigatoriedade de ter que usar os sapatos que a minha mãe ponderadamente me escolhia, levava-me sempre a calçar aqueles baixos, normais, de sola, e que, eram normalmente engraxados com aquela lata de graxa preta com uma imagem estilizada de um touro na tampa. No entanto já nesta altura, essa tarefa me era confinada ( era uma das responsabilidades que a minha mãe me doava ). Assim gerindo, preferia guardar alguma da minha mesada ( ou optar pela hipótese de deixar os nervos em franja da minha mãe – pagando -, ao ver o estado limiar dos sapatos ), e pagar ao homem-careca-do-Samambaia ( café do meu bairro ) para me engraxar o “belo sapato”.

- Ah, como eu adorava estar sentado - como os adultos que pausadamente bebiam o seu café e liam o jornal de Sábado - e pousar o meu 36 na placa-metálica-em-forma-de-pé-tamanho-42!

Gostava de sentir os dedos dele a passar uma primeira fase de graxa no exterior do sapato, seguido de uma passagem (que expandia essa pasta ) com um farrapo branco-preto em todo o sapato... culminando com o “êxtase” do pano vigoroso verde que, com fortes e secos movimentos – que faziam um som simplesmente fabuloso – o fazia deslizar com perícia nos meus sapatos, deixando-os com um brilho único.
Todo este trabalho ao meu serviço pelo preço de uma única moeda, que não me tinha custado nada a ganhar...Para quê então o esforço de engraxar sapatos, pensava já eu sabiamente nesta altura?

Actualmente o senhor-careca-exgraxador-de-sapatos ainda lá faz um pezinho de dança aos Domingos. Porém, e apesar de continuar a ser um frequentador assíduo do Samambaia ( gosto de ler o jornal e beber o café antes do almoço de Domingo ), e como uso sapatos de camurça, já não lhe requisito os serviços, ( apesar de me dar um saudosismo muito especial daqueles momentos )...até porque a moeda de 1 euro que cobra hoje me faz falta, para ajudar a pagar todos os empréstimos que tenho!

Arrotos do Porco:


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