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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


quarta-feira, dezembro 31, 2003


Consultório do Prof. O'belo

São 17:00 do dia 30 de Dezembro de 2003. Ainda ecoa na distância o canto triunfante dos media, a propósito do "sucesso" da Operação Natal da GNR. Menos acidentes, menos mortos, menos feridos (por igual, entre graves e ligeiros). Vejo, porém, no meu coco de cristal, que a Operação Ano Novo fiará bem mais fino. Caso o tempo que pelas bandas da capital vigora desde a hora do almoço - a típica chuvinha "molha tolos" que me deixa ensopado - se estenda ao resto do país, vamos ter tons bem mais graves nas apreciações dos jormais.

Espero para ver e me pronunciar sobre este meu pessimismo antecipado.


E pronto...

É a puta da vida. O que é hoje, não é amanhã. Um dos gajos mais assíduos por estas bandas, após ter ficado viciado na companhia de quem frequenta esta taberna de qualidade duvidosa, vê-se privado de prolongar a sua condição de postador esporádico e comentador assíduo. Rejubilem, seus cabrões, que não perdem pela demora!
Inverter-se-á a posição, assim espero: passarei à condição de comentador quase ausente e postador frequente, para mal dos vossos pecados e da língua de Camões. Veremos o que o futuro me reserva.
Obrigado a todos os que passaram por aqui e por aqui, com os quais tive o prazer de passar animados momentos. Rir sózinho e em frente a um monitor, era coisa que não me passava pela cabeça poder fazer um dia.
Até breve!

Cumprimentos amistosos - e já saudosos - deste vosso amigo

Papa


terça-feira, dezembro 30, 2003

BALANÇO CONSOLIDADO DE 2003

Raios me partam se 2003 não foi um passo decidido no caminho para um mundo melhor.


sexta-feira, dezembro 26, 2003


Alambridatia, 2

- Sabes...
- hummm... o quê?...
- Não conheci mulheres suficientes para ter por certo isto ser do teu agrado.
- Como? Que história é essa de mulheres suficientes?
- Estarmos aqui é o resultado de um processo indutivo. As poucas a quem eu o fiz, gostaram. Logo, tomei-o abusivamente como um sinal de que a generalidade do sexo feminino gosta.
- Errrr... é uma coisa esquisita para tu te lembrares agora...
- Mas não é tudo. A maioria toma esse conhecimento fragmentário de cada um, amalgamado num certo ideário masculino, como se de uma generalidade se tratasse para concluir o mesmo por um processo pseudo-dedutivo, ferido nos pressupostos.
- Tu estás, realmente, a pensar nisso agora?
- Sim. No fundo, a lógica não é nossa amiga, nestes momentos.
- Então deixa-me ajudar-te. Se eu fizesse fé no amalgamado ideário feminino, deduziria que, apesar de tudo, tive muito azar contigo. Se, por outro lado, usasse o teu exemplo particular, seria obrigada a induzir que os homens não sabem lamber e comprava um cão. Sai lá, que me estás a babar o sofá.

terça-feira, dezembro 23, 2003



Pois é...este é o meu cartão de Natal...à minha maneira, e representa aquilo que o Natal também vai ter de bom este ano de 2003 - a Vara do Porco! A todos vocês, e aos outros, desejo um Bom Natal!


Feliz Natal, Feliz Ano Novo.







segunda-feira, dezembro 22, 2003


Alambridatia, 1

- Espera...
- (arfando...) O quê?...
- Espera um pouco. Esta luz de fim de tarde...
- Queres correr os estores?
- Não. Mas a forma como incide assim, oblíqua e terna, no teu peito...
- Malandreco... eu também gostava muito que me desses mais atenção ao peito. Mas não pares, porra, continua...
- Não é nada disso, querida. Mas o teu peito desenha-se com um vigor todo novo a esta luz. É uma deusa que se ergue imponente quando as sombras invadem a terra. É uma nova religião que a mim se revela.
- Oh pá, pul'amor de Deus... continua mas é, não sejas mau...
- Mau? A tua silhueta prostra-me, em respeitosa devoção. É um momento mágico e dolorosamente eterno. Uma epifania.
- (suspirando) Uma epifania não direi. Mas se queres mesmo rezar, então contenta-te com uma epiveania, que já me tiraste a vontade...



O NÃO TEMA

Custa-me chegar às 3 horas da tarde de segunda-feira, depois de um bom repasto no tasco do Sr. Joaquim – as costeletas estavam um bocado secas! -, e de um café por 60 cêntimos no Café Santa-Cruz na Praça 8 de Maio, no meio das pombas-bichos e das outras pombas que agora não param de andar de loja em loja à procura da 28º prenda para oferecer ao primo da amiga...mas como ia a dizer custa-me que ninguém se digne escrever um post sobre alguma coisa!

Em conversa com o Papa, através do Messenger ( aquele programa do gajo azul, que só “mostra" do tronco para cima ), e após grandes explicações e teorizações sobre a “suposta” falta que ele nos irá fazer aqui no Porco ( feitas por ele..é lógico! ), dei-lhe a escolher um tema para aqui fazer uma dissertação genial – mais uma, é claro! – e, deixar para trás as “Traduções das Sextas do Vareta” – andamos a pensar propor ao Ministério da Educação, a sua integração nos manuais de Inglês, logo a partir do 9º ano, já que possuem um claro carácter didáctico!

Papa, depois de muito pensar...teve para aí uns 4 minutos e 36 segundos, com um “hmmmm”, atirou ao seu melhor nível:
“sei lá, caralho”

E pronto...a partir daí surgiu a ideia de dissertar sobre:

“A dificuldade de escolher um tema, quando pomos de lado a temática do Natal e, após terem descoberto o Pai Natal Saddam, dentro de um buraco!”
ou

“A dificuldade de escolher um tema, quando não quero voltar a falar do défice, nem dos aumentos de 2,5% para o ordenado mínimo propostos pela Leite para o próximo ano de 2004”, ou ainda

“A dificuldade de escolher um tema, quando existem 200 acidentes, 28 mortos, 46 feridos em estado grave...em 5 dias, nas estradas portuguesas”, ou mesmo

“A dificuldade de escolher um tema, quando não se tem tema nenhum para escrever, mas ... quando prefiro que deixem de comentar num post com um pôr-do-sol ou lá o que é aquela merda, quando são ainda 15.20 da tarde, e começamos o Inverno ontem...”

P.s. – O Papa, vai fazer uma falta aqui ao Blog, como uma viola num enterro! – palavras dele!

sexta-feira, dezembro 19, 2003

E PORQUE HOJE É SEXTA...

...não partiria de fim-de-semana com a consciência tranquila se não vos deixasse uma qualquer sugestão de actividade lúdica. Hoje, homenageio um nome grande, um nome MAIOR, um nome incontornável, um nome inultrapassável... ou não, dependendo dos gostos. Hoje, tenho a honra de traduzir, livre e modestamente, David Sylvian.




A Fire in the Forest

There is always sunshine
Conheço-te quase tão bem como me conheço
Above the grey sky
E mesmo quando chegas a casa com a neura
I will try to find it
Há sempre uma forma qualquer de te animar
Yes, I will try
E de te deixar prontinha para o "grande combate"

My mind has been wandering
A partir daí, nem tenho que me esforçar...
I hardly noticed
É como tu dizes: "é a minha cama, é o meu show!"
It's running on its own steam
Não sei se a vizinha achará grande piada - a parede é de tabique
I let it go
Mas a vizinha também é tua e eu faço-te a vontade
Oh here comes my childhood
Tu fazes de aluna e eu de "setôr"
A penny for your secrets
Eu repreendo-te e ralho-te e enxovalho-te e tu vais corando
It's standing in the window
"Ó setôr, eu só estava a olhar pela janela..."
Not out here where it belongs
E com esta frase-código lá vais tu ao castigo

There's a fire in the forest
Houve uma vez em que deixaste as meias de nylon em cima do aquecedor
It's taking down some trees
E eu admito que exagerei na vergastada
When things are overwhelming
Mas tu, mesmo assim, pedias mais e com mais força
I let them be
E eu dei
I would like to see you
Dá-me um certo gozo ver-te com as nádegas bem vermelhas e fumegantes
It's lovely to see you
Mas ainda te dá mais gozo a ti, o tareião
Come and take me somewhere
Depois revoltas-te e assanhas-te
Come take me out
E vingas-te em mim - o que é bom...

There is always sunshine
Portanto escusas de vir com merdas de que te dói a cabeça
Far above the grey sky
Que eu sei que tu gostas disto tanto ou mais do que eu
I know that I will find it
Hoje até comprei uma raquete de ténis-de-mesa
Yes, I will try
E tenho a certeza que vais querer experimentar...

David Sylvian, Blemish



RANKINGS

Nesta coisa de rankings, já dizia o outro, nada importa...mas importa tudo! Ou quase tudo...ou quase nada!Ou nada...
É um facto indesmentível que nunca fizemos publicidade ao Porco! Não porque existam leis quanto a este assunto (internas, ou qualquer merda do género ), mas simplesmente porque assim aconteceu!
Aliás, é preciso esclarecer e dar a conhecer os motivos de existirmos! Achámos que sim... E á pergunta “Porque não?”, respondemos com um “Bora lá!”.
Arregassámos as patas ao porco, e chafurdámos na lama das nossas cabeças, à procura das melhores palavras para falar sobre os nossos ( e dos outros ) estados de alma!

Não incutimos ao Porco, qualquer carácter temático...chama-se Porco, porque sim...Aliás, a política do porque sim, é manifestamente positiva! Um qualquer idiota teve essa ideia, e os seguidores – qual vara – decidiram enveredar pelo mesmo registo.

Se, em jeito de balanço, o Porco é aquilo que queríamos?Respondo com um rotundo: Não.
Nós não queríamos nada..continuamos a não querer, e penso, que não temos maiores desejos do que passar um bom bocado neste canto blogosférico!Se nos puderem ouvir...melhor! E acabou por acontecer exactamente isso! Sem, e mais uma vez ressalvo, qualquer tipo de publicidade...apesar de não ter nada contra aqueles que a fazem!
Fomos acusados algumas vezes de sermos um grupo fechado! De facto, à primeira vista isso poderá transparecer...mas, todos os visitantes que agora são peças importantes na vara, viram por algum motivo ( qual?não sei ) abertas as portas desse círculo ( para mim, é mais um C, porque não o entendo como fechado...mas pronto! )!

Em jeito de balanço, e porque gosto de números, tenho a fazer algumas considerações meramente estatísticas e referenciais que, de nenhuma maneira, pretendem entrar em polémicas ou confusões. São factos...se pretenderem argumentar, é para isso que têm – neste blog – um espaço de comentário.
São números referentes ao dia de hoje ( e na altura que faço o post ), e dos dois Centros estatísticos que possuímos!
Através do SiteMeter – porque é aquele que é referenciado na Technocrati -, temos desde Outubro 5.152 visitantes, dando uma média de 118 visitantes por dia. O tempo médio de visitantes é de 9 minutos e tal...Já o número de páginas vistas por cada um é de 2.1. Por dia, vêm-se 250 páginas!

Ou seja, temos 118 “porquitos” a visitarem-nos diariamente ( e pelos dados da Bravenet, 20 e tal são novos visitantes ). Já é uma vara considerável, penso eu de que...Depois, encostam-se ao balcão, e em jeito de tasca, ficam 9 minutos a beber um tinto e a chafurdar com os semelhantes - 9 minutos por cada copo...leia-se!
Quanto ao número de páginas, existem aqui dois aspectos importantes: aquele que nos agradaria (ilusória?), era pensar que os visitantes vão aos arquivos porque sentem esse desejo; o outro, real, é a quantidade de refreshs que se fazem, ou porque a Blogspot se anda a passar, ou a Enetation anda a vender o corpo. Dos dois um, ou os dois em simultâneo, o que é certo é que esta última hipótese é quanto a mim bem mais verdadeira...

Por fim, realço alguns dados meramente comparativos com o Top da Web Log.
Meus amigos, e em jeito eleitoral – estamos no final do ano, e não sabemos se vamos renovar o mandato para 2004 – afirmo aqui, neste local, que estamos no TOP 25 ( tive que anunciar este facto hoje, porque me parece que aquilo anda marado, e por isso temos que aproveitar o facto...a nossa posição habitual é a 28ª ). Hoje, somos a 15ª potência blogueira nacional ( inscrita através do Sitemeter, mas isso não é relevante! ), ou lá o que isso tem de interessante! Estamos à frente de blogs no Terceiro Anel ( o que pessoalmente me apraz a visão! ) mas à nossa frente encontra-se um anarquico constipado!

É de realçar que Blogs como o Abrupto, o Gato fedorento, a nossa amiga Bomba, Barnabé, Marretas, etc, não se encontram no Top25 ( hoje! ). É por esse motivo que digo que isto deve andar meio avariado...E então?A culpa da avaria é nossa?

No número de páginas visitadas, encontramo-nos em 13º logo atrás de um blog de um anônimo frique brasileiro mas a uma distância de uma gripe!

De realçar que, no campo estratégico dos In e dos Outbound links, o Abrupto e o Gato Fedorento passam o PIPI. É também hoje, um dia de celebração para eles!

Estando a Technocrati avariada ou não, uma coisa é certa...estivemos por um dia, sem conscientemente fazer por isso, no TOP25 desta coisada toda! O Vitória de Setúbal, apesar de jogar na segunda liga - como nós-, também foi herói por um dia...Nós somos hoje!Vamos celebrar! Quanto mais não seja, porque amanhã é fim-de-semana...




quinta-feira, dezembro 18, 2003


...e não se pode abortá-los?

Há uns anos foi usado em Portugal o perigosíssimo instrumento do Referendo para aquilatar da sensibilidade do povo a uma matéria tão melindrosa quanto o era (e é) a despenalização do aborto. Na altura, o debate decorreu entre dois campos formados à pressa: de um lado os fundamentalistas cristãos e o seu maniqueísmo rançoso - "se não são contra o aborto não acreditam em Deus!" - e do outro as supostas consciências livres, que na verdade eram uma sopa pastosa e, mostrou-o o resultado do debate, tão nauseabunda quanto a primeira.

A questão do aborto per si tem duas vertentes claras: uma técnica, da responsabilidade dos cientistas, e outra psicológica, eminentemente feminina, e que tem a ver com a dimensão materna que é exclusiva das mulheres (sem prejuízo dos esforços trôpegos masculinos de macaquear coisas que, na realidade, não lhes estão geneticamente inscritas). Destas, tipicamente, se ouviu muito pouco. A relevância social do aborto foi abordada, sim, mas abafada pelos gritos histéricos de "assassinos!" (de um lado) e "obscurantistas!" (do outro).

O resultado é o conhecido. O povo preferiu a praia, o cinema, os centros comerciais, etc., e cagou no referendo. Os poucos que se manifestaram fizeram-no maioritariamente a favor da penalização do aborto. Independentemente das interpretações legalistas que se possam fazer deste resultado, a verdade é que ganhou o "não", e esta vontade popular tem que ser respeitada. Análises interpretativas não passam de poeira no ar e uma fraca tentativa de sacudir a água do capote por quem devia ter acautelado a seu tempo a abstenção e não o fez.

Temos agora um "consenso" a adivinhar-se no horizonte, a propósito da descriminalização do aborto. De repente, toda a gente acha que é feio e desumano perseguir judicialmente as mulheres que entendem ter que se submeter a essa tragédia e que, por tal, não devem ser consideradas criminosas (com a consequente pena de prisão). Passa o aborto a contra-ordenação, e a sua prática sujeita a multa.

Esta é a formulação falaciosa que nos oferecem. Porque a realidade é outra: o que passa a contra-ordenação e sujeito a multa é o aborto clandestino. Ou seja, não se investiu no planeamento familiar, na educação sexual nas escolas, na criação de estruturas de apoio a mães solteiras e/ou adolescentes, na expedição dos processos de adopção, na assistência social, no licenciamento e fiscalização de profissionais para exercer a actividade, não se criaram clínicas ou outros instrumentos de saúde pública apropriados, etc., etc. Aplica-se uma multa e está tudo bem. As 11.000 mulheres que foram assistidas no Serviço Nacional de Saúde o ano passado por complicações surgidas após um aborto clandestino vão continuar a tê-las, mas vai deixar de ser crime. Delas, pelo menos, que das responsabilidades criminais dos políticos, que tratam com os pés a dignidade humana, ainda ninguém fala.

Depois de 2% a mais de IVA, do estacionamento pago, do 1/2 cêntimo na gasolina, nisto, naquilo e naqueloutro, prepara-se esta classe política que temos para criar mais uma fonte de receita na taxação encapotada de uma matéria de consciência tão trágica quanto esta. Não se pode abortá-los, rectroactivamente?

quarta-feira, dezembro 17, 2003

FOI EM AGOSTO QUE TE CONHECI...

Depois deste ano, não sinto que passámos dois desde a Mais Louca Odisseia no Espaço. Estamos em final de ano, e como todos os “tascos” que se prezam, pede-se que se faça um balanço em jeito de Bom Natal e Bom Ano.

Foi a 26 de Agosto, esse célebre dia, orgulho de todos os portugueses e portuguesas, que Vareta, se levantou do sofá onde trabalha, e decidiu proclamar estas palavras que ficam ( enquanto a BlogSpot não for ao ar! ) para a posteridade:

“Eis mais um blog. Ou blogue. Ou blogh. Ou blergh. Chamem-lhe o que quiserem. Eu, cá por mim, chamo-lhe "Porco" - é uma questão de disciplina...”

Já nessa altura, o Porco arrotou 30 vezes ( a contar com os 48 comentários de um homo ). Papacrycas ( que decidiu - e a meu ver bem - encurtar o nome, após um puxão de orelhas de sua mãe, por andar a escrever obscenidades ), em jeito de comentário, dá o seu melhor:

“boaaaaaaaaaaaaaaaa”

Até hoje, não entendi...
Depois, decide borrar a pintura e proclama que:

“É com enorme prazer que inauguro aquele que será o melhor blog do mundo... e arredores!
Que seja o início de um blog que ficará para a história.”


São alturas de ilusão, meus caros, esta porque passou este jovem Papa, mas que são inerentes a alguém, que ainda está a começar uma vida, e que obviamente tem ainda pretensões de alguma coisa! Vamos a ver se não são vãs..como o outro!

Como não se calava, Manuel decide intervir, optando por assinalar que poderia ajudar em tal tarefa...aliás, reforçou a ideia logo a seguir! De notar, que já nesta altura a Enetation - leia-se puta - decide demonstrar que estava ali para nos moer o juízo e que, deveríamos festejar calorosamente este dia porque...piores dias viriam!E foram... ( alguém sabe onde anda este gajo? )

Menir, perfeitamente histérico, grita e saltita palavras que são parte do seu vocabulário diário: “Eis-me. Iupi.”
Entre outras, fala do Ministro da Defesa, mas já nesta fase, todos sentimos e soubemos, quem era o “homem” por trás da barbicha!

Chimmer, com a sua habitual coloração, estranha o facto desta casa, ser um curral um pouco mais “trabalhado do que os que costuma frequentar”...chamou-o de “chique”. E continua...

mimosa – esse génio! – no seu jeito humilde, escreve umas palavras num papel. Decide reler e "tratar o português", e depois de muito suor, sai-lhe já o seu proverbial “Foda-se”. Ao qual acrescenta...” É só VIPS nesta merda!
Isto não é para mim..até me esqueci de limpar os pés antes de entrar...da-se!”

São palavras que marcaram, e marcam esta geração...

Vou-te ao pipi, um renegado do blog de onde todos “nascemos”, faz já uma antevisão daquilo que todos sabíamos:

“Eis que se (a)funda o melhor blog jamais criado!
Assim as nossas conversas podem ter repercussão a nivel mundial...”

O porco cá continua, e após umas aulas de natação pagas pelos associados, cá vai...boiando.

Estounua, essa musa desnuda, inspiradora dos porcalhões, ao bom jeito de Papa, diz:
“Uff...!”
já nesta fase, pretende declaradamente encetar uma relação com o tal de Varetinha, chamando-o de “amigo”! A meio já desenvolve um “Cada vez gosto mais de ti!”, e mesmo a fechar o seu comentário, enceta o contacto físico através de “Abracinhos”. Coisas de gajas...

Vagina Dentada, ao seu estilo escreve:
“VaretaFunda, saudações ortodônticas ao teu metonímico blog.” – se alguém aqui me puder explicar o que quer dizer ortodônticas e metonímico...eu agradecia. É que com o tempo, aprendi aqui o que quer dizer saudações e blog!

Zé CT, no seu jeito malcriado, pede para entrar. Ora essa...o tasco também é seu! Fizemos-lhe vários convites, insistentes, para postar...até hoje!Gosta de se fazer difícil...enfim, feitios!

Tivemos posteriormente a contribuição de um(a) Lu ( que por vezes ainda aqui espreita ), do Ronaldo Garcia ( antes de ter ido de vez para o Alverca )...e, já muito depois surge fininh0 – essa figura incontornável da Blogosfera – que nos realça e suplica, que gostaria que as suas tendências sexuais fossem implementadas neste blog. Em conversa privada, expliquei-lhe que este blog não referenciava esse “costume”, mas mesmo assim, faz uma jura de sangue, e promete ficar por aqui para todo o sempre.

Foi assim o primeiro... e parece que não passaram 4 meses após esse post. Depois vieram outras – palavras - e outros – visitantes -...alguns deles, deixados na prateleira do “tasco” ( ambos ) e que, só por obra do acaso, são novamente lidas e relembrados. A todos eles, às palavras e às personagens...o nosso obrigado!

terça-feira, dezembro 16, 2003

De onde vem esta escuridão tão toda?


Acabo de almoçar e é de noite e eu sei que é um exagero mas o sol cai antes da primeira garfada enquanto analiso com fome o tempero e o sol foge de mim mas devia era brilhar na ponta dos meus dedos sem deixar marcas só que nada acontece e nos meus dedos debaixo das minhas unhas brincam farpas mas é com as mãos que eu vivo, escrevo, agarro, aperto um livro, renego o incómodo que é pouco mas é insistente renego a tendência para o abismo para o fundo do poço que só aparece quando acabo o almoço quando o sangue deixa a cabeça e os ouvidos e os meus olhos feridos defeito congénito o sangue sempre ele instala-se perto das costelas derrete destrói a comida transforma-a em vento para as minhas velas eu ando numa dança de loucos eu não consigo eu ando a poupar no oxigénio eu ando a ver demais a interpretar demais a cansar-me demais os bolsos e os braços cheios de receio eu não quero eu não vim ao mundo a passeio ainda que eu não veja bem as cores eu devia rir e cuspir nos meus terrores eu quero andar à vontade e descalço nos cacos de vidro no fogo nas brasas tudo o que não serve só atrasa eu olho para os meus dedos mas eles parecem garras.


Aveiro hoje é palco da Sagração da Hipocrisia.


O país assiste à humilhação de várias mulheres transformadas em criminosas e julgadas publicamente. As provas foram obtidas através de escutas telefónicas, fotografias e exames ginecológicos feitos à saída da clínica. Logo após o aborto. Para que não restassem dúvidas. Humilhando e invadindo a intimidade das mulheres.

Quem condena o aborto nunca teve de o fazer, não ouviu quem fez, não sentiu a dor da decisão.

As mulheres estão todas sentadas no banco dos réus, hoje, em Aveiro.
Todas não!
Existe uma classe de mulheres que não fazem abortos. Fazem viagens ao estrangeiro. Vão às compras a Paris. E fazem curas de sono em Espanha.

Protesto contra esta lei vergonhosa. Protesto contra este governo hipócrita. Protesto contra esta sociedade retrógrada.

Hoje sou um ser humano envergonhado, uma mulher revoltada.

segunda-feira, dezembro 15, 2003



De orelhas em pé - VIII

Saddam Hussein foi arrancado de um buraco pouco maior que um frigorífico, onde se escondera junto com uma mala contendo 750.000 dólares. As imagens largamente difundidas pela coligação responsável pela sua captura mostram um homem acossado e triste. É a prova que faltava: o dinheiro não traz a felicidade.

Teresa Nogueira, da secção portuguesa da Amnistia Internacional, defende (e bem, digo eu) que o homem devia ser entregue ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Segundo ela, é a garantia de que o ex-ditador será punido, através de um julgamento que respeite as normas do direito internacional. Ora, sendo bem verdade que a asneira se encontra ainda despenalizada no nosso país, chamo daqui humildemente a atenção da referida senhora, que parece esquecer-se de algumas normas do direito internacional, a saber:

- Apenas os culpados são punidos;
- Todos os suspeitos são considerados inocentes até trânsito em julgado de sentença que os culpabilize.

Apresentar Saddam ao TPI é um passo imprescindível para que ele seja julgado com a isenção e transparência que deve caracterizar os agentes do direito internacional. A mesma isenção e transparência que podem, eventualmente, absolver Saddam. Se a sra. Teresa Nogueira pretende estas garantias, o TPI é o caminho a levar. Se pretende, apenas, punir Saddam, deixe-o ficar com os americanos. Ainda deve haver espaço em Guantanamo.

sexta-feira, dezembro 12, 2003

SUGESTÃO DE FIM-DE-SEMANA



Para este fim-de-semana, a sugestão parte de David McComb, esse genial australiano que liderou os The Triffids de tão boa memória... A sua morte trágica foi uma perda para a música dos nossos dias - dos meus dias, pelo menos. A tradução livre é deste vosso criado.

Fairytale Love

In an earlier time, in a green land above
Há uns anos valentes, na Mata Nacional dos Sete Montes
By the mill and the willows we made fairytale love
Perto da Charola, sob os salgueiros, eu montei-te à canzana
With the sky a warm blanket, and our backs to the rain
Era uma noite de Verão abafada, com uma chuvinha manhosa
We thought that our pleasure would always remain
E nós estávamos confiados que, com os portões da Mata fechados, podíamos ficar à vontade

No blemish of lust, flesh unfreckled by sin
Tu aguentavas-te bem à bro(n)ca, sem sangrares nem te queixares
A heart made like clockwork, white marble for skin
"Continua!", dizias, pálida, "Já estou melhor da angina de peito!"
Still waters green pastures, with one caress of your hand
A água do fosso da Charola cheirava a purgueira e tu, só com uma mão
I swear even the wild dog lies down with the lamb
Te apoiavas no chão, enquanto a outra apertava o nariz

We thought that our pleasure would always remain
Pensávamos que tínhamos a Mata e a noite por nossa conta
Soft fairytale kisses again and again
E quando acabámos a primeira começámos nos beijinhos como aperitivo para a segunda
The last moment we touched, by the river you shone
Quando os motores já roncavam, fomos apanhados por uma lanterna
The black swan spread its wings and hissed
O cabrão do guarda da Mata andava na ronda
lo! the night came on
"Quem é que está aí?!", gritou o filho da puta

In an earlier time, in a green land above
Foi há uns anos valentes, naquela Cerca conventual
By the mill and the willows we made fairytale love
Com a água fétida do fosso e o sussurro das árvores e uma tesão do caraças
With the sky a warm blanket, and our backs to the rain
Despidos, à noite, com chuva, a roupa em montes e a cheirar a mofo
We thought that our pleasure would always remain
E o pulha do guarda a fazer-nos fugir

The Triffids, Black Swan



Ehhh! Natal! Ehhh!



Com o passar dos anos, foi decrescendo o gosto que nutria pela quadra natalícia. Tornou-se maçuda, triste e deprimente, não me perguntem porquê. Sempre tive tudo o que quis, nunca me faltou nada, nem mesmo porrada. Nunca tive jeito - nem dinheiro, diga-se - para oferecer prendas. Só para as receber, desembrulhá-las à bruta e rasgar o lindo papel de embrulho que as envolvia. Sempre achei uma paneleirice pegada tentar descobrir os presentes sem rasgar o papel. Equiparo isso a tentar malhar uma gaja sem lhe tirar as cuecas.

Para ser sincero, nunca achei muita piada ao Natal para além das ruas decoradas, o cheiro a castanhas assadas que as preenche, as já referidas prendas, a abundante doçaria e o belo pinheirinho reluzente no canto da sala onde o gordo barbudo deixava as oferendas à socapa. Bem que eu me punha de plantão a ver se apanhava o gajo em flagrante, mas à mínima distracção, uma rápida ida à casa de banho e já as putas das prendas lá estavam, bem arrumadinhas junto ao vaso que sustentava a linda árvore. Nisto, pensava cá p'ra mim: "Se esta bola de unto for esperta, começa a vestir-se de preto da cabeça aos pés, muda o nome para Luis de Matos e um dia ainda vai inaugurar o 2º maior estádio de Portugal". Já naquela altura eu era um tipo com visão.

Procurei uma explicação para o sentimento melancólico que o Natal provoca em mim, e ocorreu-me o facto de, na escola primária, me terem obrigado a decorar os nomes de todos cabrões dos Reis Magos. Também os cânticos e as missas natalícias eram uma estopada, só superados pelo mítico e enfadonho Natal dos Hospitais, onde se torturavam velhinhos com espectáculos deprimentes.
O que eu queria mesmo era arrancar as pernas ao He-Man, atirar o carrinho da Matchbox do 1º andar e saltar a pés juntos para cima do Tragabolas. Recordo que me ofereciam muitos Playmobil, por serem aqueles que acabavam por durar mais tempo. Assumo, não era tarefa fácil partir aquela merda, pá.

Posto isto, e uma vez que sinto um atropelo de nostalgia - não por causa do Natal em si, mas pelo regresso à infância -, resolvi escrever uma carta ao Pápái Nó Éu:

"Querido Pai Natal

Tenho andado todos estes anos preocupado contigo pois desde 1982 que deixaste de me visitar. Às vezes penso que morreste ou que ficaste entalado nalguma chaminé mais estreita, mas depois vejo-te na televisão em todos os canais. Outra coisa que não percebo é por que carga d'água é que na TVI estás sempre mais gordo e baixo do que na SIC.
Enfim, suponho que não venhas a ler esta carta, pois vi num anúncio que agora já só as recebes por e-mail. Se eu apanhasse o teu endereço, estavas feito comigo! Adicionava-te ao MSN e cravava-te prendas todo o ano, que te fodias! Assim, já não tinha que penar até Dezembro à espera da noite de 24.
Ah, já me esquecia, diz lá aos cabrões dos duendes que trabalham para ti, que a Barbie que a minha irmã recebeu há 21 anos vinha com defeito. Aquilo não trazia a... como é que eu hei-de dizer-te isto... a pomba! Sabes? E agora já deve ter passado a garantia. Agradecia que a recompensasses este ano.

Ao contrário do que é habitual, este ano estou pouco exigente e muito altruísta. Para além de uma vivenda enorme - pode ser uma igual às dos GNR's de Albufeira -, um BMW topo de gama e um par de sapatos italianos, gostaria que fizesses algo por alguns dos meus amigos. É para o bem deles, coitados.

Para começar, podias abrir os olhos - todos os que forem necessários para o efeito - ao Menir, para que ele suprima, de uma vez por todas, o nome de "Belo". Para alguma coisa há-de servir, ter passado a puta da infância a ouvir a minha mãe dizer que é feio andar a enganar as pessoas; para o Vareta, podes arranjar um pouco de modéstia e um emprego onde aufira um ordenado decente. E que trabalhe, se necessário; quero que dês uma tanguinha de fio-dental à Estounua para ela não passar mais frio no rego, coitada, e a inscrevas como militante do PP; providencia umas aulas de "Etiqueta e Boas-Maneiras", com a Paula Bóbó, para o malcriadão do Zé cutivo; para o Zeca Galhão, podes mandar embrulhar o traseiro da Anita para ver se o homem se acalma um pouco; para o ano que se avizinha, gostaria que o Armando Moreira e o fininhO se entendessem de uma vez por todas e dessem o nó.
Gostaria, também, que o mimosa fizesse mais greves, que isto aqui tem sido um descanso.

Obrigado
Papa"


___________________________________________________________________
*Aproveito esta ocasião para desejar um óptimo Natal a todos e um grande 2004, assim a Manuela Ferreira Leite o permita.



ACADÉMICA - UM CLUBE UNIVERSAL

Faz hoje, dia 12 de Dezembro precisamente 3 anos, que acumulei mais um parágrafo ao texto das lições de vida, que vou empilhando e guardando, e que, na minha “máquina especial” reciclo em experiência.

Passo a contar a história:

Eram para aí umas 2 e meia da manhã ( nunca lá andava de relógio ), e após festa bem “regada” num apartamento de estudantes que estavam a fazer uma espécie de Erasmus em Salvador, decidi enfrentar aquele papão “da falta de segurança”, e ir a pé para o tal apartamento ( o sujo e quente…a 10 metros da praia! ) que tinha alugado. Estava farto do convívio! Não tenho paciência para karaokes e sobretudo, estava a estranhar as pessoas comunicarem-se num estranho alemão-sueco-espanhol-italiano... inglês..no Brasil.

Decidi, incosnscientemente, pôr-me no meu passo apressado mas descomprometido, e tentar orientar-me até ao Porto da Barra. Havia táxis…mas decidi ir a pé, ora essa…”É já ali”!
Uma pessoa quando está alcoolizada, para além da confiança que ganha, encurta por completo as distâncias...Não sei quanto andei…mas, numa das ruas por onde passei, esbarrei ( este é o termo ) contra um supermercado aberto 24 horas. Como não tinha nada para beber em casa – lembrei-me desse pormenor naquele preciso momento em que me recompunha do estoiro!-, e porque faziam 37 graus nesta altura ( à noite! ), decido entrar e com uns reais, comprei uns iogurtes, sumos e água.
Com uns sacos brancos ( não sei o porquê de me lembrar da cor dos sacos! ), e com uma melhor orientação ( após balbuciar o nome da rua ao empregado do supermercado ), coloco-me determinado, em direcção ao porto.

Marchava eu maquinalmente no passeio do lado contrário ao apartamento, e quase que choco com um grupo de miúdos que dormiam em cima de uns cartões de papelão, daquele que é reciclável, e que costumava usar para fazer maquetes. Não consegui ver a cara dos “nêguinhos”, mas, entre a sombra dos cartões, deparei-me com uns olhos brancos que me seguiam…

Instintivamente, e até hoje não me lembro como é que me surgiu a ideia, perguntei-lhe se queria beber qualquer coisa ( a palavra bebida era a constante da noite! ). Ele respondeu:

-Está falando comigo, tiô? ( vou tentar imitar na escrita, o estilo bahiano! )
-Estou, pá…queres uns iogurtes?
-Iogurte?Pôxa tio…é lêgau!

Disse-lhe para esperar à porta de entrada do prédio. O “nêguinho” não tinha mais de 6 anos, cabelo rapado, magro, de sorriso reguila…mas até hoje, não vi miúdo de Salvador com olhar mais expressivo.
Fui a casa, e trouxe-lhe garrafas de sumo, e todos os iogurtes que tinha comprado. Aliás, lembrei-me na altura que nem tinha olhado para os sabores…e eram todos de côco. Detesto iogurtes de coco!

-É tudo para nós, tiô?

Disse-lhe que sim, e ofereci-lhe uma T-shirt que tinha da Associação Académica de Coimbra. Era muito grande para ele, mas enfim…também só faltava conseguir "medir" o puto naquela fase! Ele agradeceu...

Subi, e abri a janela do quarto. Estava um calor insuportável! Liguei a ventoinha, e fui até à varanda, ver se apanhava ar. Bem que precisava! Estavam todos os miúdos acordados…eram cinco. Bebiam deliciados os iogurtes. O puto, o tal, olhou para mim, e sem dizer nada, sorriu e fez com os dedos o sinal de “légau”! Tive a consciência que estava mesmo no Brasil…acho que era a primeira vez, apesar de estar lá há dois meses.

Ao outro dia, depois das 5 da tarde ( quando chegava do trabalho que estava a realizar ), fui a casa mudar de roupa e calçar uns chinelos de dedo. Atravessei a estrada e fui dar um mergulho. A praia era ali.
Depois de me deliciar naquele mar sem ondas, aluguei uma cadeira por 1 real ( na altura eram 100 paus!, e desta forma, poupavam-me o roubo de uma toalha ). Sentei-me…e depois pedi uma água de côco ( água de coco, já gosto! ). Veio alguém ter comigo que não tinha visto até então, e trouxe-me a bebida…Como só tinha 1 real ( custava ½ ), disse-lhe para ficar com o troco.
Ele disse que não queria! Fiquei estupefacto!"O que é que os meus reais, têm? - pensei!"

-Porquê, pá?
-De você, tiô…não quero mais nada. Jamais! Nunca mais me vou esquecer daquele sabor do iogurte, que você nos deu ontem! Eu não estava dormindo…as crianças da rua no Brasil, não dormem…

Olhei para ele ( não era o reguila ), e acrescentou:

-E aí tio?Em que lugar está mesmo êssi clube?AAC? – tinha vestida a t-shirt, que lhes tinha oferecido.

P.s. - Não estranhem por isso, que um dia, um futuro presidente do Brasil, diga que é da Académica desde pequenino!

quinta-feira, dezembro 11, 2003

A ILUSÃO DA ORDEM



Não consigo. Por mais que queira, é escusado. Ao longo da minha ainda breve existência, tenho desposado bastas virtudes - a modéstia à cabeça, claro - que assim se vieram juntar ao rol nada desprezível daquelas com que nasci. Há uma, no entanto, que se vai sempre eximindo a tão gratificante matrimónio: a organização, essa virtude de má vida.

É que não consigo mesmo. Nem na vida pessoal, nem na vida profissional. Nem tão pouco consigo conceber cabalmente o conceito. As coisas existem, estão onde as deixámos, ainda lá estarão se ninguém lhes mexeu e, com mais ou menos esforço, sempre se encontram. E as pessoas também. Agendas? Datas de aniversário? Arquivos? Ordem alfabética? Divisões por assuntos? Mal sei o que são.

Admito. Admito, modestamente, que este facto me poderá tornar menos luzidio aos olhos de algumas moças casadoiras. Misturo roupa interior (lavada, valha-nos isso) e roupa de vestir nas mesmas gavetas - onde também cabem pastas, molhos de correspondência presos com elásticos e outras coisas que o tempo e o bolor me impedem de identificar... biscoitos? bombons? sacos de cheiros? Acho que só o Instituto Ricardo Jorge se poderá pronunciar com certeza.

Concedo. Concedo, modestamente, que eventuais empregadores poderiam mudar de ideias se vissem como fica qualquer superfície de trabalho depois de eu por lá estar um ou dois meses. Não tenho alergia ao papel, felizmente, e ele também não parece ter alergia a mim, a julgar pela forma como ele se multiplica e se empilha em formações periclitantes que motivam os suspiros das equipas de limpeza. Tenho várias dezenas de post-its soltos, já sem cola, que voam de cada vez que uma porta se abre. Envelopes diversos, livros, cadernos, folhas, canetas velhas, chávenas de café, garrafas de água, material de escritório, tudo partilha o mesmo espaço num são convívio inclusivo e integrador. Nenhum objecto, por mais bizarro, se sentirá malquisto numa secretária que eu ocupe.

Tudo isto vai motivando uns olhares estranhos, uns sussuros no corredor, o desgosto dos meus pais e a consternação de quem comigo já coabitou pessoal ou profissionalmente. Poderia ainda perdurar uma ténue esperança se eu fosse daqueles exemplares do macho lusitano que espalham roupa suja, lenços de papel usados e cascas de amendoim por onde quer que passem mas que têm muito cuidado nas suas coisas, sejam elas ferramentas, livros, discos, dvd's, miniaturas automóveis, selos ou (lembrando um velho texto do Mimosa) pacotes de açúcar. Mas não. Lembro-me que houve uma vez em que ordenei alfabeticamente os meus discos de vinil... lembro-me bem: foi há dois anos. Estiveram assim, durante uns meses, mas não me dava jeito nenhum. Acho que foi por essa altura que percebi a grande virtude de uma existência sem sombra de organização: a frequência com que encontramos o que não procuramos.

A organização espartilha-me a memória. Não fomos feitos um para o outro, reconheço-o com modéstia. A confusão, sim; esse é o meu reino! Não quero arrumar a minha vida. Assim, está tudo ali, em qualquer lado - e não será pela ilusão da ordem, que tantas vezes resulta do arquivamento em compartimentos estanques, que eu me hei-de esquecer.



Trust-no-1



Ainda a pensar que há soporíferos na comida, que organizações secretas ligadas ao governo utilizam a tecnologia Via Verde para ler as nossas mentes, decidi, mesmo sabendo que estou a ser filmado, arriscar a minha pacata vida adulta para vos mostrar algo que ocupava o meu walkman, no tempo em que a pressão de ar dos pneus da minha bicicleta e o tamanho das rodinhas do skate eram assuntos de extrema importância.

I never said I don't like religion-I just don't like TV
You say I got a bad attitude-around you that comes naturally
You say I need more compassion-I can forgive, I just can't forget
You say control my temper-but when I feel like shit, I feel like shit

Why can't I ask any questions if what you say is true
Am I supposed to believe everything-or just everything said by you?
And how can you call me stupid-when you don't understand what I say
And how can you call me evil-have you spoken to God today-
And what did He say?

You can call me ugly-but I still dress the way I choose
How you gonna judge me-you've never taken a walk in my shoes
Why don't you ever trust me when I'm smiling-is it a sin to have fun?
And why should I repent when there's nothin' wrong with anything that I've
done?

Naquele tempo, achava que a Verdade salvava toda a gente.


quarta-feira, dezembro 10, 2003


Administração Eterna

Temos tido, nos últimos anos, muito mais que a nossa conta de governantes incompetentes, desonestos, indignos, corruptos, etc., etc., num Carnaval de miséria que mais parece desfilar em anel à nossa frente, tal a improbabilidade de lhe vermos o fim. A expressão "bater no fundo" morreu de obsolescência, que à força de tanto ser raspado e atingido emigrou o fundo, de desgosto. Resta uma inebriante sensação de queda-livre, um passeio em gravidade zero sem Norte nem céu. É assim como flutuar imóvel um metro acima do Trancão pré-Expo, na maré baixa de um dia quente e sem vento.

Neste estado de coisas, figuras há que acabam por ganhar merecido destaque, por todas as razões e mais outra. Uma das mais destacadas, desde (pelo menos) o Verão para cá, é o Ministro Figueiredo Lopes. Dizia-se do mítico Rei Midas ser capaz de transformar em ouro aquilo em que tocasse; pois este Ministro tem o indisfarçável Toque de Merdas, capaz de criar embaraços ao seu governo (a si próprio não direi, que parece imune a essas fraquezas humanas da coerência e da responsabilidade política) a propósito de qualquer assunto que lhe caia na secretária. É preciso uma dedicação tenaz, face aos embrulhos em que se vê metido, para aguentar firme o seu lugar no Governo, à espera de uma oportunidade política favorável para ser remodelado. Até um assunto supostamente tão pacífico quanto seja a nomeação do Comandante Geral da Brigada de Trânsito da GNR ele consegue transformar numa anedota nacional que, esperamos, ainda venha a dar muitas alegrias aos portugueses. Não fosse a Operação Natal da dita BT estar aí e todos nos sentaríamos, pipocas na mão, a ver as divertidas cabriolices do Ministro e dos seus assessores. Há, porém, uma negríssima sombra no horizonte: se este Natal chover mais que a conta, a pilha de mortos na estrada vai engrossar (que esta depende muito mais de S. Pedro do que de S. Bento, como bem se sabe) e a factura vai-lhe ser apresentada.

Para que não sejam tudo más notícias, aqui fica a minha oferta para minorar os seus problemas: estou disponível para comandar a BT. Penso reunir as condições necessárias ao exercício da função, nomeadamente:

-Sou totalmente desprovido de escrúpulos, compaixão ou coerência;
-Não estou a ser investigado por nenhuma polícia nacional ou estrangeira (ainda);
-Sou facilmente corruptível e cedo sem dificuldade a favorecer a classe dirigente;
-Fico bem de farda.

e, o mais importante de tudo,

-Ainda tenho dois dias de férias para gozar aqui no escritório, o que me permitiria ocupar o cargo o dobro do tempo dos meus antecessores sem ter que me despedir.

terça-feira, dezembro 09, 2003

PARA PENSAREM!

*Peço que façam um esforço para conseguirem chegar ao fim!

Passou uma semana, após o 2º Congresso da Ordem dos Arquitectos…Já reflecti o suficiente para poder aqui, dar o meu contributo ( sempre pequeno ) e expôr o que se passou…
Não é que interesse muito ao comum dos mortais, porque esse bicho do “arquitecto” há muito que é considerado “persona non grata” na sociedade portuguesa. Ou antes, “o gajo até percebe umas coisas” mas “é muito caro”. Cabe-me aqui, desmistificar, e aproveitar o facto de estarmos a “festejar“ o Ano da Arquitectura ( o quê?Não sabiam? ), para dar a conhecer o que esse bando de desgraçados andaram a conspirar.

Basicamente, os arquitectos andam a tentar revogar um decreto-lei – o célebre 73/73 – que permite ( de uma forma muito resumida ) em disposição transitória ( que passou a permanente, já lá vão 30 anos ), que as Câmaras Municipais ( entidade que licencia os chamados projectos de arquitectura ), aceitem em determinadas condições ( que não esclarece quais ) projectos da autoria de técnicos sem a qualificação profissional adequada.
Posso adiantar, que em toda a Europa, não existe um único país, onde este direito…sim, direito…à arquitectura – tema do Congresso “O Direito à Arquitectura” - , não esteja salvaguardado nos dois sentidos: o do arquitecto e o do cidadão.

Porquê agora, se já existe há 30 anos ( perguntam aqueles que conseguiram chegar ao terceiro parágrafo )?
Porque em 1969 existiam pouco mais de 500 arquitectos inscritos. Neste momento, e em 2003, existem 11.000 associados. Desta forma, a oferta de formação académica é muito maior, e existe ( pensava eu, e já explico! ) uma maior sensibilidade por parte da sociedade civil, em relação às questões do território e da “nossa” arquitectura.

Pensava eu, porquê? Para meu espanto, deparei-me no dia 27 de Novembro, com um estudo encomendado pelo Diário de Notícias e Ordem dos Arquitectos, em que fazia um inquérito à sociedade civil…Entre algumas curiosidades e gargalhadas, deparei-me que 50% das pessoas em Portugal não sabe o nome de nenhum arquitecto português! NENHUM! Nem o Taveira…Já não peço o Siza Vieira, meu Deus! ( não sou católico fervoroso, mas é para realçar o meu espanto! ). Depois, só 15% dos portugueses é que recorreram alguma vez a um arquitecto. No entanto, quando lhes perguntam se acham que o trabalho dos arquitectos portugueses é globalmente positivo, 65% diz que é muito positivo…ou seja, não conhecem nenhum, nunca recorreram a ninguém, mas…ouviram dizer “que são gajos porreiros e até fazem umas cenas giras!”. Finalmente, e quando pediram para referir uma obra de arquitectura que tinham como referência…16% ( a maioria ) referem a Ponte Vasco da Gama ( excelente obra de arquitectura?? ), os estádios quase todos ( claro! ) e só 5% referem o Pavilhão de Portugal.

Dá que pensar o esforço que estamos ( estou! ) a fazer em matéria de divulgação e abertura ao debate público nestas condições. Alguém questiona, quando tem uma dor de dentes, a ida ao dentista? E toda a gente está fartinha de saber que os dentistas são caros, certo? Se existirem uns técnicos que sabem dar a anestesia e pôr um alicate num dente ( não é bem isto o que são os desenhadores técnicos e os engenheiros, mas é para enfatizar a questão! ), as pessoas recorreriam a estes, só pelo facto de serem mais baratos? Põem lá a sua boca?? Se a resposta for negativa, esclareçam-me o porquê, de darem as suas casas a técnicos não qualificados, só pelo facto do preço do projecto ser menos 30, ou 40%. Numa obra de 30 mil contos, a diferença do preço de um projecto, não faz qualquer sentido. E, a longevidade do dente “chumbado”, não é de facto o mesmo! E, pelo menos, conhecem o nome do vosso dentista…
Como se costuma dizer…”cada macaco no seu galho”! O que não tem necessariamente, que ser um galho melhor, o do arquitecto. Até porque, neste momento, não o é...

Outro ponto que me dá que pensar, foi a constatação de que, no lado oposto – do nosso lado! - estivessem 350 arquitectos nesse Congresso num círculo de 11.000 inscritos, numa altura em que está “na mesa do Sr Ministro” a “pasta da revogação deste decreto”. Isto tudo após a entrega de uma petição com 55.000 assinaturas na Assembleia da Republica, que foi aprovada por unanimidade. Ou andam-se todos a “cagar para o mais projecto menos projecto”, ou então ( e é a minha opinião pessoal ), como 67% dos arquitectos têm menos de 40 anos e são trabalhadores dependentes, não puderam ou não quiseram prescindir de 2 dias de trabalho, numa altura de crise…e pagar 16 contos de inscrição…e 2 dias de refeições…e de alojamento…e de copos!

Estamos por isso, numa altura de grande viragem, apesar de alguns arquitectos nem o saberem. Temos responsabilidades acrescidas, mas muitos desconhecem-nas.
É o momento de colocarmos a arquitectura e a cidade, no centro de uma estratégia global de desenvolvimento do nosso país ( pareço o outro! ). Com os nossos parceiros profissionais, com a opinião pública, com os cidadãos, e com os 10.650 arquitectos que faltaram.

A energia que é necessária para conseguir estabelecer esse Direito à Arquitectura, ultrapassa largamente a minha capacidade individual.

Cabe-nos defender a arquitectura e o território como parte integrante da nossa identidade, enquanto país. Paremos de olhar para o nosso umbigo ou para a casa do vizinho, que “nem é grande merda”! Temos que, como em outras situações, querer o melhor de/e para nós, para depois podermos exigir que o “cabrão do vizinho, não me ponha o galinheiro junto ao muro!”.

Cabe-nos a nós arquitectos exigir das entidades públicas, mas também de nós próprios. Mas cabe-nos também, depois deste ano e deste congresso, demonstrar que tudo isto não foi sinónimo de uma batalha corporativista fechada, mas que transcende tudo isso, para garantir a todos os portugueses o acesso aos direitos da nossa Constituição e que passam pela arquitectura e pelo ordenamento do território. Tudo isto é um sonho que convoca o nosso... o vosso... e o meu esforço, dedicação e visão do mundo. Só o alcançaremos, com arquitectos responsáveis e cidadãos exigentes.

Eu, estou a ser responsável por isto que escrevo…agora, sejam vocês exigentes.


sábado, dezembro 06, 2003

Aromas de Verão, Inverno e Paixão.



- “A mim, não me cheira a nada!...”, exclamava Vânia, de sobrolho franzido, configurando desconfiança. Estas coisas são assim. Para alguns, o que é pedra é calhau, para outros, pelo quartzo brilhante às luzes moribundas de um qualquer final de dia, mais será uma gema rara e una. Mas não é de pedras que falamos.

Quem, num dia comum, não se levantou de uma cama quase já feita, seguiu para um banho normal – não fossem os 20 minutos de cozedura, perversamente confortável – vestiu uma roupa informal, e saindo porta fora é agredido por uma sensação de saudade, quente e afável, mesmo quando o frio abunda?

O Aroma…

O Inverno, não terá um? – É claro que sim. Cheira a nozes e avelãs, espalhadas na mesa de vermelho e azevinho frutado. Cheira qual velha arca de sótão, onde está aquele arranjo de flores secas, que ainda resiste ao passar das décadas. Cheira a eucalipto, espalhado pela calçada. Cheira a bondade e esperança, aos risos e canções, ao aguardar da meia-noite. Ao melhor de nós, ainda que, com prazo.

- “Estás a ficar deprimido?”, reforça, enquanto não conseguiu deixar escapar um sorriso maldoso. Sem responder, não pude impedir de retornar um idêntico. Enquanto lhe pousava a mão no ombro e desvanecíamos pela rua, pensava que há muitas coisas que valem mais, ficando em nós, guardadas no quente, entre o primeiro beijo e o melhor poema. Assim, podemos deleitarmo-nos sozinhos, numa insanidade pura de recordações graciosas e bem sonhadas.

Já não conto os anos que passaram, desde aquele dia tórrido e solarengo, quando espreitava o pé dela balouçando no muro, ao ritmo da música de um qualquer rádio a pilhas, na Praia do Poço. Aquele suave embalar, a cada movimento, enjaulava-me o olhar e prendia-me o juízo na intempérie da razão. Não falava, pois não havia nada a dizer. Apenas escrevinhávamos com o olhar, linhas sinuosas e insinuantes de poesia e maçapão.

Um dia, nessa mesma praia, cheguei com timidez, o nariz ao seu cabelo negro. Em transe, uma fragrância singular descodificava-se em mim.

– “Que perfume é este?”, questionei, instintivamente, sem pudor.

– “Perfume?... É só água de rosas…”, respondeu ela, com uma implícita malvadez de sensualidade.

Para mim, todos os Verões ainda cheiram assim.

Não pensei que iria durar toda uma vida, mas percebi nesse momento, que a Paixão também cheira. Posso ser doido e deprimido, mas ainda cheiro o Verão, todos os anos, como água-de-rosas.

E em vocês? Qual é o cheiro da vossa estação?


sexta-feira, dezembro 05, 2003

E COMO VAMOS PARTIR DE FIM-DE-SEMANA...

...cá fica mais uma tradução livre, mantendo a tradição de divulgar os nomes maiores da canção popular.



Vision, de Peter Hammil

I have a vision of you, locked inside my head;
Ele há alturas em que parece que ainda te vejo.
it creeps upon my mind, and warms me in my bed.
É mais à noite, e os lençóis, na manhã seguinte, bem o provam.
A vision shimering, shifting
Vejo-te a tremer, a rodar, a arfar...
moving in false firelight;
A tirares o roupão em frente à lareira...
a vision of a vision,
Sinto-me um pastorinho a ver Nossa Senhora.
protecting me from fear at night,
E ver-te assim tem um efeito dois-em-um: serves de Anjo da Guarda
as the seasons roll on, and my love stays strong.
e, seja Verão ou Inverno, acordo teso com um motivo mais nobre que a simples vontade de mijar.

I don't know where you end, and where it is that I begin.
Aquela confusão de braços e pernas que o teu contorcionismo permitia...
I simply open my mind and the memories flood on in.
As tuas pernas abertas em convite e a frase: "ora relembra-me lá a fundura da Vareta..."
I remember waking up with your arms around me;
O teu esgar de dor quando eu te acordei com uma cotovelada no queixo porque me estavas a sufocar com os teus braços...
I remember losing myself
E aquela vez em que jogámos à cabra cega e me vendaste
and finding that you'd found me,
e foste dar comigo em casa da vizinha, que assim às escuras até se parecia contigo...
as the seasons rolled on, and my love stayed strong.
Enfim, antes passar a noite a sonhar com isto que com cobras - e lá acordo eu de mastro erguido.

Be my child, be my lover,
"Anda cá, pequenina, que eu conto-te uma história", dizia-te eu.
swallow me up in your fire-glow.
E tu abrias-me a braguilha e dizias: "Eu vou-me entretendo com isto mas sou toda ouvidos!"
Take my tongue, take my torment,
Eu queixava-me: "Dói-me isto ou dói-me aquilo." e tu respondias: "Eu dou um beijinho que isso passa"... e pumba! davas.
take my hand and don't let go.
Por causa de ti até aprendi a conduzir só com uma mão...
Let me live in your life,
Era tudo muito bom e muito bonito... o pior eram as despesas.
for you make it all seem to matter.
E o teu mau feitio, caralho! Qualquer coisinha era logo um espavento!
Let me die in your arms,
Eu nem tive a culpa que batesses com a cabeça logo ao primeiro bofetão...
so the vision may never shatter.
Mas, quando te vejo, é ainda antes de teres o crâneo aberto.
The seasons roll on;
De maneira que, seja Verão ou Inverno,
my love stays strong.
O primeiro esguicho da manhã ainda é sempre à tua conta.

Espero que gostem desta história de amor eterno. E espero, essencialmente, que ignorem a tradução e que reparem como o poema é bonito. Bom fim-de-semana.





VEM...A BAHIA TE ESPERA!

Por razões que ela não me explica, tive a oportunidade de ir para o Brasil, “passar” uns quantos meses, para acabar um trabalho que já tinha começado em Portugal. Hoje, continua muda e teimosa, perante as minhas solicitações, e permanece queda e irredutível, em tecer-me as respostas aos porquês que produzo.

“Ouves? É o chamado insistente dos atabaques na noite misteriosa. Se vieres eles tocarão mais alto ainda, no poderoso toque do “chamado do santo” e os deuses negros chegarão das florestas d´África para dançar em tua honra. Com seus vestidos mais belos, bailando os mais doidos bailados. E as yawôs cantarão em nagô os cânticos da saudação.”

Sem saber bem como, lá estava eu a atravessar o Atlântico ( sem mala de cartão ). O Atlântico é aquela barreira que nos separa, mas também é aquilo que nos une, dizem eles…costumo pensar que “em cada onda que vem, há sempre uma que vai, que pode não ser a mesma, mas é uma amiga dessa.” Tem sido assim, desde 1500 e muitos, altura em que o Pedro ( não é o Santana, mas o Cabral…não o do PCP, mas o outro ) foi para aquelas bandas, na ânsia de alargar o nosso território.

“Os saveiros abrirão as velas e rumarão para o mar largo de tempestades. Do forte velho virá música antiga, valsa esquecida que só o ex-soldado recorda. Os ventos de Iemanjá serão apenas uma doce brisa na noite estrelada. O rio Paraguaçu murmurará teu nome e os sinos das igrejas de repente tocarão Avé-Maria apesar de que o crepúsculo já passou com a sua desesperada tristeza.”

Decide, por questões que não cabe nem a ele ( porque já morreu ) nem a ela ( porque não quer ) explicar, nem a mim aprofundar ( apesar de isso ter tido a ver com o tal trabalho ) fundar uma cidade no topo de um morro ( termo brasileiro ), que fosse "segura" e que tivesse possibilidades de se expandir, conforme era solicitado pelo Reino…ficou Salvador, e como se apaixonou pela imagem da Baía ( porto seguro de embarque ) que estava a seus pés… casou-se, e então optaram por Baía como nome de família: Salvador da Bahia.

Por razões que ela persiste em guardar, a cidade tornou-se num pedaço de mim. Pedaço que me consome a cada momento, em que tenho a absoluta certeza de que ela poderia ser diferente…ou não.

Salvador é uma parte dela, da minha e de muitas pessoas que aprendi a conhecer, gostar, falar, brincar, partilhar, cantar, dormir, trabalhar, nadar, sorrir, gritar, chorar…amar.
Salvador é a palavra mais próxima daquela que identifico como “saudade”.
Tenho saudades dela e das suas gentes; do apartamento velho, porco, sujo, quente, e que ficava a dez metros literais da praia – Porto da Barra -, onde os portugueses tinham instalado o primeiro forte; do pôr-do-sol a Oriente ( dos poucos locais no Brasil onde o sol se põe, no mar - mesmo lado que em Portugal ); da humidade, da noite, das danças, da música…do Aché, do concerto do Lulu Santos e Terra Samba no "Clube de Ténis", do Djavan na "Concha", dos ritmos do Carlinhos Brown e dos shows da Timbalada nas "favelas" ao domigo, da Daniela Mercury, do Caetano Veloso e do espectáculo da Maria Bethânia com a Gal Costa e Pavarotti na "marina, junto ao forte"; da dança de Candonblé seguida do Caruru de frango, com Vatapá; do aracajé simples que é vendido nas barracas que bloqueiam os passeios, da muqueca de camarão ou de peixe no restaurante da esquina em cima do mar, da comida a quilo, das saladas, dos sucos de laranja, da água de coco da Lagoa ( a tal de que fala o Caetano ); do restaurante Iemanjá, da própria deusa, do Senhor do Bonfim e das suas pulseiras, das tartarugas da Praia do Forte, das casas de colmo da Praia dos Hippies, da praça e do jardim do Campo Grande, da obra de engenharia do Elevador Lacerda, da cor, das casas, do cheiro do Pelourinho, da Graça, Vitória e Nazaré , da virgindade da Ilha de Itaparica, das praias da Ilha, do mar…o mesmo…de Salvador e da vida que aí tive durante aqueles meses.

A moeda ao ar, parece-me ter sido hoje ( e porque essa puta continua sem me dar respostas ), o "método" escolhido, na altura em que optei por ficar aqui, em troca daquela outra cidade. Foi coroa…devia ter sido cara. Salvador é mais a minha cara.
Aqui tenho o meu reino, a minha coroa, a minha família, a minha cidade, os meus "outros amores", os meus temores, os meus rancores…lá deixei ficar aquela parte dela… e de mim! Sei que, mais cedo ou mais tarde, tenho que ir buscar a peça que falta…nunca deixei ficar puzzles a meio.
Ela?…ela é a puta da vida…

“Vem, a Bahia te espera. É uma festa e é também um funeral. O seresteiro canta seu chamado. Vou mandar que batam os atabaques e os saveiros partam em tua busca no mar. Serão doce brisa os ventos, e as palmas dos coqueiros te saudarão das praias.

Vem, a Bahia te espera! “
Bahia de Todos os Santos, Jorge Amado


quinta-feira, dezembro 04, 2003


Por causa deles.

Rejubilou parte da belogosfera a propósito do aparecimento da Causa Nossa. Uns por gostarem de ler os seus autores, outros por anteciparem importante reforço para as suas "fileiras", outros ainda esfregando as mãos de contentamento, perante a perspectiva de poderem zurzir algumas das figuras gradas do "adversário" (senão do "inimigo"). A restante parte, a de leão, limitou-se a ignorar. Por enquanto. Independentemente das motivações que levam cada um a comentar o facto em si, importa a reflexão sobre o que leva tal constelação de pensadores consagrados (de facto, pelo menos, que de méritos não trato) a estabelecer uma banca nesta terra bravia.

Esvaziada de importância (por culpa própria) a Assembleia da República, enquanto palco privilegiado do debate político, mudou-se o confronto para a Comunicação Social. É nas "notícias", nas "investigações", nos "escândalos", nas "entrevistas" e outras inanidades sub-laterais que se lançam os ataques e encenam as defesas. É nos espaços de comentário dos frustrados opinion makers nacionais (frustrados porque, apesar dos seus valorosos esforços, continua estéril a sociedade portuguesa quanto à concepção de uma verdadeira "opinião pública") que se esboçam as posições oficiosas das respectivas famílias políticas.

Como muito bem reflectiram o Guerra e Pas e o País Relativo, o papel do jornalista nestes jogos florais é, de há muito para cá, de embrulho. A agenda há muito que deixou de levar em conta a relevância das notícias e passou a servir os interesses financeiros do orgão em questão - o share ou a tiragem, não como prémio pela qualidade da informação, mas como objectivo a atingir apesar da informação. A agenda da imprensa há muito que descolou da agenda política, pelo menos até ao dia em que os deputados comecem a agredir-se como forma de chamar sobre si as atenções (se a montanha não vai a Maomé...). Quem exerce algum domínio sobre a agenda da imprensa tem a vantagem decisiva de manter o adversário ocupado na sua defesa, em particular quando se confunde a defesa do mérito de um modelo social ou económico com a defesa da honra ou da dignidade de quem por ele pugna. Em vez de se discutir o Estado-Previdência, coloque-se alguém em Prisão Preventiva. Em vez de discutir o modelo de financiamento do Ensino Superior, demitam-se uns ministros por causa de uma cunha no acesso a este. Se não sofre contestação a relevância destes casos (de polícia, quase diria), é igualmente incontestável a sua pequenez face às questões. Como o número de páginas dos jormais ou de minutos nos tele-jornais é limitado, já se sabe sobre quais vai cair a atenção dos jornalistas...

O advento dos belogues, e a surpreendente massa de belogues "politizados" prova-o, veio oferecer uma hipótese de antecipar, senão mesmo de influenciar, a agenda da imprensa. Oportunidade preciosa e irrecusável, já se vê. E é, creio, o que realmente levou à criação desta Causa Nossa: a vontade de des- ou re-equilibrar as coisas. Este mais-que-aparente alinhamento de belogues em lateralizações gastas é, em si, um sério atentado à natureza virtualmente infinita dos matizes de pensamento que o meio proporciona. Não enriquece, apenas acrescenta. Cada um dos autores teria, decerto, muito a comunicar; aliás, fá-lo em vários orgãos de comunicação, a que todos têm acesso mais que facilitado. Mas, então, porquê este colectivo tão obviamente enviezado?...

quarta-feira, dezembro 03, 2003

O meu SPA...



...não tem nada a ver com esta fotografia, sacada de qualquer lado sem pensar duas vezes - nem uma, confesso - em direitos de autor. De repente, toda a gente desatou a falar de spa's e de resorts. Em especial, aquela purulenta camada de jovens profissionais de sucesso que passam férias aqui e ali e fazem curas de sono e mesoterapia e acendem velas relaxantes por tudo e por nada e que substituíram a terrível mania dos cartões de visita pela sacrossanta pergunta "qual é o teu spa?". Como tenho enormes complexos e não gosto de me sentir sozinho no mundo, decidi arranjar um spa, um sítio onde me sinta bem e de onde saia com energias renovadas.

O meu spa é o Café Paraíso, em Tomar. Claro que não é assim que respondo, não. Eu sou muitíssimo esperto - não sei se já tinham reparado... E como sou muitíssimo esperto, respondo: "O meu spa é o Paraíso, em Tomar". Suprimindo a palavra "café", faço um vistão porque ninguém conhece e pensam que é uma coisa muito selecta e muito moderna. Todas as noites rezo a Santa Rita de Cássia por ser assim esperto como um alho e conseguir mentir com um ar credível.

O Café Paraíso, como o nome indica, é um café, ou seja, um estabelecimento onde se serve café e seus derivados, tisanas, refrigerantes, bebidas espirituosas e algumas comidas ligeiras no campo da pastelaria fina, dos salgados e desse fabuloso mundo da sande e da tosta. Fica na "rua principal" de Tomar, a Corredora, funciona há mais de 70 anos e é um dos cafés mais bonitos que conheço. É um espaço amplo, mantém a graça única dos anos 20/30, tem um pé direito que faz salivar os construtores de hoje em dia ("isto dava para três andares, meu amigo, três andares!"), tem quatro colunas, mobiliário da época, dois janelões enormes para a dita Corredora e um salão de jogos nas traseiras.

O que torna o Café Paraíso num sítio único é o facto de estar sempre lá. Eu sei que a frase é críptica, mas eu desmonto-a: às 7h30 da manhã, temos o Paraíso a abrir. É uma tradição de longa data, os funcionários dos serviços da zona dirigem-se ali para o pequeno-almoço e para a leitura dos jornais comprados ao lado, na Tabacaria Discal.

Durante a manhã passam por ali reformados, ociosos e estudantes que faltam às aulas. A hora do almoço é muito calma e a partir das 14h começa a juntar-se o grupo das professoras primárias reformadas e das paroquianas de São João Baptista, às quais, a partir das 15h, se juntam as tribos juvenis de hoje em dia - todas, sem excepção - e às 17h chegam as mães que querem dar de lanchar aos filhos.

A partir das 18h, a caridosa gerência começa a brindar os presentes com uma banda sonora à base de standards de jazz. A frequência diminui, os empregados mais antigos são rendidos por rapaziada mai'nova, e cai-se no mais agradável dos limbos, vendo o tempo passar muito devagar, transportado pelas pessoas que sobem e descem a rua.

O jantar é uma hora morta e, de repente, sem que nada o fizesse prever para quem lá tivesse passado apenas uma tarde, o Café Paraíso torna-se no sítio mais animado da "noite tomarense", o que quer que esta infeliz expressão signifique. Alunos do Politécnico, alunos do secundário, jovens trabalhadores, a pseudo-elite cultural, os conspiradores, os "aspiradores", tudo se junta no Paraíso, mais tarde ou mais cedo.

O barulho é muito, a acústica é estranha, a música é sempre excelente mas nem sempre perceptível. E toma-se o pulso à cidade e é aquele o único sítio onde eu consigo compreender que Tomar ainda existe, que não é o mais lindo dos fósseis nem um antónimo de futuro.

O Café Paraíso é um sítio onde se pode estar sempre que se tem tempo. Ninguém nos escorraça porque as mesas são para refeições. Ninguém nos vem perguntar, com ar ameaçador, se não queremos mais nada depois de termos consumido. Ninguém nos diz "vamos fechar" antes das 2 da manhã. Ninguém nos chateia.

À porta, ainda está uma placa que diz "reservado o direito de admissão". Essa discricionaridade já não é praticada, mas aquela expressão tem um fundo de verdade. Quando somos "admitidos" naquele espaço, ele passa a ser um bocadinho nosso. Ainda para mais, tem aquela potencialidade extraordinária: o meu Paraíso não é necessariamente o Paraíso dos outros, pois tudo depende das horas, do tempo, do ritmo de vida de cada um.

É este o meu spa. Sem massagens, sem banhos de lama, sem algas, sem aromoterapia, sem máscaras de argila, sem toalhas enroladas à cintura, sem piscinas, sem saunas nem banhos turcos. É só um sítio onde sinto que recupero o tempo que me foge noutras ocasiões.







Quem é que nunca quis provar o sabor da bala?


Se a minha casa é o meu castelo, porque é que às vezes eu não me sinto bem na sala?
Quem é que define a normalidade?
Quem é que me explica o que é mentira e o que é verdade?
Quem é que decide o que entra numa enciclopédia?
Quem é que passeia imune, no olho do furacão, quando acontece uma tragédia?
Quem é que fica de pé, quando tudo desaba?
Quem é que sabe a resposta, quando a pergunta nunca acaba?
Quem?




Diálogos de Amizade, 3

-Boa noite, senhores ouvintes, e bem vindos a mais um "À volta do seu dinheiro", o nosso magazine de economia, onde tudo é discutido de forma desassombrada. Esta noite temos connosco o insigne, e meu amigo de infância, Hélder Vil Ezas, o novo Guru da Banca. Boa noite, Hélder.
-Boa noite, Mário. E boa noite ao vosso auditório.
-Hélder, a tua carreira brilhante tem sido desenvolvida, sobretudo, fora de portas. França, Alemanha, Estados Unidos, Itália... conta-nos as tuas experiências lá por fora.
-É verdade, a área em que trabalho está muito mais desenvolvida nos grandes mercados internacionais. Não é de estranhar, dada a nossa reduzida dimensão. Quando se pretende implementar novas estratégias de, sei lá, gestão de fundos imobiliários, não podemos contar que...
-(interrompendo)...desculpa lá, mas isso não tem importância nenhuma. Eu falava daquelas festas que tu me contaste, promovidas pelos grandes industriais, com gajas e álcool e drogas à fartazana, em remotos chateaux com decoração gótica.
-Hã?!?!?
-Sim, Hélder. Quem quiser conhecer os teus trabalhos na área da economia tem dúzias de artigos nos jornais e revistas da especialidade. Aquilo que eu quero saber é como se divertem em privado os grandes senhores do capital.
-Desculpa lá, mas isso sai muito fora da minha área. Além do mais, duvido que os vossos ouvintes queiram conhecer histórias sórdidas como essas de que falas...
-Pois, pá. Por isso é que eu sou um vulto da rádio e tu da economia. Eu mal me aguento para pagar a pensão à Joana e tu não percebes um cu de rádio.
-Bem, mas de qualquer forma isto é uma entrevista a mim, não? É de mim que os teus ouvintes querem saber, certo?
-OK, já vi que tens algum pudor em discutir essa matéria. Mas, para os nossos ouvintes não fiquem completamente desiludidos, sempre vos digo que o Hélder é um granda maluco. Um dia destes, aliás, conto ter em estúdio umas irmãs ucranianas que nos falarão das suas experiências com ele. Adiante.
-O quê? Tu... tu não me digas... como é que tu as conhece...?
-Não interessa agora. Falemos, então, de outras coisas. Como é que estás com a tua homossexualidade latente?
-Quê?!?!? Mas qual homossexualidade latente, pá?
-Então... lembras-te daquela conversa que tivémos há ano e meio, mais ou menos, por causa dumas angústias que te assaltaram quando estiveste aquela temporada na Finlândia? Aquela história de como te sentias nas saunas?
-Desculpa lá, mas isso é de uma baixeza incrível! Isso foram conversas que tive contigo particularmente! Olha, não quero continuar com esta entrevista. Boa noite.
-Não? OK... senhoras e senhores, terminamos aqui o nosso "À volta do seu dinheiro" de hoje. Para a semana teremos aqui o Secretário de Estado do Tesouro, que nos falará das acusações de exibicionismo que lhe têm sido feitas pelos vizinhos. Boa noite. (entra uma música de Burt Bacharach...)
-Ouve lá, tu estás bem? Bateste com a moleirinha nalgum sítio? Que raio de perguntas eram aquelas?
-És muito púdico, tu... contas-me histórias do arco-da-velha, com 2, 3 e 4 gajas, coca à colherada, e vai na volta...
-Mas tu és doido? Se te contei essas histórias foi por sermos amigos!
-Calma aí... isto é o meu trabalho. Amigos, amigos, negócios à parte.

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