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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


sábado, dezembro 06, 2003

Aromas de Verão, Inverno e Paixão.



- “A mim, não me cheira a nada!...”, exclamava Vânia, de sobrolho franzido, configurando desconfiança. Estas coisas são assim. Para alguns, o que é pedra é calhau, para outros, pelo quartzo brilhante às luzes moribundas de um qualquer final de dia, mais será uma gema rara e una. Mas não é de pedras que falamos.

Quem, num dia comum, não se levantou de uma cama quase já feita, seguiu para um banho normal – não fossem os 20 minutos de cozedura, perversamente confortável – vestiu uma roupa informal, e saindo porta fora é agredido por uma sensação de saudade, quente e afável, mesmo quando o frio abunda?

O Aroma…

O Inverno, não terá um? – É claro que sim. Cheira a nozes e avelãs, espalhadas na mesa de vermelho e azevinho frutado. Cheira qual velha arca de sótão, onde está aquele arranjo de flores secas, que ainda resiste ao passar das décadas. Cheira a eucalipto, espalhado pela calçada. Cheira a bondade e esperança, aos risos e canções, ao aguardar da meia-noite. Ao melhor de nós, ainda que, com prazo.

- “Estás a ficar deprimido?”, reforça, enquanto não conseguiu deixar escapar um sorriso maldoso. Sem responder, não pude impedir de retornar um idêntico. Enquanto lhe pousava a mão no ombro e desvanecíamos pela rua, pensava que há muitas coisas que valem mais, ficando em nós, guardadas no quente, entre o primeiro beijo e o melhor poema. Assim, podemos deleitarmo-nos sozinhos, numa insanidade pura de recordações graciosas e bem sonhadas.

Já não conto os anos que passaram, desde aquele dia tórrido e solarengo, quando espreitava o pé dela balouçando no muro, ao ritmo da música de um qualquer rádio a pilhas, na Praia do Poço. Aquele suave embalar, a cada movimento, enjaulava-me o olhar e prendia-me o juízo na intempérie da razão. Não falava, pois não havia nada a dizer. Apenas escrevinhávamos com o olhar, linhas sinuosas e insinuantes de poesia e maçapão.

Um dia, nessa mesma praia, cheguei com timidez, o nariz ao seu cabelo negro. Em transe, uma fragrância singular descodificava-se em mim.

– “Que perfume é este?”, questionei, instintivamente, sem pudor.

– “Perfume?... É só água de rosas…”, respondeu ela, com uma implícita malvadez de sensualidade.

Para mim, todos os Verões ainda cheiram assim.

Não pensei que iria durar toda uma vida, mas percebi nesse momento, que a Paixão também cheira. Posso ser doido e deprimido, mas ainda cheiro o Verão, todos os anos, como água-de-rosas.

E em vocês? Qual é o cheiro da vossa estação?


Arrotos do Porco:


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