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Vareta Funda

O blog dos orizicultores do Concelho de Manteigas


segunda-feira, outubro 27, 2003

Tenho vontade de beber um copo de cólera


Telefonou-me, há uns dias atrás, um amigo esquecido, há dez anos perdido, que agora se achava em Milão; não era bem amigo, era vizinho, conhecido, e disse-me que estava neste continente a tentar a sorte, que de onde vinha com o pouco dinheiro que tinha só comprava a Morte, Camaleão, disse ele, vim à procura de pão e mel, mas ninguém me dá nada, falta-me um papel, a vida aqui parecia certa, mas está a ficar tudo torto, por favor, dás-me uma ajuda, vais buscar-me ao aeroporto?, prometo que só fico uma semana, Camaleão, eu sei que a tua casa é pequena, até durmo de pé se não couber no chão, e eu disse ok, uma semana na boa, mas aqui não é o paraíso que se apregoa, pensa com sensatez, e ele veio à mesma, contei eu as malas, uma, duas, três, e a conversa da semana transformou-se num mês, eu fiquei incomodado, mas que se foda, eu ajudo, pus em acção a família toda, ele disse que fazia qualquer coisa, mas tinha sempre um sorriso de cobra, que engana, consegui-lhe um emprego na Arrifana, para começar muito tijolo e cimento, areia e aço, "Não disseste que fazias tudo?" – "Sim, eu faço.", foi para Sul com a minha família, acertou o emprego, mas não queria procurar alojamento, "Custa mais", disse ele, "Posso ficar sozinho na casa dos teus pais?".
O que me chateia é dar a mão e quererem o braço.
Repito, era meu conhecido, não era meu amigo, fiquei estarrecido com a audácia; dos meus dois melhores amigos, um morreu, e cada vez que penso no passado fico triste, aparece o frio, fico arrepiado, água salgada não deve estragar o teclado, e o outro disse a toda gente que tinha juntado capital, que vinha visitar-me a Portugal, enganou toda a gente, não veio para Portugal, foi atrás dos sonhos perdidos, e acabou preso nos Estados Unidos, ilegal; a este sim, dormia no chão e oferecia-lhe a cama, dinheiro se precisasse, comida e cerveja na mesa, dava-lhe a chave da minha casa de certeza, sem engano, até podia ficar um ano, que eu não me incomodava, porque, há muito tempo, mesmo quando não tinha nada dividia comigo, e quando eu não tinha nada não deixava de ser meu amigo.


Arrotos do Porco:


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